A escolha


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1. As “europeias”, tal como as autárquicas – estas particularmente nas grandes cidades -, costumam ser utilizadas pelo eleitorado como voto punitivo dos governos, contestação ou aviso. Em 2014 PSD e CDS conduziam o governo que tomou as medidas mais impopulares desde o início dos anos 1980s, devido aos espartilhos impostos pelo resgate financeiro. Nesse âmbito tiveram um resultado eleitoral fraco. Rio, e outras figuras do PSD, aligeiram o que aconteceu ontem, comparando os resultados e afirmando um crescimento eleitoral. É um mero aldrabismo que traduz duas coisas: cegueira política; desonestidade pessoal dos locutores. A primeira conduz a más estratégias políticas, a segunda enfastia os eleitores. Tudo junto? Leva a mais e maiores derrotas. Ou seja, não basta saber falar alemão para se ter sucesso na política nacional.

2. A trapalhada do CDS e do PSD no recente caso dos professores mostra dois partidos à deriva. Cristas auto-encantou-se com um relativo sucesso nas autárquicas de Lisboa, possibilitado pela efectiva desistência do PSD. E desapareceu desde então: alguém sabe o que o CDS pretende? E sobre a Europa, além de lugares-comuns, e da feira gastronómica do parque bruxelense Cinquantenaire, alguém sabe as concepções actualizadas e rumos do CDS? Alguém tem um “link” para um texto, programático ou de imprensa, produzido pelas actuais elites daquele partido – que teve dirigentes como Adriano Moreira, Lucas Pires, Ribeiro e Castro e Paulo Portas -, que valha algo? De facto, o CDS é sociologicamente um partido de elites mas não as tem. É um vácuo.

Do PSD de pouco valerá analisar: quem conhece o partido resmunga a teia de clientelismos na qual o partido se insere há décadas, e as formas perversas da sua organização interna – a antes célebre “distrital de Lisboa” é disso um caso paradigmático, como por vezes se alude na imprensa. É um partido depauperado, mostra-o a sua plastidade a presidentes como Luís Filipe Menezes, Marques Mendes e este Rui Rio. E um partido desnorteado – e disso exemplo escatológico é ver Carlos Moedas elogiar vigorosamente António Costa e seu governo, quinze dias antes das eleições. O PSD é sociologicamente um partido de massas mas começa a não as ter. Está a esvaziar-se.

Há uma coisa interessante para perguntar: os partidos representam interesses particulares na sociedade, enfatizam a defesa de interesses e vontades parciais (é por isso que são “partidos”). Isso é normal e salutar, ainda que a retórica habitual consagre o vínculo aos “interesses nacionais”, como se não houvesse uma normal conflitualidade e até contraste entre os grupos constitutivos da sociedade. Ora, sendo assim, que interesses sociais representam o CDS e o PSD? E como o fazem? Melhor perguntando, até porque estão tão esvaziados intelectualmente que a questão se coloca: como é que os reconhecem?

3. O PS ganhou com esta lista de candidatos. Que é fraca, sem figuras relevantes e/ou reconhecíveis, populares, mas acima de tudo por uma razão: encimada por três governantes de Sócrates, com ele coniventes do pior período da II República. Um deles o braço-direito daquele perverso secretário-geral. Pedro Marques tem, pelo menos, uma grande qualidade pessoal: não tem jeito para campanhas políticas, não é um encantador (um “charmeur”), não tem “carisma” (essa qualidade inqualificável). Parte da oposição – e os humoristas do regime – utilizaram o engraçadismo, essa patetice pequeno-burguesa, para o gozar, aviltar. Que é feio, que parece o Noddy, que parece o Mr. Bean. São uns parvos. Ou, como está agora na moda, por via de um dos piadísticos do reino, “não sabem estar”. 

O governo não é bom: não há reformas, não há efectivo desenvolvimento, não se aproveita eficazmente uma conjuntura internacional favorável. A carga fiscal é enorme, a austeridade continua, os serviços públicos engasgam-se. A gestão das problemáticas políticas é muito má: catastrófica no caso dos fogos, patética no caso dos roubos nas forças armadas, espantosa de preguiçosa no caso, verdadeiramente estrutural, da substituição da PGR. Enfim, um governo de cabotagem e uma má lista eleitoral: e uma grande vitória. 34% nestas europeias? E com os professores (e suas famílias) a resmungar? O PS vai beijar os 40% daqui a 4 meses, recuperando os tais habituais votos (ou abstenções) de protesto nas eleições europeias. 

