Um exemplo evidente da burrice do “acordo” ortográfico pode ser encontrado aqui. Com um título que acaba por induzir em erro os leitores: basta a queda do acento para o significado ser o oposto daquele que se pretende.
A diferença que um acento faz
Pedro Correia,

Deixe lá. No corpo da “notícia” pode ler-se:
“Segundo o site do Sporting, o jogar foi avaliado pelo departamento médico”
Portanto, com uma qualidade de escrita/revisão destas, o para até fica a condizer.
Tudo em prol dos espetadores da bola, claro.
Quem escreve assim é que se espeta. Ao comprido.
Uma delícia estes comentário e post!
Qualquer erro ou inconveniência que a nova ortografia tenha pode sempre ser resolvido. Não se vai é deitar toda a nova ortografia fora apenas por causa de um erro ou inconveniência singular. O progresso faz-se andando para a frente, não voltando para trás.
Neste caso particular, trata-se em boa medida de uma questão de habituação. Dantes também se escrevia “sòzinho”, o acento estava lá para que não se lesse “sôzinho” nem “suzinho”. Depois (em 1973) tirou-se o acento, coisa que na altura fez muita confusão a muito boa gente, porém hoje em dia ninguém lhe nota a falta.
Qual é o outro significado de “sozinho”? É que no caso em questão, o acento faz toda a diferença, em sozinho não…
Montados no corcel chamado progresso, não há falésias nem percursos circulares. Aliás, para que o jumento não perceba a circularidade, costumam-se usar palas… mas até os jumentos se recusam a progredir perante as falésias.
Para se falar de progresso, é preciso conhecer minimamente o passado. Dizia Duarte Nunes de Lião (1576), a propósito de sons foneticamente pouco perceptíveis:
«Que assim como o som de um tambor e de uma trombeta até os cavalos e bois o entendem, mas nem por isso os moverá um instrumento de cordas… assim nas letras há uma música oculta e não menos delicada, que a de cordas, que (como diz Quintiliano) se não deixa de sentir de todos. E ainda que na verdade, as nossas orelhas não compreendam a diferença das letras dobradas, para conservação da origem e etimologia dos vocábulos, era necessário dobrarem-se, tomando-os nós dos Latinos, ou Gregos, assim como eles no-los dão.»
Tomei livremente a comparação feita por Duarte Nunes do Lião, sem nenhum intuito pejorativo.
O texto encontra-se disponível online aqui:
http://purl.pt/15/1/P1.html
Os franceses e ingleses, esses povos “adversos ao progresso”, mantiveram uma escrita quase inalterada por séculos.
Já os portugueses, naquela senda do “corcel do progresso”, após os descobrimentos, mudaram constantemente e como se sabe, não se têm conhecido limites para o nosso “progresso”, nos séculos mais recentes.
E insiste. Olhe que no francês houve uma reforma recente… Abra o Robert mais recente e veja.
Quem confunde um arranhão com uma facada, ou é gozão ou não percebe nada. ons_orthographiques_du_fran%C3%A7ais_en_ 1990
Uma brincadeira de reformazinha dessas tivemos nós em 1973 e quase ninguém deu por ela:
http://fr.wikipedia.org/wiki/Rectificati
Não se iluda, Luís Lavoura: este “acordo” com o qual ninguém está de acordo a não ser alguns portugueses (que se acham muito moderninhos por causa disso), não é andar para a frente. Nem sequer para trás. É andar para baixo.
ironia do destino…acordo de acordar (despertar) ou acordo de acordar (concordar)?
Falsa questão. No caso que refere como irónico (sem qualquer ironia), o contexto diz-lhe sem margem para dúvidas qual é qual. No título destacado no artigo isso não acontece: ambas as frases são possíveis no contexto, só só que essas duas possibilidades têm significados opostos. Logo, instala-se a dúvida.
Pois, esse e muitos outros, como o eXtensor e o eStender , apesar da raiz etimológica comum, e uma quantidade apreciável de incongruências ortográficas que nada têm a ver com o AO90.
Como já reparei que reparou, o problema destas pessoas não são as borbulhas da cara toda, é “aquela” borbulha em particular, ali, perto da orelha, essa é que feia, as outras todas são bonitas. É a estética possível do “desacordismo”.
