A geração parva?


eventhorizon,

Eu, que faço parte da geração “retratada” na agora famosa música dos Deolinda, vejo as reacções e dou por mim a pensar: não pode haver muita fé numa geração que precisa de uma música para perceber, passe a expressão, que há algo podre no reino da Dinamarca.

27 comentários em “A geração parva?”

  1. Oh, já perceberam há muito tempo. Se você faz parte dessa geração, pode confirmar isto. O que a canção fez entender a cada um dos seus membros é que não está sozinho nessa percepção.

    1. Certo; no entanto, será que não sabíamos isso todos?
      A história dos estágios, para falar do exemplo mais óbvio: essa realidade existe há anos. Está errada? Muito errada. Mas só agora é que se fez luz? É isso que me faz confusão, nada mais.

    1. Não discuto a qualidade da letra ou da canção. Apenas não percebo toda a euforia que gerou. Até porque não acredito que essa euforia saia das fronteiras do facebook.

  2. Hamlet precisou do espectro do pai para acreditar na podridão do reino… Com um bocado de fé pode ser que se aviste D.Sebastião nas brumas.

  3. O problema situa-se precisamente aí.

    Sem querer entrar em “ataques”, e embora goste da melodia, já as canções do grupo deolinda me faziam pensar que efeito é que terão estas no Português.

    E penso que são contraproducentes em relação às atitudes que criticam. Clarificando: ao gozar com as atitudes de deixa andar, ram ram, etc., imprimindo-lhes um tom engraçado e alegre, faz com que as pessoas se tornem ainda mais complacentes com os defeitos visados nessas músicas.

    Nada contra o grupo, mas sempre pensei assim.
    Esta música é mais um exemplo.

  4. Se não houver esperança nesta geração, em que outra sugeres que haja, João? Aliás, tu és um bom exemplo de que vale a pena ter esperança na tua geração. E quero acreditar que não serás o único, caramba.

    Sempre houve canções “de intervenção”, de crítica social, e toda a vida essas canções tiveram um papel importante no despertar das consciências mais adormecidas. Por que raio esta, em especial, está a levantar tanto barulho??

    1. Eu não sugiro esperança, Ana. Ou antes: há imensa coisa que poderia ser feita, mas não foi, e não é. Se ninguém aceitasse um estágio não-remunerado, eles simplesmente não existiam. Mas basta um aceitar – ter condições para o fazer – que tudo o resto cai como um castelo de cartas. A minha geração pode aderir aos “hinos” que quiser; enquanto não passar disso, tudo será inconsequente. No fundo, é como dizia Villaverde Cabral numa recente edição da Ler (vi na capa): “só não há revolução porque os papás pagam as contas”. Se não o fizessem, aliás, também não havia estágios remunerados para ninguém (e também já lá estive, já agora).

      (agradeço o elogio)

      Sobre o porquê de esta levantar tanto barulho… também me pergunto isso.

  5. Eu preferiria a expressão “geração aparvalhada”. Porque a parvoíce tanto está naqueles que se deixaram adormecer como na situação das coisas com que eles se deparam.

  6. Ao lado, ao lado… Não foi a geração retratada na música que percebeu, com os Deolinda, a sua condição. Quem a parece só ter percebido agora são as gerações seguintes, aquelas que escrevem editoriais nos jornais e que oferecem estágios curriculares a licenciados.

  7. Caro João, este comentário não faz muito sentido. As canções, bem como outras obras de arte, funcionam como protesto não porque chamem a atenção para um facto mas porque o fazem de forma eloquente. Qualquer licenciado (para não dizer doutorado) a trabalhar num call-center sabe que existem milhares como ele. Não precisa de uma música para se sentir como se sente nem para ter noção da injustiça da sua situação. Aquilo que a música faz é dar palavras comuns a todos que partilham o mesmo sentimento. Nesse aspecto a música é importante.

    Não deixa, aliás, de ser curioso que a situação seja invocada pelos Deolinda, jovens que, pertencendo a essa geração, fizeram pela sua vida e estarão melhor que aqueles que estão a recibos verdes. Trabalharam por isso, certamente, além de terem talento mas, pertencendo à mesma geração, não estão na mesma situação. Talvez por isso possam escrever a música mais desassombradamente. Acho a letra engraçada, mas aquilo que me fascina é que, se fosse poema, ninguém lhe pegava. Precisou de uma música (que até acho fraquinha no contexto dos Deolinda) para conseguir o sucesso.

    1. Certo. Mas das palavras comuns à acção, vai uma distância como daqui a Júpiter. E, de resto, eu olho para as reacções, e reparo que são diversas e ambíguas. Não compreendo ao certo o que a minha geração (em termos gerais) quer: se mais independência e oportunidades para fazerem a vida por si, se o direito a uma zona de conforto (dependência) a que não conseguimos chegar.

      A questão da poesia/canção é muito interessante. Não me tinha ocorrido. Mas diria que tem toda a razão.

      1. Creio que essa geração quererá (em geral, é sempre complicado falar em desejos de conjuntos heterogéneos de pessoas) ter essencialmente as oportunidades de ser bem ou mal sucedido em função das suas capacidades e no seu país. Não digo que neguem a possibilidade de sair do país ou que exijam os tais “direitos adquiridos”, antes exigem como direito fundamental que não lhes neguem o sonho. E é isso que vai sucedendo em Portugal (na minha opinião) de há uns 25 anos para cá.

  8. Engraçado: esta geração “parva” (que também é a minha) é exactamente a mesma que há uns 16 anos apelidaram de “geração rasca”, por causa de uns excessos nas manifs contra as provas globais.
    Além de explorada e de responsabilizada por contas anteriores, a dita geração ainda é caracterizada por insultos. Raio de ideia, nascer naquela época.

    1. Eu sempre gostei das Provas Globais (fiz parte das últimas turmas que as teve do oitavo ao décimo-primeiro ano).

      Eu espero que o termo “geração parva” não pegue. Daí também o meu ponto de interrogação.

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