4. O BE e o PAN sobem, e muito. O impacto das questões ecológicas marca a subida do PAN (o qual apoiei nas legislativas – pois Passos Coelho discursou aos jovens anunciando Dias Loureiro como exemplo, e isso para mim é crime lesa-majestade. Mas o qual me desiludiu com as leizinhas para os “pets”, que me parecem mostra de um grupo burguesote com pouca densidade. Mas talvez me engane …).

O BE sobe porque funciona. Tem uma candidata que cativa – pois é genuína (o que não é sinónimo de cândida). Tem aquela coisa do “carisma” (a tal qualidade inqualificável). E o BE consegue passar a imagem que representa interesses. Teve Robles, mas Robles há em todos os partidos que vão ao poder, é histórico. E a sua direcção (Catarina Martins et al) teve reacção estuporada, precocemente anquilosada, a esse caso. Mas ainda teve – e porventura porque é, de facto, uma coligação – a energia interna para se depurar. No dia seguinte ao conhecimento público da malandrice roblesiana, Luís Fazenda (a UDP) pontapeou a tese da “cabala da direita” e exigiu a auto-depuração. E não vemos isso, essa introspecção, em nenhum outro partido. Vale ouro.

5. Muita abstenção? Instalem-se outras formas de votar. O Estado serve-nos e não o contrário. Que abandone a posição hierática, essa que implica que nós temos que nos dirigir até ele, e sob tutela (como o mostra o anacrónico “dia de reflexão”). Que venha o Estado em busca dos votos. (Também) Voto electrónico – se se pode pagar impostos e contas qual a razão de não se poder votar?; assembleias de voto nos mercados; votações às sextas e sábados.

As instituições europeias são opacas. “Porreiro, pá” disse Sócrates a Barroso ou vice-versa, numa cimeira lisboeta que sublinhou essa opacidade – ainda que Barroso, que todos criticam, ter então feito um discurso extremamente crítico da deriva consagrada naquele rearranjo, o que parece que ninguém ouviu. Os partidos não combatem essa opacidade. O senhor presidente da república auto-retrata-se, em potlatch de narcisismo, e nisso despolitiza a sociedade, ou o intenta.

A comunicação social – ela própria em crise – “comenta”, com gente que há décadas perora sem particular viço ou capacidade analítica, o que ainda confunde mais e potencia o afastamento dos eleitores da vida política. Uns porque são avençados e disso dependem – vi no youtube, via fb, um excerto do “Eixo do Mal” onde Clara Ferreira Alves dizia, há algum tempo, “aqui no programa só nos enganámos numa coisa, não acreditámos no que se dizia sobre Sócrates, julgámos que era uma campanha da direita”. Ou seja, um conjunto de fazedores de opinião política “não viram” o dado mais importante das últimas duas décadas nacionais. E continuam a fazer opinião, pagos para isso, a influenciarem a classe média. Ontem parece que Sousa Tavares, um já decano, tantas são as décadas em que “faz opinião”, a dizer que os votantes do PAN são “urbano-depressivos”. As pessoas percebem a incompetência analítica, a pura “cagança”, que a utilização da velha expressão dos anos 1980s (Joy Division para a frente) mostra? E é este núcleo que ocupa a (decadente) televisão no comentário político.

Fazer regressar a população ao voto passa pela renovação dos quadros políticos – e não só por apear Cristas (e Melo) e o infausto Rio. Mas passa também por renovar a informação, os fazedores de opinião.

6. Não há extrema-direita em Portugal, tirando aquele núcleo do MIRN e seus descendentes, que nunca cresceu. Nisto sim, é caso para dizer “porreiro, pá”.

7. António Costa é um grande vencedor, hábil na condução política como não há ninguém na política portuguesa. José Sócrates é passado. Mas não será julgado. Nem Ricardo Salgado. Como diz Marcelo Rebelo de Sousa, presidente e agente, “o país opta por não optar”. 

Um dia isto melhorará. A gente já cá não vai estar para ver. 

0 comentários em “A escolha”

  1. Voto electrónico – se se pode pagar impostos e contas qual a razão de não se poder votar?

    A razão é simplicíssima – qualquer um está autorizado a pagar os impostos e as contas de outrém, quem recebe o dinheiro não se importa com quem lho paga, mas votar, só o próprio o pode fazer. E a identidade de uma pessoa não pode ser verificada por um multibanco nem por um terminal de internet.