PPorto:
Depois do primeiro estrago que os “manos pedreiros” fizeram em 1911 (foi à pressa… e à pressão), querem continuar a estragar…
Assim como assim, como a ortografia já levou uns murros, pode-se bater à vontade… é essa a lógica?
O antigo acordo de 1911 também teve um famoso acantonado, deixa lá ver como se chamava… Fernando Pessoa.
Recordemos então:
« A orthographia é um phenomeno de cultura, e portanto um phenomeno espiritual. O Estado nada tem com o espirito. O Estado não tem direito a compellir-me, em matéria extranha ao Estado, a escrever numa orthographia que repugno, como não tem direito a impôr-me uma religião que não acceito.»
Acima pode encontrar uma opinião mais antiga, de Duarte Nunes de Lião (1576), que usa uma comparação interessante com alimárias.
@da Maia
A RO1911 foi uma fraca peça ortográfica. Por exemplo, vc consegue perceber porque é que as mudas em appello não abrem vogais e são excluídas e em aCtuar abrem e são mantidas? A quantidade de exemplos destes (e de outros, entre os quais a castelhanização da ortografia) e que usámos até há pouco tempo, é medonha. Corrige-se agora uma parte do disparate. Infelizmente, apenas uma parte.
Quanto ao poeta. Penso que sabe que o Pessoa acabou por, com a maior naturalidade, usar a nova ortografia, provavelmente por ter percebido a inutilidade das ortografias antigas. Ou talvez por ter concluído que a aguardente o aproximava mais da espiritualidade do que a ortografia. Compreende-se. Bendita aguardente, que usada como combustível no Pessoa tão belos versos ajudou a deixar neste mundo.
Julgo que terá ouvido falar de Verney. Não consta que ele vivesse 24 horas por dia com cachaça no sangue, como Pessoa, mas foi reconhecido em vida como um vulto da cultura europeia, ao contrário do Pessoa perdido entre a morfina e a ortografia da “lagryma” (aquele y não era etimológico, era presunção de ignorantes, tal como outros y e consoantes dobradas que umas vezes se usavam e outras não, o caos ortográfico era grande antes de 1911.)
Mas dê uma olhada no original do “Verdadeiro Método de Estudar”, que foi traduzido e lido por toda a Europa. E veja a relevância, a importância que um dos maiores vultos culturais do tempo reservava à etimologia clássica. Verney, que não era homem de pechisbeques, foi ostracizado em Portugal, que começava então a dar passos importantes rumo à tacanhez.
PPorto:
está a confundir causa com consequência. A edição de obras na nova ortografia, era uma consequência da sua imposição.
Se tiver acesso a um manuscrito de Pessoa com a nova ortografia, aí pode ser que a sua insinuação etílica venha do Pessoa, e não da pessoa acusatória.
A etimologia tem as próprias interrogações, mesmo nas antigas mudanças do alfabeto grego, e nas variantes latinas… e sobre esse assunto a sua “lagryma” não “pára” a nova confusão semântica e sintáctica.
Estamos de acordo:
– A escrita não era uniforme antes de 1911 e essa reforma foi o primeiro aborto, semi-corrigido ao tempo de Salazar, em 1931 e 45.
Ora, após 50 anos de alguma estabilização gráfica, volta a comichão… de quem?
Será o fantasma de Verney? Só se for por arrependimento dos “manos” que o expulsaram para Roma.
Não há nenhum castelhanismo nas duplas letras, se se refere ao “ll”, já no Séc. XVI se tinha convencionado aqui o “lh”. Os duplos “ll”, como outros “cc”, “tt”, eram etimológicos.
Porém, note, que Duarte Nunes de Lião não se referia a diferença de som… ele diz que “não havia diferença à orelha” – a diferença era cultural, etimológica.
A opinião de Verney é complicado julgá-la, porque ele usa o estilo italiano, que cedo se tornou fonético.
Aliás, ele não faz a incoerência do “acordês” que é manter os “h” mudos… praticamente ele escreve como fala.
A parte fonética temos mantido com pouca alteração, o que se perde com cada nova ortografia é a ligação aos textos antigos com transliterações feitas “à la carte”…
De qualquer forma, Verney é bem trazido à discussão, mas entre tantos escritores antigos, é uma excepção.
