A direita amiga de Sócrates


Pedro Correia,

 

A direita amiga de José Sócrates foi aquela que centrou a sua “oposição” ao Governo em ataques à personalidade e ao carácter do primeiro-ministro. Cometendo, com isso, dois erros simultâneos: facilitou a estratégia de vitimização, em que o chefe do Governo é perito, e confundiu o primeiro-ministro com o partido que o apoia, como se não houvesse mais PS para além de Sócrates.

Os resultados não tardaram a ficar à vista: Manuela Ferreira Leite, com o aplauso vibrante desta direitinha, ofereceu de bandeja ao Partido Socialista a vitória eleitoral nas legislativas de 27 de Setembro. A direita amiga de Sócrates, aquela que diz detestá-lo e depois faz tudo para que ele se perpetue no poder, ovacionou esta penosa caminhada do PSD para a derrota. Esta direita subscreveu as inumeráveis arengas sobre a “asfixia democrática” que desviavam as atenções dos portugueses do essencial – a crise económica – enquanto a líder social-democrata se desdobrava em elogios a Alberto João Jardim. Aplaudiu a exclusão de Pedro Passos Coelho das listas eleitorais enquanto acusava Sócrates de arrogância e autoritarismo, sem perceber que o comportamento da sua líder retirava qualquer autoridade moral a essas críticas. E centrou em Passos o seu ódio, com a mesma fúria vesga que usava nas inócuas invectivas ad hominem contra Sócrates, que sempre tiveram o condão de o tornar mais forte.

 

Nesses meses entre as legislativas e as primeiras sondagens que já apontam o PSD como claro vencedor e até à beira da maioria absoluta, a direita amiga de Sócrates investiu contra Passos Coelho na blogosfera. Houve quem lhe chamasse “boneco de Madame Tussaud”, quem garantisse que não era mais do que “uma espécie de Sócrates”. Houve mesmo quem, em tom quase épico, confessasse sentir mais respeito pelo ditador norte-coreano do que pelo novo líder social-democrata, eleito por 61% das bases do partido.

A mesma direitinha agora em silêncio perante as sondagens que avaliam positivamente Passos Coelho e antecipam uma vitória eleitoral do PSD. Entre Sócrates e Passos, esta direita prefere Sócrates. Os socialistas contarão com ela para novas investidas contra o lider laranja, tão cheias de bom senso e de bom gosto como as que ficaram para trás.

15 comentários em “A direita amiga de Sócrates”

  1. Sem dúvida alguma. Essa “direita” prefere mesmo Sócrates: basta reparar no amor à golden share ora manifestado pela Paula Teixeira Pinto e o Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo… Não tem emenda.

      1. É fácil, apesar de infrutífero…
        1. Quem ajudou Sócrates foi PPC & seus amigos, com as constantes críticas a MFL e objectivas colagens a JS (TGV e por aí fora);
        2. As questões de personalidade e carácter de JS são centrais na situação que vivemos (tão centrais que depois de MFL sair passaram a dominar as atenções, certamente por coincidência);
        3. Não havia, e não há (como as jornadas parlamentares estão a revelar), mais PS para além de Sócrates (mas não convinha que se soubesse…);
        4. A questão central é que (para PPC & seus amigos) MFL não podia ganhar as eleições (porque assim não haveria lugares para eles);
        5. Por isso, e só por isso, era a PPC & seus amigos que mais interessava a vitória de Sócrates;
        6. Argumentar ao contrário pode ‘pagar’ no curto prazo, mas a História reporá a verdade: estamos perante uma patetice (na hipótese benigna) ou uma atitude deliberada de mentira (e portanto nojenta).
        (Já agora: eu, que não sou de direita, prefiro qualquer um em lugar de Sócrates)

  2. Vale a pena ler o artigo de opinião de Pedro Passos Coelho publicado no “i”, está ao nível de um aluno médio de introdução à economia, muito pouco para quem exibe a melhor nota de curso ainda que de uma universidade desconhecida além-fronteiras. Já que Nogueira Leite não se cansa de ajudar o líder do PSD mais valia que lhe tivesse escrito o artigo, sempre seria bem mais interessante.

    É por isso que a direita mais esclarecida prefere Sócrates.

    1. Já em relação a Sócrates, pelo contrário, cada intervenção dele – oral ou escrita – é de uma sabedoria sem limites. E quanto a qualificações académicas é igualmente incomparável.

    1. Criado o Gabinete Preparatório do Gabinete de Estudo das Políticas do Governo da Região Administrativa Especial de Macau. Fantástico. A bur(r)ocracia portuguesa deixou aí boa semente.

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