A democracia suspensa?


Pedro Correia,

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Foto: Mário Cruz / Lusa

 

Daqui a seis meses, os portugueses serão convocados às urnas para escolherem entre os diversos candidatos presidenciais. Enquanto o actual titular do cargo mantém um silêncio sepulcral sobre as sua provável recandidatura.

Mandaria a mais elementar transparência que Marcelo Rebelo de Sousa já tivesse deixado claro qual é a sua intenção nesta matéria, em vez de esperar pelos bitaites do primeiro-ministro, pertencente a uma família política diferente da sua. 

Do alto do pedestal em que as sondagens o colocam, Marcelo opta pela posição mais confortável: gere o silêncio até ao limite possível, condicionando toda a margem de manobra à direita do PS, e vai fazendo campanha sem se declarar candidato. O que pode ser divertido para ele mesmo mas não é salutar para a vida democrática.

 

Enquanto se desenrolam estes jogos de bastidores, só favoráveis ao actual inquilino do Palácio de Belém, Rui Rio rompe mais uma cura de silêncio, propondo agora o fim dos debates quinzenais na Assembleia da República – sede insubstituível de fiscalização e controlo do Governo. Alegando que «o primeiro-ministro não pode passar a vida em debates», algo de que nem o próprio António Costa alguma vez se lembraria

Com esta declaração em que parece advogar a suspensão da democracia, Rio comprova assim ter mais vocação para mordomo do chefe do Governo do que para “líder” da oposição. Alguém imagina o novo líder do Partido Trabalhista britânico, Keir Starmer, advogar o fim dos debates (semanais, não quinzenais) na Câmara dos Comuns para poupar maçadas a Boris Johnson?

 

ADENDA: Será que, na cúpula do PSD, não falam uns com os outros? No mesmo dia em que Rio faz estas declações absurdas contra o excesso de debates na AR, Paulo Rangel diz isto (no Expresso da Meia-Noite, da SIC Notícias): «Os governos, em democracia, estão sujeitos ao escrutínio democrático. E, quando há erros, apontar os erros não é ser antipatriótico.»

42 comentários em “A democracia suspensa?”

  1. É difícil compreender o líder socialista do PSD. O que quererá com o fim dos debates quinzenais? Acabar com as baldas às sessões de terapia da fala ou mais tempo para traduzir os debates?

    Smoreira

    1. Rui Rio faz-me lembrar por vezes Anthony Hopkins no filme ‘Os Despojos do Dia’, de James Ivory (1993).
      O melhor mordomo que recordo alguma vez ter visto no cinema.

      1. Grande analogia. De facto Rui Rio parece “lutar pela sua servidão como se fosse pela sua liberdade”, luta pela próxima bancarrota de Portugal como se fosse uma classificação de rating AAA. Mas até Mr. Stevens ao fim de vinte anos apercebe-se que a sua inquestionável fé e dedicação à sua causa (trabalho), foram mal aplicados e tiveram um forte impacto na sua vida, apercebe-se que o prazer de desfrutar o fugaz momento do remanescente da luz do dia, apesar de belo, levou-o à sufocação dos seus afectos, ao desconhecimento das causas das suas acções, e tenta recuperar o tempo perdido tentando resgatar o amor de Miss Kenton. É neste ponto que discordo da sua analogia. Rui Rio faz-me lembrar outro mordomo famoso, o de Glória Swanson em “O Crepúsculo dos Deuses”. Imagino Antonio Costa caído em desgraça a preparar-se para descer a escadaria da Assembleia da República a virar-se para Rui Rio e afirmar “sou a maior estrela política que Portugal alguma vez teve e não tenho culpa de nada”. Rio olha para Costa com amor incondicional e vira-se para as televisões presentes: “objectivas, luz, acção…”.

  2. Tem toda a razão. Rui Rio anda a apanhar papéis. Sobre a actuação/comunicação desastrosa da DGS nada diz, sobre as vergonhosas nacionalizações da TAP e Efacec, nada dirá.

    Um Estado falido, em que 70%das reformas são abaixo do salário mínimo, em que metade dos cidadãos não têm rendimentos para pagar IRS, em que uma crescente proporção de proprietários se vai vendo aflita para pagar os impostos sobre a propriedade, tal Estado mete-se a comprar, a esbanjar milhares de milhões em nacionalizações. Será para isto que os dinheiros da bazuca serão usados. Quem puder que emigre

      1. https://executivedigest.sapo.pt/costa-diz-que-estabilizar-a-economia-e-a-sociedade-pode-durar-dois-ou-tres-anos-mas-nao-e-o-tempo-que-nos-deve-assustar/

        Desde Março /Abril já perderam emprego 300.000 portugueses. Fecharam 15000 empresas. E não devemos ficar assustados. Presumo que, tal como os incêndios, o “pessoal” se deva habituar a não se preocupar com as grandes preocupações.

        https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/covid-19-dgs-nao-esta-a-contabilizar-todos-os-casos-de-infecao-avanca-jornal-expresso

        1. Deve ser engano nosso. Não se passa nada de anómalo neste santo país. Isto proclamado pelo putativo “líder da oposição”, fazendo coro com o primeiro-ministro, no dia em que o PSD aprovou o orçamento rectificativo – algo que Costa nunca fez quando liderava a oposição ao Executivo PSD/CDS.