@da Maia,
Começando pelo fim, é bem verdade que Verney foi uma honrosa exceção, desde logo intelectualmente e por ser portador de uma perspetiva que contrariava o rococó do seu tempo.
Quanto à castelhanização da ortografia em 1911, que ainda hoje continuamos e em que vc não acredita deixo-lhe vários exemplos:
ordem
Port.ante 1911 – Castelhano – Port.pós 1911
o z em s
Brazil – Brasil – Brasil, etc;
etc
o ss em z castelhano/ç português
assucar – azucar – açucar
mossambique – mozambique – moçambique
etc
esta, contrariando o critério etimológico:
egual – igual – igual
egreja – iglesia – igreja
e a seguinte, pelo contrário favorecendo o critério etimológico, e que descarateriza muito mais a ortografia portuguesa do que a perda de consoantes mudas metidas a martelo na ortografia no século 16, e que ainda hoje pagamos com dois toques extra nos teclados:
portugueza – portuguesa – portuguesa
francez – francés – francês
PPorto:
Não me fiz explicar… aquilo a que chama castelhanização, eu diria que é mais o contrário. Há uma raiz comum nas línguas, que diferencia galaico-português, castelhano, extremenho, catalão, das restantes. Houve um esforço de evitar a castelhanização na 2ª dinastia, e não o contrário.
Agora, por aí entramos noutro problema… que é da raiz linguística, e se acreditamos ou não na “versão oficial” que reporta aos suevos a diferença… no caso catalão não sei a que é que reporta, em Aragão devem-se ter lembrado de falar outra língua, e no caso basco deve ter sido efeito dos cogumelos dos Pirinéus.
Quanto a Verney, sendo um vulto interessante, não deixa de acusar a sua influência externa, rígida, escolástica e arrogante, ao mesmo tempo que parecia proclamar o oposto. Distribuía críticas a pontapé… acho que só poupou o Pe. António Vieira.
As razões para tanta crítica… do que se lê, tudo superficial, muito superficial mesmo.
Se houve coisas que não lhe escaparam, fruto da sua educação, houve outras que lhe passaram completamente ao lado…
@ P. Porto
Os idiomas tem um maior ou menor processo de formação comum do latim vulgar às línguas românicas.
Em «igreja» o «i» não vem do «e» incial de «ecclesia» mas da vocalização do primeiro «c»; a forma antiga portuguesa é «eigreja» (& Vitimiro, quando vyo que os Godos tam valentemẽte entraron a cidade, foy ẽ muy grã medo e fogio a hũa eigreja de Sancta Maria, in Crónica Geral de Espanha de 1344</i>) que se formou pelo mesmo processo de vocalização e ditongação que nos deu «feito» de «factum»; o ditongo «ei» antigo condensou-se em «i» tal como popularmente «eiró» se faz «iró».
A senda da escrita do castelhano em 1911 deve-se em muito a razões de história comum da língua e menos a caprichos; assim não fora (fôra) e havíamos de ter ermão e ermã (ou quiçá hermão i hermã).
Vossemecê só ganharia se estudasse a história da língua em lugar de se descuidar com justificações de a ortografia do português ser preferível pela (menor) quantidade de marteladas num teclado.
Cumpts.
@bic
A história da língua associada ao duplo propósito de simplificação etimológica e sobretudo de preservação dos radicais que, supostamente, a RO1911 pretendia, deveria ter precisamente mantido os sufixos de portuguez. Eça escrevia assim, Castilho também, Pessoa também e tantos outros. Ficou ainda famosa a Illustração Portugueza, de boa memória. Acontece que a castelhanização aconselhava o sufixo “ês”. E assim se fez.
No caso de ecclesia>egreja, aequal>egual, que tantos escritores e jornais escreviam, muito corretamente, com “e” da raiz etimológica, a reforma de 1911 veio castelhanizar para igreja e igual, com direito a parágrafo específico no texto da reforma.
O argumento da fonética não serve. Afinal, dizemos educação, enorme e tantas outras com i inicial e escrevemos o “e” etimológico. Aconteceu que essas já tinham raiz idêntica ao castelhano.
