A Forma da Água


Diogo Novo,

theShapeofWater.png

 

Se o Fabuloso Destino de Amélie e O Labirinto de Fauno procriassem o resultado seria A Forma da Água. A estética do filme é lindíssima e inolvidável. A história é solvente e os personagens também. E é fiel à ideia subjacente a toda (ou quase toda) a filmografia de Guillermo del Toro: a fantasia não é escapismo, mas sim uma forma de confrontar os horrores do mundo.

Apontam-lhe descuidos e incongruências – dizem, por exemplo, que é pouco plausível que uma simples funcionária de limpeza tenha acesso a um laboratório secreto. Importa recordar que A Forma da Água gira em torno a um monstro anfíbio com poderes curativos. Portanto, e ao contrário de The Post, esta longa-metragem não está obrigada a uma adesão rigorosa à realidade. Pela parte que me toca, o Óscar de Melhor Filme e o de Melhor Realizador estão bem entregues.

18 comentários em “A Forma da Água”

  1. Não concordo exactamente com a tua formulação sobre as incongruências (a fantasia, como a ficção científica, perde-se com frequência nos pormenores), mas concordo com o sentido geral do texto. Tanto o prémio de Melhor Realizador como o prémio de Melhor Filme ficam muito bem entregues à Guillermo Del Toro e a The Shape of Water. A ver se mais logo deixo aqui qualquer coisa sobre o tema.

    1. Creio que o fantástico e a ficção científica se regem por normas diferentes no que toca a pormenores – muito mais importantes para a segunda. Mas venha de lá esse texto, João, que se há tema sobre o qual gosto de te ler é este.

      1. O texto será mesmo sobre o Del Toro. Quanto a esta outra questão: mesmo o fantástico necessita de coerência interna nas suas histórias; ao contrário do que muitos pensam, não é por haver magia, dragões, ou ciência especulativa que se pode fazer o que der na gana. Há limites que devem ser estabelecidos e uma lógica que deve ser seguida.

    1. Tens de ver, José António. O The Guardian foi mauzinho. É verdade que este filme é mais “mainstream” do que o habitual em Del Toro, mas daí a colocá-lo no mesmo patamar que Splash vai uma longa distância. Concedo, no entanto, que a força de The Shape of Water está mais na estética do que no enredo. Ainda assim, é um grande filme.


  2. Posso estar enganada mas creio que fui uma das primeiras pessoas a comentar aqui que A Forma da Agua é um filme líndíssimo com uma história muito bem contada.
    (Os Oscars na realidade não surpreenderam e ainda bem)

    Não está completamente desajustado uma “mulher da limpeza”, que para a época era apenas um acessório, ter acesso a um tanque onde se encontrava uma “coisa” que ninguém sabia verdadeiramente o que era.
    Acabou por se tornar no encontro fantástico de duas “coisas” extraordinárias.
    Um filme delicioso em que as sortes não usaram a tesoura no final para o deixar enredado na fantasia de cada sonhador.

  3. Gosto muito de histórias. Julgo que história ou conto sem a dimensão do maravilhoso tem pouco interesse. Como história/conto achei lindo demais e até no até com um final assemelhado ao da menina do mar (que daria um belo filme se um realizador português se lembrasse de tal). Não era o filme a que eu daria o óscar. Prefiro outro género. Mas está dado. É história bonita, acaba bem, tem sua moral implícita. E parece que o realizador tem queda para filmes com lado mágico e de desenho animado. Foi a hora dele.

  4. Porque na realidade isto anda tudo ligado, este galardão, serve ainda para realçar que em vez de muros, pontes. And the Winner is…Guillermo del Toro – realizador de origem mexicana. Uma chapada de luva branca ao actual presidente dos Estados Unidos da América.

    Pela minha parte, melhor filme e melhor realizador, é merecido.

    1. A leitura política é possível, claro. Não seria inédito. Basta que nos lembremos da edição dos Óscares em que “Argo” vence “Zero Dark Thirty” e o galardão é entregue por Michelle Obama.

  5. Não vi o filme ainda (está à espera de oportunidade), mas deixo só uma “provocação”: espero que seja melhor que o Fabuloso Destino de Amélie. A verdade é que é um filme que achei muito vazio. Comparei-o na altura a um balão: bonito, leve, mas essencialmente cheio de ar. Se lhe removêssemos a banda sonora (ou trocássemos Tiersen por John Williams) o filme perderia mais de metade do interesse.

    Mas sei que é uma opinião algo isolada. É um filme que não me disse muito, mas de Del Toro tenho expectativas superiores. O Labirinto do Fauno foi um filme que me encantou. Também gostei dos Hellboys e até do Blade que ele realizou. Tenho curiosidade, e muita, em ver este.

    1. Sinceramente, não entendo muito bem a comparação com o “Amélie” – e gosto mesmo muito do filme. As semelhanças esgotam-se num sentido estético próprio (estando a estética de Jeunet e de Del Toro a anos-luz de distância) e numa protagonista feminina algo deslocada que conquista o espectador muito facilmente, mas com personalidades e ambições radicalmente distintas.

      Mas até já vi quem comparasse o “The Shape of Water” ao “Avatar”, pelo que…

      1. A comparação com “Amélie” vê-se na banda sonora, no perfil (físico e psicológico) da protagonista, na solidão como tema, na importância dos pequenos gestos (como tão bem assinalas no teu post, João Campos), no peso que a estética tem no conjunto do filme, até em alguns aspectos da fotografia.
        Mas já vi que estamos todos de acordo quanto ao “Labirinto de Fauno”. É uma boa base de entendimento.

        1. Mas as bandas sonoras são tão diferentes… e sim, sendo dois filmes profundamente estilizados, não poderiam ser mais distintos. Não me é difícil pensar noutros nomes que pudessem realizar a história de “The Shape of Water” – na sua essência ela é bastante simples e as suas influências são bastante comuns -, mas não me ocorre um único que a filmasse como o Del Toro a filmou.

          Acho que “O Labirinto do Fauno” só não é consensual entre alguma “elite” que se recusa a tocar numa obra de fantasia, não vá sair de lá contaminada. É um filme extraordinário.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *