A empresa, essa desconhecida


José Meireles Graça,

Uma das tragédias da governação socialista, a nossa e a de outros, é que o legislador não tem a mais remota ideia do que é uma empresa porque se convencionou que o saber de experiência feito é limitado se não estiver aureolado de respeitáveis albardas académicas – que o empresário com frequência não tem, quem tem sendo quem fez carreira na Academia ou na advocacia. Distintos economistas, advogados e funcionários públicos são quem legisla – a ficção jurídica através da qual se imagina ser o legislador sábio é isso, uma ficção.

Um empresário, se chegar a lugares decisórios no aparelho de Estado, ou o é de grandes empresas ou conglomerados que, por terem amplíssimos quadros lhe podem libertar o tempo – não conheço nenhum caso em Portugal; ou vive à sombra do Estado, que é cliente, patrono e amigo – mas é empresário apenas no ramo do tráfico de influências, que não tem grande utilidade social; ou faz parte dos corpos gerentes de empresas majestáticas (incluindo portanto bancos), que não são o meio adequado para apreender senão uma versão limitada, e frequentemente distorcida, dos mecanismos da concorrência e do capitalismo.

As coisas, na prática, são ainda piores: um grande e merecido sucesso no mundo das empresas não garante a lucidez necessária para a conquista e manutenção do poder em sociedades democráticas, bem mais complexas do que qualquer empresa. Consultar um empresário bem-sucedido sobre questões sociais, por exemplo, costuma ser um exercício frustrante por as respostas virem embrulhadas geralmente em doses consideráveis de ignorância e suficiência – quase nunca tão graves como as que se recebem de qualquer demente esquerdista, mas ainda assim descoroçoantes. Lembro-me do saudoso Eng.º Belmiro de Azevedo que, numa entrevista, perguntado sobre as reformas naquele momento necessárias, se deteve numa extensa análise do organograma do Governo, que achava uma questão importantíssima, a seguir debitando a vulgata do que então o PSD defendia para o país.

É um lugar-comum dizer-se que em Portugal há uma maioria sociológica de esquerda, e é vulgar desprezar-se a afirmação porque os lugares-comuns se desprezam. Este, porém, é sólido como uma rocha, e é nela que se firma o desprezo pela empresa e pelo empresário – é o que temos.

E então, este palavreado sumário vem a propósito de quê? De coisa pouca: alguns parágrafos de um Relatório de Gestão de uma empresa verdadeira – uma dos milhares cuja realidade o ministro da Economia desconhece e a mefistofélica figura do SEAF (ou melhor, a estrutura inquisitorial à qual, com um sorriso de beatitude, preside) perseguiu. Estas duas personagens, lamentáveis cada uma a seu modo, são apenas duas faces visíveis do problema. O resto não é melhor.

Eis os parágrafos em questão:

Cumpriu-se em 2021 o PER que no ano anterior foi induzido pelos abusos da Fazenda Pública, nos termos que constam do Relatório anterior.

Uma consequência inesperada dessa circunstância é a recusa, na prática, de financiamentos por parte da Banca, até mesmo do capital circulante, sem que jamais se consiga obter por escrito a fundamentação de decisões negativas em que o verdadeiro motivo conste. Esse apenas é comunicado informalmente, do que decorre que o espírito dos PERs é subvertido por a intenção do legislador não ser que no âmbito de tais processos as dificuldades sejam artificialmente maiores do que seriam em circunstâncias normais.

Isto explica que não se tenham registado quaisquer encargos financeiros – não existem porque também não existiram financiamentos. A situação tem sido resolvida com recurso à compreensão de clientes e fornecedores, tanto e tão bem que foi possível registar um crescimento de proveitos superior a 20%.

12 comentários em “A empresa, essa desconhecida”

  1. Achar que os dirigentes do PS não têm empresas… Até o Bloco de Esquerda as tem… E claro, a culpa é do “estúpido do povo” que odeia os empresários (mas vota neles).

  2. Quer dizer já temos deputados e ministros que fazem leis para “encaixar” em determinada acividade que vai ser posta em prática por um empresário já destinado.
    Se esse empresário fosse ele próprio do governo então como não seria?
    As associações patronais têm os seus quadros directivos com representantes ou os próprios, que defendem os seus interesses. Evidentemente que dentro da associação haverá quem tenha mais poder que outros. O dono duma garagem com cinco trabalhadores não tem o mesmo poder do dono de uma oficina com vinte, mas ambos têm os mesmos direitos e deveres, pagam as mesmas taxas de impostos e estão sujeitos à mesma legislação laboral.
    Imaginemos um ministro do comércio/industria dono de uma grande empresa comercial/industrial, que leis é que ele irá pugnar serem aplicadas nas empresas em geral, que não tenha uma vírgula sequer que beneficie a sua empresa.