  3. O problema do actual PR -político de origem PSD e em 1º mandato- é manter as boas graças do PS. Com o actual PM será razoável estar assim tão confiante?.

    O mal da “democracia” portuguêsa não é o PM ir, ou não, inutilmente, a uma assembleia similar. Trata-se apenas de adversos tempos de antena que convém minimizar.
    Desde quando algum PM mudou de linha de rumo, ou se deu por (con)vencido, durante um “debate” na história de esta Assembleia da República?.

  4. Custa admitir, mas tem razão. RR tem parecido um passe-vite: deixa passar tudo para os portugueses engolirem sem protesto. Entre ódio ou antipatriotismo e juízo crítico – o mínimo que se pedia a um líder da oposição -, vai uma grande distância. Mas pelo visto, podemos esperar sentados à espera de um rasgo de coragem.

  5. Rio é honesto. Quando for (porque será) PM, não quer ter de aturar a Joacine e o André pan pan de quinze em quinze dias
    O Costa também não, mas tem qi político para não o dizer.
    Marcelo faz a campanha que fez há 4 anos, em linha com o mandato. Anda por aí. Faz comentário político. Não se compromete demasiado. Na verdade, sempre vimos o papel de Presidente mais como um cargo regal do que real, portanto veste bem o personagem.
    Costa continua a fazer os seus truques de prestidigitação, enquanto a cartola não rasgar de vez.
    A TAP é daqueles assuntos que ultrapassam a economia e extravasam a ideologia. Há uns dias ouvia DO, o outro, preocupado com os despedimentos. Não quis ouvir de acabar rotas, devolver aviões, só não queria alguém despedido. Em última instância podemos ter uma TAP ao serviço da diáspora (??), a voar de e para Brasil, EUA e Angola (já agora aproveitem para criar o tal corredor aéreo Beja-Lisboa), e fechar tudo o resto. Mas sem despedimentos. O pessoal paga, porque é uma bandeira, e exporta, e o país precisa.

    1. O problema de Rio é esse que indica nas suas linhas iniciais: faz oposição à Joacine e ao Silva, em vez de fazer oposição a Costa.
      É muito vigoroso e autoritário a falar para dentro do próprio partido, e é pianinho no diálogo com o governo socialista.
      Por vezes chega a ser mais costista do que o próprio Costa. Proeza nada fácil de alcançar, convenhamos.

      1. O Rio trata o partido do Governo enquanto oposição como gostaria que o principal partido da oposição o tratasse se ele fosse governo.
        Claro que quando for ao contrário, o PS manda às malvas as “unidades nacionais”.

        1. Rio sabe muito bem como é Costa enquanto líder da oposição: ficou bem demonstrado em 2014-2015. Por sinal numa altura em que o próprio Rio várias vezes se opôs também ao governo PSD-CDS.

  6. Desde o caso Lewinsky que o sexo oral deixou de ser considerado sexo. É esta táctica política que o Sr. Presidente da República utiliza. Para bom entendedor meia palavra basta … certo? Do alto do seu pedestal MRS arrisca-se a sofrer uma humilhação. E uma humilhação será ficar longe do score de Mário Soares aquando da sua reeleição ou até ter que enfrentar uma hipotética segunda volta contra André Ventura. Parece um cenário altamente improvável mas em política o mundo muda de um dia para o outro e a crise que já se vive será demasiado dolorosa para se continuar a sorrir cada que o Sr. Presidente da República resolve mostrar o seu underwear. Não será por ter beijado a mão de Fidel de Castro que o PCP deixará de apresentar o seu candidato à sucessão de Jerónimo para testar as suas bases. O BE apresentará a simpática Marisa. Basta Ana Gomes candidatar-se para perder os votos de toda a ala esquerda do PS. Ainda vamos ver MRS recusar debates com André Ventura com a desculpa de não promover o discurso de ódio. MRS com a preciosa ajuda de RR arriscam-se a ser uma “causa próxima” do parece ser a inevitável ascensão do CHEGA. Assim como a anexação da Alsácia e Lorena foram causas próximas da primeira guerra mundial. O grande problema do Sr. Presidente da República é que o sexo oral continua a ser sexo. Para o eleitor de esquerda e de direita português.

  7. Com as idas da Casalinho ao ‘Bolhão’ em Junho e no dia 1 de Julho, o calo já ultrapassou os 270MM€. Do bodo que vai chegar da UE, 10MM€ são para endividamento. E atenção, as aflições ainda vão chegar. Pela calada, todos estes tempos ‘anti-austeritários’ cifram-se nos valores do último resgate.

    O sucesso do CR7 da Juventus, para júbilo dos adeptos, mede-se pelos golos que marca na baliza adversária; o sucesso do CR7 das finanças, pelo júbilo dos contribuintes, media-se pelos golos na própria baliza – aumento da dívida.

    O socialista líder do PSD que se ponha a pau, pois Costa não é sapo que se deixe cozer e, com certeza, já tem estratégia delineada para se descoser dos maus tempos que chegam. Ousarei dizer que Costa é capaz de um dois em um: entregar o menino borrado e mijado a dois patetas.

    E isso é que vai ser um milagre!

    Smoreira

  8. Este cavalheiro que ficou a tomar conta do PSD, mais uma vez, não hesita em associar-se ao cavalheiro do PS. Agora na tentativa de silenciar os pequenos partidos que vão crescer à custa do seu eleitorado.
    Ele não está realmente preocupado com o doutor costa. Está apenas a ver a vida a andar para trás…

  9. Não sei qual é a estratégia de Rui Rio. O que sei por experiência própria é que cada vez mais gente que tradicionalmente votava PSD se está a chegar ao Chega (o CDS parece ter desaparecido). E não é gente de direita, é gente farta do estado geral da desnorte da política, onde as únicas novidades são novos impostos, e que não se revê na esquerda.
    Isto preocupa-me, não acredito que Ventura tenha competência, nem o partido quadros competentes – acho mesmo que se por azar o Chega tivesse uma maioria absoluta, o partido colapsava.
    Mas Rio não está a ajudar nada. Esta idéia de não incomodar o primeiro-ministro é absolutamente estúpida. Se o Chega tiver uma votação expressiva a culpa é dele e de mais ninguém.

  10. RIO GRUDOU NISTO
    “O primeiro-ministro apresentou hoje uma tabela que mostra o Reino Unido muito acima do Algarve em número de infectados com covid-19”.
    Costa acabou por adiantar uma boa razão que assiste ao Reino Unido para não adicionar mais esse risco de engrossar o numero de atingidos.
    Na visão de Costa Portugal é o Algarve, o resto com Lisboa à cabeça é paisagem infetada mas distante.
    Esta rançosa ironia anda a par das suas manhosas habilidades.
    Um Estado que para aprovisionar uns pacotes de parafusos precisa de nomear um grupo de trabalho que nem serquer sabe como se apertam as porcas, e que acaba por recorre a um consultor de mecânica instalado na praça para esclarecer o que é e para que aquela ferragem serve.
    O GT fica a saber que o material pode ser de ferro escuro, inox ou outras ligas sujeitas a metalização, mas tudo dependará da utilização especifica a que se destina.
    Porque desconhecem a finalidade requisitam mais um estudo externo sobre técnicas de como e onde aquilo se pode enroscar.
    Não sendo nesse patamar que se tratam os termos juridicos do contrato, paga-se mais um parecer a uma sociedade de especialistas na matéria.
    Como é que se pode permitir que gente desta, sem competêncis seja para o que for, tome em mãos a direção de empresas de grande dimensão e complexidade de gestão, em que por concurso de recrutamentio nem para dar seventia seriam admitidos
    Declaração recente do 1 M a propósito do efeito “covid”, sendo digna de umas valentes palmadas, merece figurar no top da propaganda enganosa deste manipulador personagem.
    Conseguiu começar a palavrada apresentando indices positivos â tangente, o que não confere minimamente com o agravamento das medidas anunciada lá para o fecho do alinhavado engodo.
    O homem sabe da phoda. O erro certo do milagre português sãos os intensos farsantes milagreiros Costa e Marcelo.

  11. Torcer os factos, alinhar narrativas, eis as premissas da comunicação socializada com o prestimoso auxilio da “internet”.
    A noticia que o Pedro Correia linka também esteve no “Observador” mas foi logo chutada da front page porque estava demasiado bem escrita e elucidava bem quem tivesse dúvidas.

    WW

    1. «O primeiro-ministro não pode passar a vida em debates quinzenais. Tem é de trabalhar.»
      https://expresso.pt/politica/2020-07-03-Rui-Rio-O-primeiro-ministro-nao-pode-passar-a-vida-em-debates-quinzenais.-Tem-e-de-trabalhar

      Para o “líder” da oposição, portanto, o chefe do Governo não deve submeter-se ao controlo e à fiscalização dos deputados no parlamento pois isso não faz parte das tarefas – isto é, do “trabalho” – do primeiro-ministro.
      Já seria extra-ordinário se fosse dito por alguém do Governo. É ainda mais insólito ser dito pelo alegado “líder” da oposição.

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