A Europa a duas velocidades


Pedro Correia,

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 Rajoy, Sánchez, Rivera, Iglesias: Espanha está há 240 dias sem Governo

 

A 23 de Junho realizou-se no Reino Unido o histórico referendo que ditou o fim de 43 anos de integração do país no espaço comunitário europeu. Horas após o apuramento dos resultados, o primeiro-ministro britânico David Cameron, vendo a sua política integracionista derrotada nas urnas, anunciou que renunciaria àquelas funções.

Abriu-se um processo de sucessão interna no Partido Conservador, com vários candidatos. Venceu Theresa May, a 11 de Julho. Dois dias depois aceitou a  indigitação da Rainha para substituir Cameron, iniciando nessa mesma quarta-feira as funções de primeira-ministra. A 14 de Julho, foram conhecidos os nomes dos ministros e no dia 17  todos os restantes membros do elenco governativo estavam nomeados.

Apesar da turbulência política provocada pelo resultado do referendo, o processo de sucessão de Cameron concluiu-se em três semanas.

Entretanto Espanha mantém-se há oito meses – 240 dias, a completar amanhã – com um Executivo em mera gestão corrente. Um Executivo incapaz de produzir leis, sem efectiva fiscalização do Parlamento, incapacitado de elaborar o orçamento do Estado – instrumento essencial da acção governativa.

O desfecho das urnas foi inconclusivo nas legislativas de 20 de Dezembro: perante o impasse político a que se chegou, os complexos mecanismos constitucionais do Estado espanhol forçaram a realização a 26 de Junho de um segundo acto eleitoral, igualmente inconclusivo. E desde então os partidos continuam com o seu tacticismo calculista. Todos dizem rejeitar o cenário de uma terceira eleição, que de acordo com os prazos previstos na lei fundamental só poderia ocorrer em Dezembro, mas comportam-se como se não pensassem noutra coisa. Isto quando já se avizinham eleições autonómicas na Galiza e no País Basco, marcadas para 25 de Setembro, e se agrava a crise constitucional aberta pela minoria separatista da Catalunha.

O interesse partidário primeiro, o interesse nacional muito depois. Isto apesar de, na ausência de um Orçamento do Estado para 2017 aprovado até 15 de Outubro, Espanha arriscar uma pesadíssima multa de cinco mil milhões de euros da Comissão Europeia por incumprimento do défice e o fecho da torneira do Banco Europeu de Investimento, que em 2015 emprestou 12 mil milhões de euros a Madrid. Além do inevitável congelamento de 1,1 mil milhões de euros em fundos estruturais.

 

Duas Europas, duas velocidades. Duas maneiras opostas de fazer política.

0 comentários em “A Europa a duas velocidades”

  1. Espanha 240 dias sem Governo?

    Excelente.
    Não admira que esteja crescer apesar do lastro socialista que os anteriores Governos lhe colocaram nos pés.

    Também foi assim como a Bélgica e Israel. Este último no auge do rebentar da bolha do crédito. Não existiram governos a “tomar medidas” logo não puderam prolongar a crise.

    1. Excelente? Diga isso à Comissão Europeia, que se prepara para inviabilizar a remessa de fundos estruturais se Espanha entrar em 2017 em regime de duodécimos. Diga isso também às comunidades autonómicas espanholas, que perderão acesso ao apoio financeiro europeu e a verbas transferidas do poder central se não houver orçamento do Estado aprovado até 15 de Outubro.

      1. Espanha está sem dúvida melhor agora que há 300 dias atrás isso é indesmentível, se a Comissão Europeia não entende isso é simplesmente mais uma acha para a fogueira que se vai criando em Bruxelas….

          1. O problema é esse, ouves os comentadores sem ler/pesquisar os factos.

            Dados:
            Desemprego a descer.
            Salários a subir
            Crescimento económico
            Dívida a subir nominalmente, mas a descer percentualmente (a economia está a crescer de modo a compensar)

            Portanto não sei porque dizem isso. Pelo menos para os Espanhóis/pessoas que vivem em Espanha está bem melhor.

            http://www.datosmacro.com/
            (pordata espanhol/global +/-) Podes ir verificar exportações, importações e outros dados que aches relevantes.

          2. O emprego tem aumentado mas é precário e de baixa qualidade, impulsionado sobretudo pelo aumento do turismo (25 milhões de visitantes é a estimativa só para o trimestre agora em curso). E a dívida pública dispara: em nove anos, foi multiplicada por três. Passou dos 383.798 milhões de euros em 2007 para os 1.107.287 actuais (dados do Banco de Espanha divulgados em Junho). Em percentagem de PIB disparou de 36% para 100,9%.
            Em 2007 cada espanhol devia 3800 euros, hoje deve 23.700.
            São dados que comprovam como a economia espanhola está vulnerável.

            Nada que possa beneficiar com a permanente instabilidade política e a manutenção ‘sine die’ de um Governo em mera gestão corrente.

          3. Mas o meu ponto é há 300 dias (quando começou a indefinição política) estava pior (o que é verdade). Porque vens falar de 9 anos atrás? Aliás é só prova de que nestes 300 dias tudo melhorou, pois mesmo a dívida esta a aumentar a um ritmo muito (muito, muito….) inferior até ao aqui verificado, como tu próprio referes. Portanto não percebo como esses argumentos contrariam o que eu disse.

            Onde leste que é precário? Pode ser seja (não sei), mas mesmo assim podes ver a variação anual que compara o mesmo mês (nesta altura há mais emprego sazonal estou de acordo), onde mostra que desceu cerca de 2,3%.

