A ‘deontologia’ do ministro


Pedro Correia,

Nem queria acreditar quando vi, uma noite destas, Augusto Santos Silva protagonizar um frente-a-frente com Nuno Morais Sarmento no novo canal de notícias da TVI. Dizem-me que este programa tem carácter regular, o que torna o ministro dos Assuntos Parlamentares colaborador permanente da estação de José Eduardo Moniz. E não queria acreditar porquê? Porque este é o mesmo Santos Silva que ainda há dias, em entrevista ao DN e à TSF, dizia o pior possível desta estação. "A TVI, designadamente no seu Jornal Nacional da sexta-feira, viola sistematicamente os princípios da profissão de jornalista e o Código Deontológico dos Jornalistas", bradou o ministro. É verdadeiramente inexplicável que Santos Silva aceite colaborar com uma estação televisiva que "viola sistematicamente" os princípios do jornalismo. Já que ele tanto gosta de falar em deontologia, apetece-me perguntar-lhe se não há uma grave falha deontológica em tudo isto. Da parte dele, não da parte da TVI.

11 comentários em “A ‘deontologia’ do ministro”

    1. Não sei se será por estarmos a poucos meses de eleições, mas este é o ministro que mais tem falado, Joana. Talvez por estar ungido de uma especial autoridade ‘no seio do governo’ (deliciosa expressão que ainda se lê tanto por aí). O problema com ASS é que a quantidade das declarações é inversamente proporcional à qualidade. Como se tem visto. E lido. E ouvido.

    1. Já não há rolhas disponíveis no mercado, Teresa. Esgotaram-se para tapar a boca e a verve de muito escriba aí por essa blogosfera fora. Nem um pio emitem contra o Governo, não vão Suas Excelências incomodar-se…

    1. Tem razão: é ‘perfeitamente natural’, o debate de ideias. Menos natural é desancar forte e feio a estação de TV onde se tem colaboração regular, sobretudo tratando-se de um ministro que tutela os assuntos da comunicação social.

  1. A “deontologia” desaparece quando aparece mais uma oportunidade de ser protagonista e arrecadar mais uns euros para a conta bancária!

  2. Caro Pedro:

    Mais uma análise perfeita feita por si.
    Só vem provar que o “malhador” é um tretas, diz uma coisa e faz o seu contrário, oque é triste é termos “gentinha” desta no governo, mas como são todos iguais ao “chefe” estamos esclarecidos.
    Está quase a chegar a hora de mandarmos este conjunto de “iluminados” para as termas. Portugal não é nação só a partir de Fevereiro de 2005.

    1. Carlos, obrigado pelas suas palavras iniciais. O que me faz verdadeiramente confusão é haver alguém disposto a colaborar, dando a cara e o nome, num órgão de informação que viola tantas e tão reiteradas vezes a deontologia jornalística.

  3. Caro Pedro,

    Não o acompanho nesta reflexão. Confesso que me faria muito mais confusão se uma pessoa, político ou não, ministro ou não, se excluísse de ir a jogo no debate plural por ter um determinado juízo de valor sobre a linha editorial, não do programa em que participa (aí sim, poderia ser algo bizarro), mas de outro programa dessa estação e que nomeou sem rodeios. Ou que anulasse a frontalidade crítica por lá estar. E quantos comentadores não têm (e bem) posições críticas (algumas estimulantes e enriquecedoras) sobre posições editoriais dos meios de comunicação onde opinam? Desempoeiremo-nos.

    Uma provocaçãozinha, se me permite: e o Pedro, o que acha do padrão deontológico do Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes?

    Um abraço

    André Salgado

    1. Caro André,

      Fiquei sem saber, depois disto, se ainda existe o tal “jornalismo de sarjeta” de que o ministro tanto gostava em tempos de falar. E se a TVI, segundo ASS, faz parte desse “jornalismo de sarjeta”. E se viola o código deontológico às sextas mas não no dia em que ASS lá emite opinião. E se ASS se sente bem numa televisão que viole o dito código mesmo no dia em que ele lá não põe os pés. E se a crise de comentadores já é tão grave que começa a ser necessário recrutá-los no Conselho de Ministros. E se o Jornal Nacional apresentado por MMG melhora se ASS começar a ter lá assento como analista, à compita com o Miguel Sousa Tavares e o meu amigo António Peres Metelo. E se o ASS comentador concorda com o ASS ministro.
      Enfim, um mundo de dúvidas. Tenho de visitar com mais frequência ‘O País Relativo’, exemplo de blogue apostado no “debate plural”, para me “desempoeirar” um pouco. Ando mesmo a precisar.

      Um abraço

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