    1. Se não têm uma empresa, deviam abrir uma “para verem como a vida é difícil”. Se têm uma empresa, há conflito de interesses. Presos por terem cão, presos por não terem. E depois ainda atiram umas postas de pescada sobre como o “estúpido do povo” vota PS porque não gosta de empresários. Autocrítica sobre porque é que o “estúpido do povo” não vota neles não há.

  3. Duas notas jurídicas:
    Artigo 235.º – Administração danosa- sector público e cooperativo -> 1 – Quem, infringindo intencionalmente normas de controlo ou regras económicas de uma gestão racional, provocar dano patrimonial importante em unidade económica do sector público ou cooperativo é punido com pena de prisão até cinco anos ou com pena de multa até 600 dias. 2 – A punição não tem lugar se o dano se verificar contra a expectativa fundada do agente.
    Ora:
    No privado nem isto há!
    Privado ou público, os tribunais são ignorantes em negócios e comungam nesse senso de esquerda que podia definir-se pelo tradicional ‘ladrão que rouba a ladrão…’.
    Conclusão: os bancos captam toda a poupança (poucos arriscam emprestar a negócios) e agem como meros penhoristas; e o mercado é uma aventura.

    1. É curioso como existe punição por inside trading na bolsa e nas empresas mas não existe punição por inside trading nos programas de subsídios perdão “apoios” e concursos do estado…

  4. «governação socialista»?
    Não foi o Santana Lopes que alterou o artº 35º e em 2020 26,1% das empresas portuguesas têm capitais próprios negativos? Com o natural aplauso dos socialistas…

  5. Tem toda a razão. Quer a banca quer o legislador não percebe de negócios. Em regra a percepção que a banca tem dos negócios resulta das fórmulas que a economia especulativa fornece.
    A saber: PER significa Plano Especial de Recuperação. Para se perceber o significado disto é necessário entender do negócio, do mercado e de sua envolvência.

    Na economia especulativa as contas fazem-se com a seguinte fórmula: PER – Price to Earning Ratio. Ou seja, divide-se o valor de mercado (acções) que ela (empresa) tem pelo lucro anual que a mesma obtém. E assim é possível calcular o tempo de recuperação do capital.
    Ou, em alternativa, usa a outra fórmula: PER ttm (trailing twelve months), que é calculado em função dos lucros reportados nos últimos doze meses.

    A análise para eles é esta: quanto tempo demora a recuperar uma empresa que reportou prejuízos? Eles não sabem, porque não percebem do negócio. Só entendem de garantias materializadas.

  6. em Portugal há uma maioria sociológica de esquerda

    Isto não é totalmente verdade. O povo português é maioritariamente socialista no que diz respeito às coisas económicas, sim; mas, no que diz respeito a todos os aspetos culturais, o povo português é muito conservador.

    1. A segunda parte também não é totalmente verdade. Em Portugal não temos fanáticos em frente a hospitais e clínicas a insultar mulheres que interrompem a gravidez como fazem nos EUA. E se a eutanásia fosse referendada, já tinha sido aprovada há muito, e diria mesmo que é por terem atitudes conservadoras que o PCP perdeu muitos votos e o CDS faleceu. Paz à sua alma.

      1. O conservadorismo dos portugueses observa-se por exemplo na atitude perante a pandemia, em que a generalidade das pessoas deu um valor desmesurado à preservação da vida dos idosos, em vez de privilegiar a liberdade e o progresso dos jovens. Vê-se também nas atitudes gerontocráticas dos portugueses (quem está por cima é sempre o mais idoso), em hábitos como o almoço em família aos domingos, e coisas assim.
        O conservadorismo dos portugueses não tem a ver com religiosidade. A oposição ao aborto e ao suicídio assistido tem mais a ver com religião do que conservadorismo. Mas religião e conservadorismo são coisas distintas. Os portugueses não são atualmente muito religiosos, mas permanecem muito consevadores. Pelo menos no meu entender.

        1. Se querer que os idosos possam ter mais alguns anos de vida (já para não falar que o Covid não matou só idosos) é ser conservador, então os Estados Unidos, que fizeram zero para combater a pandemia (tirando o plano de vacinação que só não correu melhor devido à loucura anti-vacinas abundante nesse país), são o país mais liberal do mundo. Apesar de terem mais presos que a China, uma ditadura com quatro vezes mais população.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *