A demissão cívica dos intelectuais


Pedro Correia,

 

A morte de José Saramago é também a morte simbólica do intelectual que se indigna. Com o desaparecimento do autor de Levantado do Chão, encerra-se uma era caracterizada pela intensa participação de escritores e artistas na vida pública dos seus países e até na cena política internacional. A separação entre arte e vida não existiu para a maioria dos intelectuais do século XX: uma era o prolongamento natural da outra. Intelectuais como Zola (que, com o seu “J’ Accuse”, ainda no século XIX, influenciou as gerações que lhe sucederam), Gramsci, Bertrand Russell, Gide, Céline, Pound, Dos Passos, Malaparte, Malraux, Hemingway, Orwell, Sartre, Aron, Koestler, Camus e Simone Weil. À esquerda e à direita.

É certo que muitos desses intelectuais acabaram por apoiar alguns dos regimes mais despóticos da sua época, caucionando-os com a sua pretensa autoridade moral. Mas o reverso desta medalha, igualmente negativo, é a apatia dos intelectuais de hoje, que se comprazem a mirar o próprio umbigo e fogem cuidadosamente de tudo quanto cheire a controvérsia.

Pensemos à escala portuguesa: alguém se recorda de alguma atitude indignada de um intelectual, nos últimos anos, contra a corrupção galopante, a justiça descredibilizada, a economia inviável, as assimetrias sociais, o drama imparável do desemprego, as mentiras dos políticos? Calando-se agora a voz de Saramago, que nunca evitou as polémicas, sobra um silêncio conformista e resignado. Cada qual só se preocupa com a sua “obra”, com as suas “vendas”, com a sua vidinha, abdicando da intervenção cívica. A própria reforma ortográfica passou perante um generalizado encolher de ombros e quase sem um sussurro crítico dos “intelectuais”, com a excepção honrosa de Vasco Graça Moura. Muito ao contrário do que sucedeu no final da década de 80, quando pela primeira vez a Academia de Ciências de Lisboa procurou impingir aos portugueses um “acordo ortográfico” que equivalia a uma rendição incondicional à norma brasileira.

É um sinal dos tempos. Nesta era de feroz individualismo, o intelectual regressa à torre de marfim. Ou imita aqueles distraídos xadrezistas de Bizâncio, de olhos concentrados no tabuleiro enquanto a cidade ardia. Compreende-se: é mais cómodo ser assim. Depois da intervenção cívica, a demissão cívica. E, no entanto, a Terra move-se.

 

Na sequência desta reflexão de Maria do Rosário Pedreira, reedito o texto originalmente publicado no DELITO DE OPINIÃO a 7 de Julho de 2010

 

33 comentários em “A demissão cívica dos intelectuais”

  1. Acho que estás a ser excessivamente radical. Admito que a intervenção cívica dos intelectuais portugueses já teve o seu auge e que se instalou um certo laisser faire, laisser passer, mas não é verdade que não existam vozes a denunciar injustiças e perigos actuais. Dou-te um exemplo (e há outros, evidentemente): até o pacífico, insuspeito e tradicionalmente conciliador Nuno Júdice acaba de lançar um romance que bem pode ser considerado “de intervenção política”, chamado A Implosão. Lê-o, vale a pena.
    E contra o acordo ortográfico, nem só Vasco Graça Moura se tem levantado. Está acompanhado de muitos outros intelectuais que não têm parado de reeinvindicar uma revisão ou mesmo a anulação do AO. Dou-te também um exemplo, uma voz eloquente que tem sido incansável a todos os níveis (acrescentando ao protesto do AO o do miserável ensino actual da língua portuguesa): Teolinda Gersão. Dou-te estes dois nomes apenas porque sou preguiçosa, mas há muitos outros.

    1. Só me ajudas com esses exemplos, Ana. Pois eu queria referir-me essencialmente a gerações mais jovens de escritores, sobretudo àqueles que já nasceram em democracia e parecem demonstrar um imenso enfado pela realidade circundante. No que dizem e no que escrevem.

      1. Ah, não percebi que era uma questão de idade. Nesse caso tendo a concordar contigo. Dando também razão ao Jpt, de facto não podemos restringir aos escritores o rótulo de intelectual.

        1. Acrescento só: a outro nível, numa outra área de intervenção, lembrei-me por exemplo das letras dos Deolinda. Na música há mais exemplos, como aquele rapper que canta “é sexta-feira…” (não sei o nome dele, mas a letra é uma denúncia muito bem feita da situação de muitos jovens.

          1. Sim, quanto a isso tudo bem, Ana. Merece aliás uma análise detalhada. Eu refiro-me sobretudo aos chamados ‘escritores de sucesso’, da nova geração, rapaziada despachada na escrita, muito expedita na rotina dos ‘lançamentos’ literários, com jeito para o marketing e relações públicas, êxito garantido nas ‘correntes d’escrita’ e nos circuitos das entrevistas-seguidas-ou-antecedidas-de-promoções-muito-in. Nunca escuto um deles a proferir uma frase polémica, uma só. Atiram generalidades para o ar, meia dúzia de frases banais, bem estudadas para fazer efeito e dar títulos ‘giros’, nada mais.
            Ignoramos tudo quanto pensam do País, da Europa, do mundo. Se calhar não pensam nada. E o problema é precisamente esse.