      1. 1. Falo em voto electrónico (domiciliário) não para instalar nas próximas eleições legislativas, seria algo a preparar cuidadosamente. Nada percebo das questões informáticas necessárias mas muito me custa a acreditar que não haja tecnologia que permita aferir da identidade do votante – reconhecimento facial, pelo olhar, pela voz, a velha impressão digital.
        2. A coacção é uma hipótese. Mas, para além das possibilidades tecnológicas (quase infinitas) de perscrutar o ambiente votante há que lembrar que vivemos em democracia – não estou a ver os adeptos daquele Basta ou Chega a perseguirem as pessoas dentro da própria casa para que neles votem. “A longa noite fascista” não é a realidade de hoje. Independentemente do que se possa dizer há que tornar o acto de votar algo de atractivo e ainda mais fácil.

        1. Discordo completamente, radicalmente, de qualquer voto domiciliário. Tal como a violência doméstica (não somente sobre mulheres, mas também, e anda mais frequentemente, sobre idosos) demonstra, o domicílio é frequentemente um local de coação. Se houver a possibilidade de voto domiciliário, mais vale acabarem também as cabinas de voto – cada pessoa que vote às claras, de preferência acompanhada pelo pai de família para ele verificar que está a votar bem.
          Quanto à identificação por dados biométricos, tire o cavalinho da chuva – isso não funciona para muitíssimas pessoas. Por exemplo, a mim são incapazes de me tirar impressões digitais – tenho-as praticamente indistintas (e muitas outras pessoas também as têm assim). Da última vez que fui tirar o cartão de cidadão, demoraram cinco minutos (e testes em diversos dedos, com limpezas extensivas e demoradas dos dedos pelo meio) até conseguirem tirar-me uma impressão digital aceitável (num dedo do meio da mão esquerda).

          1. Quanto ao cavalo na chuva: você está a falar de uma “casa” com “pai de família” que vai escasseando. Quanto aos dados biométricos – a) não são, hoje em dia, as até vetustas impressões digitais; b) aos deficientes, cujas características são irreconhecíveis, seria vetada essa hipótese de voto.

        2. há que tornar o acto de votar algo de atractivo e ainda mais fácil

          Discordo. Se votar é demasiadamente fácil, as pessoas votarão sem convicção. Votarão, não por gostar de um partido, mas somente porque não custa nada. Eu quero votos, muitos ou poucos, que traduzam uma vontade efetiva – não votos conseguidos por ser muito fácil.

        3. Caro JPT, pessoalmente eu deixava o voto tal como está. Hoje não vivemos numa longa noite fascista, amanhã não sei. Um sistema montado por gente com boas intenções pode ser usado por gente com más intenções. Com o sistema actual é quase impossível associar um voto a um eleitor. Com um sistema electrónico a associação tem obrigatoriamente de ser feita para efeitos de autenticação, só podendo ser feito um scramble a posteriori. Quem aceder aos metadados pode eventualmente saber quem votou onde.

          1. É um argumento válido. Então, sem voto domiciliário, como fazer?

            Reproduzo aqui um postal de Eduardo Cintra Torres no seu mural de facebook:
            “Os resultados eleitorais vistos de outra forma. Se, em vez de se calcular percentagens dos votos nos partidos a partir do total de votantes (3.312.692), se calcular a partir do número de eleitores (10.561.969 inscritos nos cadernos eleitorais), os resultados dos partidos que elegeram eurodeputados são os seguintes:

            PS…………………. 10,47%
            PSD……………….. 6,88%
            BE………………….. 3,08%
            Brancos+nulos…. 2,18%
            PCP…………………. 2,16%
            CDS………………… 1,94%
            PAN………………… 1,59%
            (fim do postal)

            Que fazer com isto? Reproduzir todas as eleições que a abstenção é muito grave e há que combatê-la? Há décadas que ouço isso. Os políticos são frágeis? Muitos são, mas também já se ouve isso há muito, mas será isso que justifica todo este alheamento (Rio é pior do que Meneses?, Sousa do que Carvalhas?, Costa do que Sócrates? etc e tal). Há as derivas, ainda algo mudas, que querem o voto obrigatório, o que é uma violência (aqui na Bélgica é obrigatório, no CPLP Brasil também). Mas não haverá formas de tornar mais “cool” ou atractivo o voto, sem se estar com lamentos sobre os maus políticos e partidos?