De igual modo castelhanizou palavras como aza para asa e até, imagine-se Brazil para o castelhano… Brasil.
Se reparar, no texto da RO encontra mesmo um artigo que, na dúvida entre usar s/ss ou ç, remete para a palavra correspondente em espahol. Se em espanhol se escrever com z, em português passa a escrever-se com ç, mesmo que se escrevesse antes com s ou ss ou se contrariasse a etimologia e a história da língua
E foi assim que por exemplo, a Suissa (do francês Suisse) passou a Suiça, do espanhol Suiza, e mussulmano/musulmano passou a muçulmano, porque em espanhol se escrevia muzulmano.
@ P. Porto
Os idiomas tem um maior ou menor processo de formação comum do latim vulgar às línguas românicas.
Em «igreja» o «i» não vem do «e» inicial de ecclesia » mas da vocalização do primeiro «c»; a forma antiga portuguesa é «eigreja» (& Vitimiro, quando vyo que os Godos tam valentemẽte entraron a cidade, foy ẽ muy grã medo e fogio a hũa eigreja de Sancta Maria, in Crónica Geral de Espanha de 1344) que se formou pelo mesmo processo de vocalização e ditongação que nos deu «feito» de «factum»; o ditongo «ei» antigo condensou-se em «i» tal como popularmente «eiró» se faz «iró».
A senda da escrita do castelhano em 1911 deve-se em muito a razões de história comum da língua e menos a caprichos; assim não fora (fôra) e havíamos de ter ermão e ermã (ou quiçá hermão i hermã).
Vossemecê só ganharia se estudasse a história da língua em lugar de se descuidar com justificações de a ortografia do português ser preferível pela (menor) quantidade de marteladas num teclado.
Cumpts.
Não vejo a ironia nem vejo o paralelo, já que não é uma questão de acentuação mas de significado. A palavra “acordo” tem duplo significado, como acontece com inúmeras palavras da nossa língua. O contexto encarrega-se de distinguir e esclarecer, por isso não vejo onde está o problema.
vamos admitir que vê este título num jornal (por exemplo):
“mas que sede, meu deus!”
só pela frase, sabe do que se trata, e como lê-la?
há quem tudo saiba…
Não, de facto não sei até perceber o contexto. Mas o que é que pretende provar com essa tese? Que, havendo erros em anteriores acordos ortográficos, mais vale continuar a fazê-los e alargá-los a outras palavras? É que não percebo a sua intenção, já que critica as dificuldades de entendimento de algumas palavras de duplo significado.
provável ingénuo que sou, pensava eu que era a Ana (e os outros), que criticava o AO por ter criado mais “dificuldades de entendimento de algumas palavras de duplo significado”.
como demonstra este post (pensava eu).
Parece-me que andamos em círculos, Carlos. Pensava e pensava bem, o que eu não sabia é que concordava connosco. Espero que não se entusiasme, que não me ocorre discutir Verney… 🙂
Acordo todos os dias!
Temos sede na Rua da Prata.
Os bancos deste país não prestam.
Então, então, Ana, “ninguém está de acordo a não ser alguns portugueses” era o que se ouvia na “acampada” do Rossio.
Dos acampados do Rossio restam os atiradores de pedras de São Bento. Dos acampados da ortografia antiga, restam os “atiradores de pedras” do Público sustentado por quem compra no Continente.
Há aí um pormenor que rejeito liminarmente, caro PPorto: apelidar de “ortografia antiga” a ortografia vigente, aquela que eu e muitos portugueses praticamos. Tanto quanto sei, o famigerado acordo está longe de ser um dado adquirido.
Vigente e bem vigente. Basta uma pequena viagem pela blogosfera para perceber isso.
Não. O progresso faz-se evitando pisar bostas: o AO tem de ser abolido.
Já esteve mais longe de ser abolido. O bom-senso há-de prevalecer. Um acordo que pretendia “unificar” a ortografia acaba afinal por instituir três ortografias diferentes no espaço lusófono. O toque de Midas, às avessas.
Este acordo é de bradar aos céus! Parece que “para mas não para”.
Tem de parar.
O problema é que ninguém para para pensar.
Para para. Para.
Quem não para para pensar só para para palrar.