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Há dias José Milhazes criticou os artistas que irão actuar na Festa do Avante, nisso compactuando com o efectivo apoio que o PCP tem dado à invasão russa da Ucrânia. À esquerda -. e na extrema-direita, dado o actual “compromisso histórico” entre as sensibilidades ditatoriais – logo o criticaram, e mais surgiram os hipócritas clamando que se trata de um acontecimento cultural, como se que apolítico, abjecção mistificando as críticas como se fossem “um discurso de ódio”, capitaneada pelo sempre tão elogiado António Filipe.
Nisso recordo as minhas sensações sobre os artistas (músicos e não só) que ao longo dos anos participaram na Festa do Avante. E replico o que sobre eles botei num postal de Agosto de 2015:
O último festival de Verão a que fui foi a Festa de Avante, ali pelos meados dos 1980s, pouco após os meus exactos 20 anos. Fora lá desde o início, em 1976, pois o camarada Pimentel – apesar das suas suspeitas quando ao desvio de direita “eurocomunista” de Berlinguer, tal como o de Carrillo e, também, também …, de Marchais -, acompanhara-me na FIL diante dos Area, os daquela hendrixiana “Internacional”, e, no ano seguinte, deixara-me assistir a Eugenio Finardi, aí já ombreando com os míticos Fairport Convenction.
Naqueles tempos a Festa do Avante conjugava gerações, e nos anos seguintes a gente, já livre da tutela paternal, aterrava ali a beber durante três dias (e a fumar que se fartava, vá lá, que também era verdade), a “camaradar” entre nós e com os mais velhos dali, os camaradas mesmo, aqueles voluntários dos pavilhões regionais a rirem-se dos nossos efusivos “camarada” e nisso a serem camaradas, no servirem/ajudarem às cervejas e nos comes, estes mesmo para nos manterem em pé, e mesmo assim nós por vezes a desconseguirmos, que as noites seguiam já longas…
Nisso nós, e naqueles tempos tão diversos dos de agora, víamos pavilhões do mundo inteiro (o comunista, claro, ali propagandeado com tantas maravilhas) e do resto do país, nestes com os petiscos locais, jogava-se xadrez com os macro-grandes mestres soviéticos e ouviam-se inúmeros músicos de todos os lados, desde os desconhecidos, e alguns que músicos!!!, e os Dexys Midnight Runners (que concertão), aquele Chico Buarque (no apogeu!!, ainda que trémulo por questões lá dele, biográficas), o Manu Dibango (Manu Dibango em Lisboa naquele tempo? tão raro que me obrigou a voltar àquela Festa), o rock celta então em voga, proto-etnomusic essa que veio a ser dita world, o Ivan Lins provavelmente no melhor concerto da sua carreira (com a belíssima mulher de então, uma loura Lucinha a alumiar Lisboa), Jorge Pardo, o fantástico “corno” de Paco de Lucia, num pavilhão menor numa actuação inesquecível da qual nada recordo, Makeba sem eu saber quem era Makeba, o gigante Luis Gonzaga diante de uma audiência que não o sabia ouvir, Charlie Haden a enfrentar um público estupefacto e também Max Roach, e tantos outros, ali todos os anos polvilhados pelo discurso quase final do camarada secretário-geral, o grande Cunhal.
Foi mesmo isso, este, que me acabou ali. Pois, já cruzados os 20 anos, deu-me a azia, enorme, cansado de constatar que nenhum Sérgio Godinho, Carlos do Carmo ou Vitorino, sempre enfatuados – e ainda hoje assim seguem – com o slogan da liberdade na boca, como se dela fossem legitimados porta-vozes, dedicava alguma canção, pequena que fosse, àquele Sakharov então sob custódia, e das duras, que ninguém dos grupos de música popular ou mesmo do rock português havia lido Soljenítsin e ali o invocava, de que nem os Rão Kyao ou Telectu se lembravam do Solidariedade ou da Carta 77, que nenhum daqueles cantautores flausinos se lembrava da Albânia, de Angola, da Roménia quando cantarolavam em nome dos perseguidos na América Latina – então devastada por militares fascistas. E que o Ary dos Santos, poeta histriónico gritador de poemas diante de milhares, nunca lembrava os homossexuais perseguidos (e de que maneira) nos países que eles tanto promoviam.
Um dia – sei lá quando, mas já depois dos The Clash no Dramático de Cascais -, esperava por um qualquer grande nome, desses do concerto de encerramento após o comício do camarada Secretário-Geral, Cunhal ele mesmo, aquela apoteose (“cultural” dirão os de agora) final. E antes da arenga, tal como em todos os anos, lá se levantou a multidão a cantar o hino (sim, o bacoco “às armas”) de punho direito erguido. E eu caí num “que faço eu aqui?!”, qual Rimbaud entre os selvagens, ali na Ajuda, e concluí – repito, nos meus vinte anos, no início dos 1980s, bem antes da queda do Muro quando alguns descobriram que afinal…, décadas antes da internet, quando outros descobriram que afinal… – “nunca mais cá venho!” (sim, regressei, a ver o Manu Dibango, uma suspensão episódica dos princípios).
