A fantástica Wendy Jones e o promissor mas malogrado Fiódor Dostoievski


escafandro,

Há uns meses, uma tal Wendy Jones deixava comentários como este nas páginas da Amazon britânica: «This is just not literature! It’s a good attempt, undoubtedly, and on the right track, and had the author have lived longer he may well have written something of lasting value.» Apesar de todos sabermos que na internet se encontram as opiniões mais absurdas que é possível imaginar expressas da forma mais convicta em que é possível exprimi-las, quando se levava em conta que o objecto da crítica era o livro Crime e Castigo, de Fiódor Dostoievski, generosamente agraciado por Wendy com uma estrelinha, era inevitável pensar: não pode ser a sério. Não era. Pesquisavam-se outros comentários de Wendy (por incrível que pareça, eu até  tenho uma vida – não é é muito boa) e concluía-se que ela sabotava o sistema de recomendações da Amazon conscientemente e com indisfarçado gozo. Por exemplo:

– Justificava a atribuição de uma estrela a Where’s Wally com a circunstância de não ter conseguido encontrar Wally;

– Escrevia sobre Calmer, Easier, Happier Parenting: The Revolutionary Programme That Transforms Family Life: «Great book, but doesn’t recommend Valium. I would have thought Valium was the obvious answer» (para ser sincero, eu também) e sobre Short-Term Couples Therapy: The Imago Model in Action (seja lá isso o que for): «not particularly helpful for one night stands»;

– Admitia ter comprado um determinado livro por a capa combinar com a decoração da sala;

– Afirmava ter adorado Emma, de Jane Austen, porque a personagem principal lhe lembrara a apresentadora de um reality show britânico;

– Propunha-se fazer uma viagem ao Egipto com o filho, parando em todas as tabernas mencionadas no livro Asterix e Cleópatra, esperançada de vir a encontrar o nariz da Esfinge (partido por Obélix, como é do conhecimento geral);

– Confessava que o juízo negativo que faz de Beloved, de Toni Morrison, está afectado pela inveja: Morrison ganhou o Nobel, Wendy ainda não;

– Escrevia sobre Tess of the d’Ubervilles, de Thomas Hardy: «I was disappointed. I was very disappointed. Lo, I lay down on the carpet and cried, yeah, I wailed. I took a pillow unto myself and let out a moan that fair shook the walls. There was a torment of disappointment that came over me, and I was lost.»

Entretanto, nos meses decorridos desde que coligi estes excertos (há posts meus com períodos de gestação tão longos como o da salamandra alpina*), a maioria dos comentários de Wendy desapareceu. A Amazon, de moto-próprio ou na sequência de queixas, que afinal vagueiam pela internet várias dúzias de criaturas sem pinga de sentido de humor, terá decidido apagar os mais abertamente irónicos, deixando apenas aqueles que talvez sejam a sério (caso em que a sobrevivência do referente a Asterix e Cleópatra diz muito sobre o discernimento dos funcionários da Amazon) ou então Wendy, quiçá na sequência de críticas de amigos e familiares, arrependeu-se e apagou-os ela mesma, uma hipótese que prefiro não encarar porque significaria que desistira, que o seu espírito fora quebrado, e a mim, sendo-me difícil explicar porquê, atraem-me à brava pessoas que dedicam orgulhosamente horas e horas do seu tempo a efectuar bem actos um bocadinho tontos. De resto, é a esperança de um dia atingir esse patamar que me faz escrever posts como este.

 


* Pesquisem, pesquisem, que afinal eu também o fiz.**

** Não, apesar do elefante africano (ou, para acomodar espíritos progressistas, da elefanta africana) ser o mamífero terrestre com período de gestação mais longo, este apenas ronda os 22 meses;***

*** Não, as princesas e as actrizes de Hollywood têm gravidezes que a intensidade da cobertura mediática faz parecer longas mas, na verdade, são de duração normal;****

**** OK, pronto, são trinta e oito meses.

12 comentários em “A fantástica Wendy Jones e o promissor mas malogrado Fiódor Dostoievski”

  1. Wendy Jones era porventura menos inventiva do que parecia .
    Provávelmente limitava-se a coligir “opiniões” ouvidas no dia-a-dia aí pela rua (neste caso , lá pela rua).

    Com isso não prejudicava o sistema mais do que ele já está : há quem dê uma estrela a determinado produto porque o envelope vinha rasgado apesar do conteúdo vir perfeito .

  2. E assim se vai aprendendo alguma coisa com um sorriso nos lábios, o que faz parte do ADN deste blogue. Confesso que gostava de conhecer a tal Wendy, JAA. Mas temo que não exista.

  3. jaa, sabendo do desejo (in)consciente de desejarmos que uma ‘mensagem’ nossa tenha impacto em alheios, sinto-me na obrigação de dizer que à conta deste post vou re-ler “Crime and Punishment“.

  4. É mais ou menos o que este blog, o desonesto J. M. Fernandes e a H. Matos(etc.) fazem quando analisam este governo e inversamente fazem, em relação a este, com o anterior. Diagnósticos “lavam mais branco” ou “lava mais negro”, conforme lhes dá mais jeito para poluir a mente do português comum, depois questionam-se, hipocritamente, como é que o país chegou a este estado.
    Só que vocês é sem ponta de humor e em assuntos muito mais sérios(de vida ou morte): muita cara-de-pau, desonestidade e pura maldade.
    Vocês tem consciência? Auto-crítica?
    Sai um carregamento de espelhos para quem diz quem.

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