A fome e a vontade de comer


Rui Rocha,

Correia de Campos já foi, como se sabe, ministro das Parcerias Público-Privadas da área da Saúde (a bem dizer, da falta dela). Agora, entre outros múltiplos afazeres, exerce também como colunista. Tal actividade pressupõe que tenha uma coluna. E isso é coisa que Correia de Campos, pelos vistos, tem. No caso, aquela que o Económico, com aparente irregularidade, lhe disponibiliza para actuar como trompeteiro das gestas de José Sócrates. Trata-se, por isso, de uma coluna torneada e retorcida. Trabalhada em baixo relevo. É certo que lhe falta a imersão na realidade, ela própria já submersa. Mas, sobra-lhe a alucinação de um país que não conhecemos, situado algures na Socratosfera.  No último artigo, para além de celebrar mais uma homilia pela ressurreição semanal do menino, o escriba insurge-se contra objectos devoradores não identificados que diz estarem “desejosos de aceder ao banquete do poder, atiçados pela fome prolongada de cargos e prebendas“. Isto é, a crítica não se dirige ao banquete do poder, nem aos cargos e às prebendas propriamente ditos. O que parece incomodar Correia de Campos é que outros, que não os actuais convivas, queiram servir-se. Ora, sendo este tipo de fome sempre criticável, independentemente das bocas e dos estômagos que a experimentam, a análise séria implicaria que Correia de Campos escrevesse alguma coisa sobre o grau de saciedade dos que estão, neste momento, sentados à mesa. Não o tendo feito, teremos de concluir que a crítica da fome é feita em representação de todos aqueles que têm ainda muita vontade de comer.

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