          2. Realmente olhando para esses números o panorama é desolador. Falando apenas pelas pessoas que conheço e que sei que não votaram, a maioria foi por preguiça. Sei que têm simpatia por alguns partidos. Não estão é para se maçar. Mas vão queixar-se durante anos dos políticos. Já não tenho paciência para os ouvir.

          3. E o Pedro Vorph vê que vantagem em humilhar e deslegitimar a Assembleia?
            Quem quer humilhar e deslegitimar as Assembleias são os partidários de uma ditadura. Uma vez a Assembleia humilhada e deslegitimada, torna-se evidente que se deve dissolvê-la e eliminá-la, substituindo-a por um ditador.

          4. Concordo com o comentário do Lavoura. A redução do número de deputados apenas beneficia os partidos do centrão.

          5. A redução pela redução é a proposta de quem não gosta de parlamentos … mas poder-se-ia arranjar formas mais pessoalizadas de eleição, em que se soubesse quem são os morcõezinhos das filas de trás. Talvez que espartilhar os grandes distritos fosse uma boa solução

          6. sem voto domiciliário, como fazer?

            O melhor é não fazer nada.

            Repare: se alguém não vota por preguiça, então é porque não deposita grande convicção no seu voto. E, se não deposita grande convicção, então talvez mais valha que não vote. Mesmo.

            Agora, em relação a essas propostas de voto domiciliário ou de voto por internet, eu não posso deixar de achar curioso que quem critica as chapeladas nas votações internas do PSD, com o Salvador Malheiro a votar pelos múltiplos militantes do concelho de Ovar, e coisas similares, proponha que se instaure a nível nacional um sistema que permitiria, com ainda maior facilidade, chapeladas sistemáticas.

            Já tivemos em Portugal o caciquismo no século 19, não precisamos de instaurar um neo-caciquismo no século 21, em que o pai-de-família votaria por toda a família, incluindo os avós já defuntos mas que ainda se encontram nos cadernos eleitorais, a tia com Alzheimer e os filhos emigrados.

          7. Lavoura você tem toda a razão. Que haja políticos aldrabões, que aldrabam presenças na AR ou as votações nos seus próprios partidos, que surjam a perorar sobre a abstenção, invectivando abstencionistas ou prometendo “medidas” e/ou “reflexões” sobre como a mitigar é perfeitamente patético.
            E isso sublinha a abjecção por Rui Rio, que sustém um conjunto de mariolas à sua volta e depois vem com um discurso “anti-abstenção” quando acabara de ter a maior derrota eleitoral do seu partido

  2. Há alguma verdade na afirmação de Sousa Tavares. Muitas pessoas por culpa de desamores, de frustrações relacionais, procuram, naturalmente, no cão, ou gato, o Amor que nunca tiveram a oportunidade, ou o jeito para encontrar. Nestes existe quase sempre um certo misantropismo (além da depressão) que já Voltaire destapava, ou mesmo Diógenes de Sinope/ Os Cínicos:

    “quanto mais conheço as pessoas mais gosto dos animais”.

    “Animal hoarding” may provide comfort to people who struggle to form relationships.

    https://www.google.com/amp/s/digest.bps.org.uk/2017/09/25/theres-a-case-for-making-animal-hoarding-a-distinct-diagnosis-say-brazilian-researchers/amp/

    Sabe-se também que estabelecer uma relação afectiva com um animal é um excelente método de tratamento para estados depressivos ( o contacto com animais aumenta a produção de oxitocina, a hormona do amor). Sabendo nós que a Depressão será porventura em 2030 a doença mais incapacitante e sabendo nós que o número de animais de companhia, nas grandes cidades, tem aumentado exponencialmente ,nas últimas décadas, será legitimo atribuirmos a estas tendências uma relação causal?

    https://www.sciencemag.org/news/2015/04/how-dogs-stole-our-hearts

    Contudo, claro que o PAN faz falta e claro que é uma absurdidade a afirmação, como comentador de tv, de Tavares.

