A espantosa longevidade dos pintores


Pedro Correia,

Nadir Afonso numa das suas exposições

 

“Leva muito tempo tornarmo-nos jovens”

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O’Keeffe (que morreu aos 98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Ticiano (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Carybé (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Cruzeiro Seixas (93 anos), Albert Bertelsen (92 anos), Júlio Pomar (87 anos), Leon Kossoff (87 anos), Manuel Cargaleiro (86 anos), João Abel Manta (85 anos), Carlos Calvet (85 anos), Arnulf Rainer (84 anos), Jasper Jones (83 anos), Nikias Skapinakis (82 anos) e Frank Auerbach (82 anos).

 

Lembrei-me disto ontem ao saber que o grande Nadir Afonso se despediu de nós, aos 93 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele levou muito tempo a tornar-se jovem. Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

 

  Avenida dos Aliados, Porto (1943), de Nadir Afonso

16 comentários em “A espantosa longevidade dos pintores”

  1. é no mínimo curioso, Pedro…

    o facto de lidar diariamente com tintas até poderia ter efeitos secundários.

    mas depois há o outro lado, o facto de ser uma tarefa bastante contemplativa e livre…

    1. Julgo que tem tudo a ver precisamente com a liberdade, Luís. Com a ausência de horários, de compromissos. Sem a tensão que constrange os escritores, por exemplo. Um escritor isola-se, vive muito num espaço interior, necessita dessa tensão íntima para escrever; o pintor está mais em comunhão com o mundo, com o ar livre, com a natureza. E dá asas à sua arte com tanto mais engenho quanto estiver em paz com o universo e consigo mesmo.
      É espantoso o contraste entre a esperança média de vida dos pintores com a dos escritores. Jamais teríamos uma lista desta dimensão com romancistas ou dramaturgos ou poetas.

  2. Se continuarem a enumerá-los vão encontrar alguns que morreram novos.. ( mas de qq forma um segredo destes nunca poderia ser revelado )

    1. A “notícia” aqui não é morrerem novos; além de que pode haver inúmeras razões para alguém morrer novo, desde logo um acidente.
      A “notícia” é mesmo morrerem (ou serem) velhos. Não imagino nenhuma lista semelhante, nem perto disto, com artistas de qualquer outro género.

      1. Eu percbi 🙂 mas a nossa percepção de que os pintores ‘normalmente’ morrem velhos –mais velhos do que outros artistas ou outros indivíduos– pode não ser verdadeira estatisticamente. Precisaríamos de enumerá-los todos. (Isto para não falarmos de segredos alquímicos, obviamente.)

        1. Julgo que é mais do que mera percepção, Vasco. Repare que a lista está longe de ser exaustiva e circunscreve-se a pintores – portugueses ou estrangeiros – cuja obra conheço no todo ou em parte.
          Há uns tempos elaborei uma lista sobre escritores de sentido inverso a esta, dando nota de um elevado número de suicidas. Ou seja, não apenas morrem mais jovens (ou menos velhos) mas morrem com frequência de forma trágica.
          Eis alguns:
          Pavese, London, Hemingway, Plath, Zweig, Koestler, Saxton, V Woolf, Mishima, R Gary, H Crane, Sá-Carneiro, Antero, Camilo, Florbela, Montalvor, Nizan, Montherlant, P Levi, Maiakovski, La Rochelle, S Esenin, Inge, Celan, Borowski, Laranjeira, T. Coelho, Akutagawa, P Nava, Thompson, Berryman, Kosinski, D F Wallace.
          Nada há de semelhante entre arquitectos ou pintores.

  3. Curioso, nunca tinha pensado nisso mas os números são impressionantes. A diferença entre a esperança de vida de pintores e escritores só pode dever-se ao que dizes, liberdade e comunhão com a natureza.

    E junto mais um nome à lista, ainda muito produtivo: Nikias Skapinakis, que nasceu em 1931.

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