Pois aqueles gajos, mesmo aquela turba simpática, o povo d’aquém e além-Tejo, eram, e mesmo sem o saberem, pobre gente alienada (como dissera o tal Marx), e nisso o inimigo. Vil. Segui para outros concertos, paragens, convívios. Pois a “cultura” – e os arautos da “liberdade” – não moravam ali.

O comunismo não passa de uma utupia impossível de se atingir e, na tentativa de lá se chegar desagua sempre na tirania desenfreada para vergar o indivíduo em prol do suposto bem comum, e no roubo à descarada dos bens de quem trabalha ou trabalhou para os amealhar. É portanto, uma corrente política de abusos de poder múltiplos.
A verdade é que entre o fascismo e o comunismo (e até o socialismo mais extremado) que venha o diabo e escolha qual o pior. Ambos advogam um estado todo-poderoso e totalitário, ambos advogam o controle da CS e a promoção da propaganda falsa a toda a hora, ambos provaram que levam sempre os países à miséria ou à guerra deixando um enorme lastro de abusos e de mortes para trás, ambos não admitem que as pessoas pensem por si e diferente, isto é, são profundamente anti-democraticos. Acho uma enorme incongruência, o ódio que existe para com o fascismo (e bem diga-se) mas depois a aceitação vergonhosa que existe para com o comunismo no nosso país, a aceitação duma política de opressão, anti-democratica, de empobrecimento de falsidades atrás de falsidades e meias verdades, é realmente incrível como é que num país da UE uma gente destas tem a aceitação que tem (inclui-se aqui o BE, parte do atual PS com Costa e Nuno Santos à cabeça e claro o PCP). Enfim não é por acaso que vamos ficando cada vez mais para trás na Europa do progresso mas que na miséria estamos sempre bem lá à frente, com o comunismo a controlar agendas e sindicatos e com o socialismo à moda da Venezuela de Costa não há como fugir à miséria.
Não há Utopia alguma.
O Comunismo reclama o poder total do Estado Comunista sobre o Humano.
Qual a Utopia quando o Comunismo pelo Estado controla o Humano em todos os aspectos da sua vida? É simplesmente força bruta.
O Comunismo e o comunismo português são coisas diferentes. O primeiro é uma teoria política e social falhada da era dos fascismos, uma coisa alienígena à natureza humana, que nunca resultou e que por isso degenera sempre num sistema de corrupções variadas, tendencialmente genocida. O segundo é uma “social currency” bem-sucedida, que a coberto de diversas situações e conjunturas se instalou como o pequeno pacemaker de um Estado balofo, pobre e estúpido. Ser uma moeda social implica que existe um “discurso” que é mais ou menos fechado e mais ou menos dominado por um conjunto de indivíduos que, por o dominar quase exclusivamente, garante acesso a lugares e a um poder discreto na hierarquia do estado através do controlo de sectores-chave. A verdadeira ameaça a uma coisa destas não são os fascistas imaginários que nunca ninguém viu nem o grande capital (o que garante que aquilo funciona): são os esquerdismos paralelos que ameaçam tornar-se eles próprios a moeda social e usurpar a coutada que lhes deu tanto trabalho a surripiar.
“…uma coisa alienígena à natureza humana, que nunca resultou e que por isso degenera sempre num sistema de corrupções variadas, tendencialmente genocida…”
Contesto essa afirmação de que o Comunismo nunca resultou.
O Comunismo resultou quase sempre durante décadas por isso é que os Comunistas repetiram sempre o mesmo modus operandi nas mais variadas culturas, na Europa, em Africa, na America Latina, na Ásia.
O problema é que as pessoas ainda analisam o Comunismo depois destes anos todos a partir das palavras dos Comunistas para atingir valores burgueses como fonte primordial e séria. Tal é absurdo.
Se ao invés analisarmos o Comunismo como Ideologia para obter o Poder e lá permanecer sem contestação vê-mos que o nível de falhanço Comunista é bem menor e com casos significativos de sucesso.