    Quanto ao resto. A culpa não é dos partidos. A culpa é do Povo e não do ” problema dos professores”/maestria de Costa( a maestria de Costa é um mito urbano. Veja-se a maestria com que geriu os fogos, mais a tragédia das vitimas!!?? Um calhau)

    Como prova do que digo (a culpa é do povo) vejam bem. MESMO DEPOIS DISTO:

    https://www.google.com/amp/s/observador.pt/2019/05/20/deputada-do-ps-consegue-276-mil-euros-de-fundos-europeus-para-empresa-do-pai/amp/

    https://www.google.com/amp/s/www.publico.pt/2019/04/01/politica/noticia/autarcas-castelo-branco-inventaram-ong-obter-subsidios-1866261/amp

    https://www.google.com/amp/s/www.jornaldenegocios.pt/economia/politica/amp/presidente-da-camara-de-castelo-branco-contrata-empresa-detida-pelo-pai-por-duas-vezes

    GANHARAM!!!!!!!

    http://www.radiocastelobranco.pt/noticias/castelo-branco/2019/maio/ps-vence-em-castelo-branco/

    1. MST é um blasé, convicto da sua imensa superioridade social sobre o vulgo – e é superficial nas suas considerações. Ao usar um estribilho da moda de há 35 anos para “mandar uma boca” mostra o quão desadequado está o seu olhar.
      Vota-se também por amor, diz você? Ok. Vota-se nos líderes de quem se gosta, nos candidatos com os quais se simpatiza, olha-se para os políticos com critérios de consumidor (ou amante), vota-se (e muito) por conforto identitário (“eu sou do partido x”, “estamos no poder” diz o desgraçado enquanto sofre punções constantes). Isso é particularmente relevante no caso do PAN? Não.

      Eu não disse que Costa era um mestre. Disse que era hábil na política portuguesa, comparativamente. Disse que o governo era mau, que gere catastroficamente questões que são também de índole comunicacional – e decerto que isso lhe custa votantes, algo disfarçado pela vitória retumbante que teve sobre a oposição directa. Disse que isto está como está e que melhorará daqui a muito tempo. Na era pós-jpt, por assim dizer. A culpa é do eleitorado? Completamente.

  3. O PS ganhou com esta lista de candidatos. Que é fraca, sem figuras relevantes e/ou reconhecíveis, populares

    Mas é natural que assim seja – os eurodeputados são pessoas que vão lá para longe e não são, nunca, o escol dos partidos. Tradicionalmente, são eurodeportados, as pessoas que os partidos não querem ter por perto a incomodar e dar nas vistas. A lista do PS é fraca, talvez – mas muitas outras também o são. Por exemplo, na do PSD ninguém é conhecido a não ser o cabeça-de-lista.

    1. Sim, mas em eleições anteriores houve listas com pessoas mais populares e ou mais apelativas. Mas referi o assunto para sublinhar que a vitória do PS não se deveu às pessoas da sua lista mas que foi apesar delas.

  4. ‘não há efectivo desenvolvimento, não se aproveita eficazmente uma conjuntura internacional favorável’

    Pois, é verdade. Mas convém ter a noção de que um esforço de desenvolvimento em Portugal (e não só) implica um confronto assimétrico e muito duro com os poderes dominantes da UE, e que gostaríamos de o fazer sem descambar em, ou alimentar o, “anti-europeísmo”. Não é fácil, e em toda a Europa, desde 2008, não conheço quem o tenha conseguido. O Mélenchon tentou, mas com pouco sucesso. Aliás a própria noção de apostar no desenvolvimento baseado no habitual produtivismo (produzir mais, não importa o quê nem como) entra em contradição com o imperativo ecológico e a transição energética. Novas ideias são necessárias e por enquanto todos vão navegando à vista.

    Uma sugestão: Gaël Giraud, economista-chefe da Agência francesa para o desenvolvimento e padre jesuíta (!), tem apresentado umas pistas interessantes. Aqui fica uma sugestão, vale a pena ouvir tudo:

    https://www.youtube.com/watch?v=2oFARgqG0NA

    https://www.youtube.com/watch?v=n3LyVbGUFu4

    1. Em momento algum do meu texto (ou de outros) encontrará uma correlação entre desenvolvimento e crescimento. E sim, como muito diz “todos vão navegando à vista”. Também por isso referi que temos “um governo de cabotagem”

  5. Acabou de apresentar as 7 virtudes teologais na política nacional. Sim, isto tem que ver com deuses.
    Na realidade não vi qualquer vitória de Costa. O que eu vi foi que finalmente Portugal mudará, mas por via do esforço dos eleitores europeus ao desestabilizarem a ordem no Parlamento Europeu.
    https://eleicoes-resultados.eu/

    Costa mantém-se como o governante poucochinho, e até faz chantagem política para que os portugueses continuem a receber ainda menos de poucochinho.

