Escrever ficção científica durande as décadas de 50 e 60 seria certamente um desafio. Em plena corrida espacial, com a exploração do espaço a tomar a forma de uma corrida sem pausas entre os Estados Unidos e a União Soviética, e com descobertas a serem feitas a um ritmo alucinante, qualquer narrativa situada num futuro próximo corria o risco de se tornar obsoleta num instante. Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke sabiam-no bem, quando embarcaram na aventura de escrever e produzir o filme 2001: A Space Odyssey – o resultado, como se sabe, foi um filme de um realismo ainda por superar no género, mais de quarenta anos volvidos. Mas Clarke, escritor do projecto, já tinha o trabalho feito: todos os riscos que a produção do filme enfrentava já ele os conhecia desde que escrevera, em 1960, A Fall of Moondust.
De facto, até aos nossos dias a exploração da Lua – tanto pelos astronautas do programa Apollo que lá “alunaram”, como pelas inúmeras sondas enviadas e observações feitas – não detectou nada que se pareça com o enigmático “Sea of Thirst” que Clarke descreve: uma vasta planície coberta por uma poeira de propriedades estranhas, que parece quase líquida (e age como tal). Isto não quer dizer que não se venha ainda a encontrar algo do género, mas feitas as contas isso pouco importa perante a história prodigiosa que Clarke escreveu.
A Fall of Moondust é um livro com um final potencialmente previsível (ainda que esteja sempre aberta a porta a uma surpresa). O que está longe de ser negativo. Diz-se muitas vezes, não exactamente por estas palavras, que as viagens valem pelo caminho percorrido, e não pelo destino. Se em Rendezvous With Rama, a pergunta que Clarke coloca é “o que os personagens irão lá encontrar”, em A Fall of Moondust a pergunta é outra: “como é que os personagens se irão safar?” A história é simples: com a Humanidade a conseguir alcançar já a periferia do Sistema Solar, a Lua encontra-se permanentemente colonizada, e o turismo lunar é uma indústria em ascensão. Uma das grandes atracções do nosso satélite é, justamente, o misterioso “Sea of Thirst”. O protagonista, Pat Harris, é o capitão da Selene, um veículo concebido para navegar pelo “Sea of Thirst” e mostrá-lo aos ávidos turistas lunares. A viagem que dá início à história parece ser apenas mais uma – até ao momento em que um incidente geológico faz a Selene “naufragar”, com os seus vinte e dois passageiros e tripulantes, e a leva ao fundo daquele mar de poeira. E aqui entra, em grande, a prosa rápida e fluida de Clarke, à medida que dá conta dos esforços das autoridades da Lua e da Terra para levarem a cabo uma complexa e quase impossível missão de salvamento, da luta pela sobrevivência daquele improvável grupo de passageiros, e da aventura de um jornalista veterano para transmitir a cacha da sua carreira. Estas três narrativas dão forma a uma história prodigiosa, cheia de reviravoltas erecheada de elementos científicos que permitem aprender imenso sobre a Lua (Clarke não era um dos “Três Grandes” da ficção científica por acaso).
Para quem nunca leu o género, A Fall of Moondust pode ser uma excelente introdução à ficção científica. Para os afficionados, é sem dúvida um livro a ler (e a reler).


Gosto de voltar a ler-te por cá, Skywalker.
Bom regresso às lides.
Obrigado, Ana. Vamos ver se agora consigo manter alguma regularidade!
Tu vens de outra galáxia, estás perdoado. 😉
São grandes notícias ver-te por cá, João. Abraço.
Obrigado, Rui. Abraço.
Do Arthur C. Clarke só li o Rendezvous with Rama, na edição da velhinha colecção Argonauta, e lembro-me mais do enquadramento (e de questões como a velocidade terminal) do que dos acontecimentos concretos. Mesmo depois de há uns tempos ter lido o teu post sobre ele e de ter estado agora mesmo a relê-lo.
Sinto pena muitas vezes de hoje em dia quase não ler F.C. mas não há tempo para tudo e tenho tantos outros livros por ler…
O Rendezvous With Rama é normalmente considerado uma das grandes obras de Clarke. Do que li até agora (e não foi muito, até ao momento), diria que só é superado pelo Childhood’s End (até hoje, o melhor livro de ficção científica que já li, e que aproveito para recomendar mais uma vez).
O mais difícil para mim no RWR foi conceber aquele mundo no cilindro. Baralhou completamente a minha perspectiva.