A golpada (parte III)


Pedro Correia,

A decisão foi tão vergonhosa que ninguém a quis assumir. O grupo Prisa garantiu que o fim do Jornal das Sextas e o afastamento de Manuela Moura Guedes dos ecrãs foi da exclusiva responsabilidade da administração da TVI, como se nada tivesse a ver com o assunto. O administrador-delegado da Media Capital, Bernardo Bairrão, mandou dizer que votou contra. O primeiro comunicado da empresa, no melhor estilo farisaico, limitava-se a referir que "tinha recebido" o pedido de demissão em bloco da Direcção de Informação. Lá apareceu enfim outro comunicado igualmente envergonhado da ‘administração da TVI’ (assim mesmo, anónima, sem um nome nem um rosto) a ‘explicar’ que tinha havido uma ‘alteração da grelha de programação’.

Com isto, a anónima administração da TVI cometeu dois disparates: por um lado confundiu informação com programação, o que constitui um erro grosseiro; por outro, assumiu a ilegalidade do processo ao admitir a intromissão numa área que a lei lhe veda. É fácil perceber por que motivo o presidente da ERC, à semelhança do Sindicato dos Jornalistas, considerou "absolutamente inaceitável" o cancelamento do telediário. E até o insuspeitíssimo António Marinho Pinto, bastonário dos advogados, vem dizer que a administração da empresa "atropelou a lei".

Ao menos quando Marcelo Rebelo de Sousa foi censurado na mesma estação, em Outubro de 2004, havia um administrador que dava a cara e o nome: Miguel Paes do Amaral. Agora nem isso.

 

ADENDA: ler este excelente artigo de Pedro Santos Guerreiro. Com um título sintomático: Sei o que fizeste no Verão passado.

7 comentários em “A golpada (parte III)”

  1. A história Portuguesa está cheia de casos destes. A incompetência é, no entanto tanta, que muitas vezes os lacaios tentam agradar ao seu senhor fora de tempo.

  2. Seria bom ter acesso transparênte à cadeia de eventos que levou à decisão de impedir MMG de apresentar o jn6.
    Agora é absolutamente necessário garantir que a limitação à liberdade de expressão não seja consumada. MMG tem que ter palco para dizer o que quer dizer e para publicar o que quer publicar. A limitação à liberdade de expressão não pode consumar-se.

    1. Francisco: o simples facto de, ao terceiro dia, ainda nos questionarmos sobre a ‘cadeia de eventos’ diz tudo sobre a falta de transparência desta decisão que até agora ainda ninguém assumiu em nome próprio.

  3. A indisfarçável golpada
    neste caso de pressões,
    a liberdade foi decepada
    a bem de vis repressões.

    O facto é escandaloso
    e de todo inaceitável,
    neste regime rameloso
    de odor insuportável.

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