À dentada


Paulo Sousa,

Existe uma faixa da população, daqueles que se podem designar como “os sem voz” que por inerência da designação não têm como ascenderem aos cinco minutos de fama que o Andy Warhol profetizou. É certo que não são poucas as azeiteiras que nos dias de hoje tentam rentabilizar as respectivas amolgadelas perante uma horda de seguidores no Instagram. Não sendo isso mais do que a confirmação da visão da estrela maior da pop art, ainda assim os “sem voz” continuam a existir fora do clarão dos holofotes e continuarão a andar por aí a espernear.

Quis o destino que numa paragem entre duas estafadelas, passasse uns minutos ao lado de um contentor disfarçado de refeitório de uma obra, estacionado sob o abrasador sol de Julho.

Um dos trolhas mais novos que, por entre os demais, por ali espairecia, exibia o incrível super-poder de conseguir abrir garrafas de cerveja com os dentes. Aquilo é uma coisa bonita de se ver. As tampas das garrafas pareciam feitas de folha de alumínio, daquela que uso no forno para resguardar a carne de borrego. É inegável que aquela capacidade lhe garante uma incrível popularidade por entre os iguais. O brilho nos olhos dos seus pares, quase emocionados, só fazia lembrar aquele sketch do Herman em que alguém dizia “este homem é do nuorte, carago!”

Apesar do efeito estético no instante imediato, todos sabemos que aquelas habilidades vão desembocar num tipo, com mau hálito, e de boca aberta a fazer um molde para uma prótese dentária. Mas isso agora não interessa para nada. Hoje é hoje e a mensagem de força que se transmite é que conta.

Quando abandonei aquelas belas companhias, lembrei-me do episódio do anúncio do ex-futuro novo aeroporto pelo ministro Pedro Nuno Santos e achei que aquele miúdo de dentes aparentemente poderosos era o PNS dos trolhas. Os dois confundem a força de vontade com a capacidade.

Vamos ver qual dos dois vai ser o primeiro a ficar sem a cremalheira bocal.

10 comentários em “À dentada”

  1. Visto que há 50 anos não aparece ninguém com capacidade de dizer onde construir a porcaria do aeroporto, ao menos haja alguém com força de vontade de o fazrt, já é qualquer coisa.

    Já gente com vontade e capacidade de adiar tudo para mais um estudozinho, não parece haver falta nenhuma. Seguidamente vem a contestação ao estudozinho e os nossos decisores políticos perdem a força de vontade de desagradar a algumas clientelas e emcomendam mais um estudozinho.

    1. Confirma então que realmente o voluntarismo imponderado causa boa impressão. Eu gostei foi de ouvir o PNS a penitenciar-se de orelhas quebradas.
      Sobre o sua insatisfação perante a incapacidade dos nossos governantes em tomarem decisões, estamos de acordo.

      1. Qualquer coisa causa mais boa impressão do que ver os responsáveis políticos a adiar as decisões durante 50 anos por não terem tomates de as enfrentarem.

  2. Temos de perceber que um novo aeroporto é uma utopia , mais vale fazer remodelar dentro do possível o actual e aproveitar o de Beja .
    Os custos de tal obra não justificam os proventos pois em breve a aviação comercial estará decadente e só os muito ricos poderão usufruir da mesma.
    O futuro para mim é a ferrovia e o transporte marítimo.

    1. Os pareceres sobre o aeroporto estão a valer bons milhões. Envie também o seu para o Ministério do PNS. Ou melhor, envie-o antes para o AC, pois agora sempre que o PNS decide tem sempre de lhe perguntar se pode decidir ou não, o que é uma abordagem criativa sobre o que é decidir.
      Já foram pagos tantos pareceres sobre o aeroporto, que lhe hão-de arranjar lá nem que seja uma cervejinha e um pires de tremoços.

  3. Ainda bem que é o Montenegro dos trolhas a dar a solução.
    Como é que ninguém percebeu em cinquenta anos que o problema do aeroporto se resolvia com umas obrinhas? Isto sim é que é capacidade, de certeza que tem a cremalheira toda.

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