    Em certa medida poderá considerar-se que o voto expresso pelos portugueses votantes é o voto dos depressivos, e não só os do PAN, porque os restantes estão de bem com a vida e preferiram a praia, a família, os copos…; e alguns outros, quiçá, mergulhados na doença e aguardando nas listas da morte, diz-se lista de espera.

    Mas uma lição se poderá tirar dos votos em Portugal: o voto a favor dos animais superou as correntes ultra-ortodoxas reaccionárias feministas lgbtístas que o PS e o BE têm vindo a apresentar. Mas também venceu sobre os demais partidos.
    Há motivos para manter a esperança.

    1. Vento e aqueles que estiveram a trabalhar, não contam !?
      Também António Costa fez um apelo para que se fosse votar mas também ele omitiu quem estaria a trabalhar.
      Os políticos todos fazem um apelo ao voto, unicamente para validar um sistema em que eles os políticos são meras marionetas de outros interesses…que não os do Povo e da Nação.

      WW

      1. Também refere um ponto interessante Uma “conquista dos trabalhadores”, de XX, foi o fim-de-semana, e era normal que as eleições fossem ao domingo, durante os quais só algumas profissões trabalhavam
        Com a liberalização do comércio – uma agressão urbanística, um patacoada social – há imensa gente a trabalhar ao domingo

      2. WW, qualquer trabalhador pode ausentar-se para ir votar, justificando-se a falta temporária por isto mesmo. E ninguém os pode impedir. Nas assembleias de voto existem representantes que podem emitir declaração de presença para o efeito.

        1. Vento, não demonizando patronato e chefias, V. não acha que em imensos postos de trabalho – e falo particulamente daquelas áreas de trabalho às quais foram sendo retiradas o direito ao fim–de-semana (o comércio é a mais visível) – o votante, já de si desiludido e pouco empenhado, se sentiria constrangido em dizer que ia ali fazer a perninha do voto?

          1. Tem toda a razão JPT, mas existe indústria também em laboração contínua e essa é pouco lembrada.
            Apenas quis realçar o facto de ninguém se ter lembrado que existem pessoas a trabalhar e não só a “mandriar” como justificação para a abstenção.

            WW

          2. Bem, é trabalho por turnos, e presumo que em realmente querendo as pessoas que trabalham nos domingos têm tempo para votar. Mas é-lhes mais difícil. Também por isso lembro que se poderiam fazer votações em três dias. E mais do que isso, que as assembleias de voto deveriam “perseguir” as pessoas – mercados, grandes empresas, etc. poderiam acolher secções de voto. Isso implicaria, porventura, voto electrónico

          3. JPT, a questão que coloca é diferente daquela colocada pelo WW. Aí, na sua, estamos de acordo. É uma questão de motivação.

            Agora ao WW: não é uma questão de mandriar, estava em causa o poder votar. Poder, pode. Mas o cidadão também tem direito a não querer votar. E as suas razões podem ser tão legitimas quanto a dos que votam.
            A ideia fundamental centra-se no facto de considerar que são as eleições europeias que determinam o rumo de Portugal, pois Bruxelas necessita de reforma.
            Votar nas próximas legislativas PS é mera formalidade, pois Costa está rendido nos braços do Concelho. Portanto, é importante referir uma vez mais que foram os cidadãos de outros países a determinar a futura mudança para Portugal.

            A Título de exemplo: Orbán foi um grande vencedor nestas eleições, porque o povo húngaro, não obstante a suspensão do partido de Orbán no PPE e não obstante as pressões europeias, ratificou seu sentido de voto naquele que se opõe às políticas de Bruxelas. Portanto, estes votos serão importantes no PE.
            Comparativamente, em Portugal a vitória do PS e de outros, foi originada pelos não votantes. Assim, continuamos nas mãos de um sindicato de interesses que tem seus procuradores em Bruxelas, incluindo os eleitos pelo PS porque Costa deixou claro estar a governar para o Pacto e para a Contenção e não para Portugal. A sua chantagem recente deixou este objectivo ainda mais transparente. Concluindo, a imaginação de Costa é limitada, só dá até Bruxelas. Precisamos de governantes com ideias e não com uma vaga ideia da situação.

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