Por duas vezes durante o século XX os alemães usaram a força. Da primeira vez, para além de inveja dos impérios alheios, tinham medo da Rússia e jogaram na antecipação. Da segunda tinham sede de vingança e um psicopata na chefia do governo. Mas quem usa a força e perde fica mal visto (ganhando, é raro). Agora os alemães têm grande parte da Europa subjugada. Não porque tenham usado a força. Não por impulsos expansionistas. Não por serem liderados por um psicopata (embora haja quem esteja perto de o afirmar). Os alemães têm grande parte da Europa subjugada porque fizeram algo mais do que suficiente perante países como os do Sul: mantiveram um módico de inteligência e determinação. Souberam fazer contas, potenciar (ou – e já não é pouco – evitar prejudicar) as exportações numa economia globalizada, manter-se dentro de limites não escandalosos de défice e de dívida (pelo menos, não escandalosos para uma economia com o potencial de recuperação da deles e que teve de pagar a reunificação)*. Deve ser por isso que tantos alemães ainda não perceberam qual foi o seu erro, porque são acusados de insensibilidade e de destruírem o «projecto europeu», eles que até tiveram dos menores aumentos salariais na Europa nos últimos quinze anos. E deve ser por isso que nos dói tanto. Eles subjugaram-nos (desta feita quase sem o desejarem) usando a nossa estupidez. Seria mais fácil de encaixar se tivessem usado a força.
Evidentemente, a ironia é que nem com todas as suas cautelas eles vão escapar incólumes. Ou pagam (mais salvaguarda, menos salvaguarda que qualquer Sócrates versão 2.0 ou Zapatero versão 2.0 ou Berlusconi versão 2.0 ignorará olimpicamente), aceitando desse modo submeter-se à lógica de sempre dos países do Sul (prioridades erradas, indisciplina orçamental, desvalorização, inflação), ou, por incrível que pareça, serão vistos como o país que, pela terceira vez em cem anos, destruiu a Europa. E isto mostra que talvez não tenham sido afinal assim tão inteligentes. Já dizia a minha avó, morta e enterrada sem uma dívida ainda nem se falava do euro: devemos dar-nos bem com toda a gente mas é preciso saber quem se mete em casa. Eis o vosso erro, alemães.
* Tem algum interesse (bom, eu acho) constatar como, na sequência da crise do subprime, Merkel, essa megera incompetente, conseguiu manter o défice em valores similares aos que Schröder tinha autorizado, sem subprime, antes de ela chegar ao poder (os socialistas, os socialistas…). Já agora, comparar com os nossos dados (segundo creio, o termo técnico é «descalabro completo»).

Muito bem. E como falta dinheiro nasceram muitos adeptos de um novo Tratado de Versailles com grandes penalidades sobre os Alemães.
Lucklucky: a analogia correcta, pelo menos julgando pelo que por aí se lê, parece ser o Acordo de Munique – a capitulação da Europa perante os interesses da Alemanha. Apesar de, desta vez, a Alemanha não estar minimamente interessada em anexar a Checoslováquia nem qualquer outro país.
A minha analogia refere-se aqueles que trazem as Guerras Mundiais iniciadas pela Alemanha como razão para estes pagarem as dívidas dos outros.
Pelos vistos o pagamento de Versailles ainda não acabou e há um outro Versailles por causa da Segunda Grande Guerra.
Isto quando os Alemães já são contribuintes líquidos para a UE.
Post elucidativo, para quem quiser ser elucidado.
Obrigado, Tiro ao Alvo.
Há um chavão em gestão que afirma que a maior incompetência é culpar os outros pelos nossos fracassos.
Portugal faliu, mas a culpa continua a ser dos outros. Continuamos, portanto, no bom caminho.
Precisamente. Não sendo exclusividade nossa, é pelo menos uma nossa especialidade. Afinal, quantos portugueses, após um acidente de trânsito, admitem a responsabilidade? Quantos admitem uma derrota do seu clube de futebol como tendo sido justa? E por aí fora.