Eu acho que falha no sentido em que no fundo não corresponde a nenhuma aspiração humana: a igualdade absoluta nos resultados, a normalização de tudo, não é uma condição satisfatória. Só mesmo nos antigos regimes e nos regimes da era moderna que correspondem aos fascismos de variada ordem que existiram é que a ideia de totalidade e uma visão “absoluta” da sociedade é imposta como aspiração colectiva. A própria cultura dessas épocas expressa uma ideia de totalidade, uma concepção do mundo em que a existência tem uma direcção e corresponde a uma ideia central (a validade da existência é justificada pela direcção). Mas nas sociedades contemporâneas não existe uma centralidade, é como o Deus central de Pascal que está em todo o lado, e o que existe é uma aspiração de diversidade, de distinção: o verdadeiro eu já não está no exterior como no tempo de Gaugin em que para encontrar a origem (o eu original) tinha de se ir morrer ao exótico — mas no fundo das ideias que se afastam, daquilo que se raspa para encontrar um espaço novo. O diverso. No fundo é o que dizia Deleuze, que até era um gajo de esquerda (dizia ele, naquela altura que outra coisa se poderia dizer?).
É favor eliminar o terceiro parágrafo (duplicado).
Muito obrigado.
Com papas e bolos se enganam os tolos. “Festa” de engana meninos.
Ouvia na TV alguém defender que actuar no Avante não é sinónimo de ser militante do PCP.
Penso que é lógico.
Tal como logicamente ninguém, a começar pelos próprios artistas, veria qualquer problema em actuar num certame culturalmente promovido pelo Chega.
Afinal, o dinheiro não tem cor. Ou tem?
Está lançado o assunto, a coisa estava parada que até já se fala pouco da guerra na Ucrânia. Nada melhor que acender a chama do Milhazes. Do perigoso Milhazes, digo eu.
Por ele deveria haver um distintivo, ou um aroma, para sabermos, na rua, quem é apoiante de putin, ou sequer que queira que acabe aquela guerra, para evitar contágio.
Todos os anos, tem sido sempre assim, quando chegam os dias da Festa aparece uma novidade para a criticar por ser de propaganda ao PCP, embora seja cópia do L’Humanité do PCF e L’Unitá do PCI.
Nos anos atrasados não devia ser autorizado por casa da covid este ano é do respeito a ter por causa da invasão russa à Ucrânia
Parece que as festas/concertos realizados e a realizar por todo o país tiveram que ser visados pela comissão de censura milhazes.
O Milhazes ainda não explicou o que é que andou a fazer durante 40 anos, na URSS. 40 anos!
Quem quiser vai à Festa, quem não quiser não vai. Até pode ir, apenas, para ouvir certo conjunto/cantor, beber uma cerveja e querer lá saber do PCP.
Na festa do Chão da Lagoa, na Madeira, vão sempre milhares de pessoas e nem todas acabam por votar no PSD.
Vou esclarecer: o PCP é livre de organizar a sua Festa do Avante; os seus militantes e simpatizantes são livres de colaborarem na sua organização e de a frequentarem; os restantes são livres de a ela ocorrerem pelos motivos que entenderem; os democratas são livres de criticar os artistas (e outros) que enchem a boca com termos como “democracia” e “liberdade” e que sempre se associam aos comunistas para a festança; e os anónimos filhosdeputas são livres de comentarem anonimamente as suas imbecilidades. Isto é a democracia.
Á Zita Seabra ainda se pode dar o benefício da dúvida, agora este Milhazes é um autêntico ressabiado, não lhe deram o brinquedo pretendido. A este prefiro a médica indultada das brigadas revolucionárias.
Milhazes faz um excelente serviço. Prefere a médica que se tivesse o Poder talvez o colocasse no Gulag?
Não me deram o cargo de Secretário-geral!
O Milhazes já explicou o que andou a fazer na URSS durante 38 anos num livro “As minhas aventuras no país dos sovietes”. Leia e depois fale.
Dantes havia os cães do Pavlov.
Agora há os cães do Lavrov.
Um deles, pelo menos, já veio hoje ladrar aqui.
A dos “cães de Lavrov” está bem sacada.
Tem rima perfeita.
Muito bem, toca a ameaçar músicos por tocarem na Festa do Avante. A seguir vamos:
– Ameaçar velhinhas por ao domingo irem ouvir um senhor que representa uma organização internacional que protege pedófilos, a Igreja Católica.
– Ameaçar trabalhadores da GALP por essa mesma empresa estar a aproveitar-se de uma situação catastrófica para obter lucros excessivos.
– Ameaçar voluntários da Amnistia Internacional por essa organização estar a fazer propaganda russa.
Vamos continuar ou já é ridículo que chegue?
O comentário – anónimo, claro – tem tamanha ignomínia que responderei em postal.
Para mim meter aqui um nome ou ser Anónimo é praticamente a mesma coisa. Achar que um nome num blogue não é uma forma de anonimato é uma superstição visual. Na verdade é o texto, o que é dito que importa, e não quem o escreveu. Parece-me ser essa a natureza do meio.