            Precário são todos os empregos em que não se seja patrão :), excepto Função Pública. Se bem que se pode despedir a nós mesmos.

          4. Aliás o teu argumento até prova que os Governos nem sempre são bons (ideia contrária ao que defendes) e neste caso em particular são (muito, muito, muito) piores do que se verifica sem Governo (Governo em gestão).

  2. De realçar que, pela primeira vez, o Pedro Correia faz um post equilibrado sobre o impasse político espanhol, no qual, muito corretamente, culpa todos os partidos espanhóis por esse impasse, em vez de culpar exclusivamente o PSOE, como fez em posts anteriores.

    1. O que eu tinha a dizer sobre o PSOE já disse.
      Assinalo entretanto que muitas figuras ilustres do próprio PSOE recomendam ponderação, responsabilidade e sentido de Estado a Pedro Sánchez.
      Entre essas figuras, destaco estas:
      Felipe Gonzalez, ex-presidente do Governo:
      http://okdiario.com/espana/2016/08/01/felipe-gonzalez-pide-abstencion-del-psoe-que-gobierne-rajoy-296610
      Alfonso Guerra, ex-vice-presidente do Governo:
      http://politica.elpais.com/politica/2016/07/12/actualidad/1468319371_813922.html
      José Borrell, ex-candidato do PSOE à presidência do Governo:
      http://www.eldiario.es/politica/Borrell-PSOE-abstenga-investidura-Rajoy_0_533346714.html
      Javier Solana, ex-MNE e ex-secretário-geral da NATO:
      http://www.europapress.es/cantabria/noticia-javier-solana-ve-pedro-sanchez-lider-oposicion-20160629145029.html
      José Bono, ex-presidente do Parlamento:
      http://okdiario.com/espana/2016/07/24/bono-si-hay-terceras-elecciones-rajoy-sanchez-iglesias-rivera-no-deberian-presentarse-284107
      Alfredo Pérez Rubalcaba, ex-secretário-geral do PSOE:
      http://elpais.com/elpais/2016/07/27/opinion/1469638444_921541.html

      1. muitas figuras ilustres do PSOE recomendam ponderação, responsabilidade e sentido de Estado a Pedro Sánchez

        O que é pena é que não haja (que eu saiba) figuras ilustres no PP que recomendem a Rajoy essas mesmas qualidades. Porque não é somente Sánchez quem deveria exibir ponderação e responsabilidade, Rajoy também as deveria ter.

        1. Rajoy devia sair. Sánchez idem aspas.

          Rajoy portou-se mal quando fez a gracinha de recusar ser indigitado pelo Rei.

          Nessa altura, Sánchez legitimamente fez o melhor que pôde. Não foi suficiente. Apresentou-se com 130 deputados em 350. Coligado com um partido que agora chama de direita, sem conseguir reunir o apoio da restante oposição ao governo PP. Esperava o quê? O apoio do partido do mais votado (com 123 deputados e maioria absoluta no senado) e do governo em funções? Sánchez perdeu a sua oportunidade aí. A alternativa que apresentou (e bem) não obteve apoio no congresso, e posteriormente perdeu as eleições (PSOE e Cs perderam 13 deputados, o PP ganhou 14).

          Rajoy saiu reforçado. Rivera compreendeu isso, Sánchez não. O PP tem obrigação de tentar formar governo. Pode não o conseguir, mas nenhum outro partido tem melhores condições para o fazer.

          Partidos que efectivamente não desejem terceiras eleições (que se prevêem não alterar nada, ou reforçar ainda mais Rajoy e o PP), devem deixar investir o governo e fazer a sua oposição no congresso durante a legislatura.

          Dito isto, Rajoy devia sair e facilitar o trabalho de todos os partidos, incluindo o seu.

          1. A saída de cena do líder do partido que não apenas ganhou as legislativas como saiu delas reforçado, com 14 deputados recuperados em seis meses, não faz o menor sentido.
            Desde logo porque mergulharia esse partido numa crise interna, que poderia arrastar-se durante meses, e tornaria ainda mais difícil a resolução do impasse político actual.
            Espanha está muito longe de ser o Reino Unido, onde estas questões se resolvem em poucos dias: uma democracia secular é muito diferente de uma democracia com apenas quatro décadas.

        2. São partidos com culturas políticas muito diferentes.
          O PP é um partido muito mais leninista, no sentido piramidal, onde a autoridade da cúpula prevalece sobre as opiniões das bases e das estruturas intermédias.
          O PSOE – até porque está muito enfraquecido a nível nacional – vive muito do permanente debate político estimulado pelas periferias. A começar na Andaluzia, que é – juntamente com a Extremadura – o último grande feudo regional socialista em Espanha.

  3. Diferentes “faunas”, meu caro, diferentes “faunas”.
    Uns, criaram e tiraram patente única de um sistema por que se regem há já alguns secs. sem reparos de maior.
    Os outros , ao (tentar)importar esse mesmo sistema ( com modificações, é bem certo), estão a chegar à conclusão de que , “além de lhes ficar curto nas mangas” , lhes é total e visceralmente estranho.
    Mas enquanto se espera que as coisas descambem definitivamente além-Pirinéus, as navalhas vão ficando fechadas.
    Depois, será como sempre tem sido : “como Díos lo quiera”…

    1. Pois. Há uma diferença enorme entre um sistema democrático iniciado em 1688 e outro que só teve início em 1977.
      A vertigem centrífuga da sociedade espanhola, sempre pronta a imaginar um inimigo em cada adversário, também não ajuda. Não por acaso, Espanha é o único país da União Europeia – a par de Malta – que em quatro décadas nunca conheceu um Governo de coligação.

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