  2. hum … talvez sim. Estou longe, não acompanho bem o movimento. E concedo que não se trata exactamente de elencar quem é quem, quem faz o quê.
    Mas ocorre-me, e um pouco também em relação ao comentário de Ana Vidal, se não haverá um afunilar do termo “intelectual” como se sinónimo de ficcionista. Certo o escritor, até como se demiurgo, é uma associação directa, mas “intelectual” (o cidadão “intelectual”, a la Aron para usar um exemplo – quase só – do teu postal) é mais vasto.
    E se abrirmos o leque então poderemos encontrar gente que fala – concorde-se ou não com as suas posições. Gente bloguista até: Carrilho, António Barreto (que tem um blogar isento destas preocupações mas exerce-as noutros contextos), o excelente colectivo De Rerum Natura, e fico-me por este acenar triplo ao confradismo bloguístico. Já para não falar do Vasco Pulido Valente, que foi uma estrela cadente no bloguismo …

    Dito isto, em termos mais abrangentes concordo com o postal.

      1. Esses que mencionas tudo bem, meu caro. O problema é o silêncio dos outros. Ou melhor: o ensurdecedor ruído ‘mediático’ que vão fazendo sem no fundo nada dizerem. Fogem da rija polémica e até da suave controvérsia como o diabo da cruz.

        1. Talvez, acredito pois não tenho acesso ao panorama global. Mas se calhar porque não são “intelectuais” no sentido que estás (e não só tu) a atribuir ao termo.

          1. Talvez. Esses putos sabem muito bem fazer o ‘marketing’. Falam muito, ‘promovem-se’ muito mas são incapazes de proferir uma frase que levante poeira. Por isso andam sempre muito lavadinhos e engomadinhos.

  3. Pedro, concordo com tudo o que diz, e também com o que não disse.
    Em seu texto vão referidos dois nomes, entre muitos outros que não refere, que me marcaram particularmente: Simone Weil e Camus. Também gostei de Celine, em particular o livro “Viagem ao Fim da Noite”, ainda que este tivesse caucionado politicamente o que caucionou.

    É pena que neste país, ao nível da intelectualidade que se revela no panorama actual, se faça sentir estrangeiro quem deveras o é.

    1. Agradeço as suas palavras. Camus é um dos meus autores de referência. Nas ideias e na escrita, elegante como poucas. Um grande escritor nem sempre bem compreendido e que permaneceu numa espécie de terra-de-ninguém no tempo em que o debate de ideias era sobretudo um debate ideológico. Talvez por isso, a sua obra resistiu muito bem à erosão do tempo.

  4. Grande texto. Está lá tudo.
    Os intelectuaizinhos ‘de agora’, apenas se preocupam com o seu umbiguinho . Tiro o meu chapéu a Graça Moura, que tem sido um verdadeiro paladino na luta contra esta execrável ditadura do dito acordo ortográfico, que outra coisa não é, além de repulsivo meio de assassinar a Língua de Camões, que um vergonhoso baixar de calças ‘aos brasileiros’.
    Que exemplos de sanidade mental nos deram, neste aspecto, Angola e Moçambique.

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    Grande texto. Está lá tudo. <BR>Os intelectuaizinhos 'de agora', apenas se preocupam com o seu umbiguinho . Tiro o meu chapéu a Graça Moura, que tem sido um verdadeiro paladino na luta contra esta execrável ditadura do dito acordo ortográfico, que outra coisa não é, além de repulsivo meio de assassinar a Língua de Camões, que um vergonhoso baixar de calças 'aos brasileiros'. <BR>Que exemplos de sanidade mental nos deram, neste aspecto, Angola e Moçambique. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Chiça</A> penico para a maioria estes intelectuaizinhos de trazer por casa!
  5. Parabéns Caríssimo!

    Espero que esteja tudo bem, sei do meu silencio. Assim como o de outros. Mas nenhuma relação tem com o silencio que menciona no Post, não estou nem pouco mais ou menos a essa altura (Intelectual) embora concorde absolutamente com a demissão cívica de … todos os restantes. Portugueses pelo menos.

    Forte abraço

  6. Por acaso o seu texto apanhou-me em contra-pé, já não pensava comentar.
    Muito bom texto, é oportuno hoje e há 3 anos atrás.

    Em que espaço literário andam as “Farpas” de Ramalho Ortigão e Eça de Queirós?…
    Sejamos justos, vemos algumas nalguns blogs, mas falham pela sistematização, pelo projecto. Vemos críticas soltas, a este ou a outro assunto. Há análise, mas desenquadrada de uma síntese.

    Não faltam temas polémicos. Não faltam injustiças.
    Não falta a mentira… hoje por excepção, deveria haver o Dia da Verdade, em que era proibido mentir.

    Há uns anos assumi uma pequena investigação contra a falsidade grosseira na história universal. Quem se preocupa com assuntos sérios, ganha a indiferença e o silêncio dos pares e dos ímpares.
    O pessoal acomodou-se à “vidinha”, essa é a grande verdade. A vidinha não é má, e o resto são “danos colaterais”, tidos como inevitáveis.
    A questão é que tanto está preso à “vidinha” o que recebe 500 como o que recebe 5 ou 50 mil… a crise, essa espera-se que passe rápido.
    Cumpre-se a religião dos ex-votos, e que o Olimpo partidário não atormente muito os cidadãos devotos.

    É nessa lógica que descerram as placas comemorativas dos mortos que já não apoquentam, e dos jovens promissores que pouco esquentam. Enfim, autênticos “enfants terribles” da trivialidade, do absurdo inconsequente, quase infantilizado, que faz os delírios da “pseudo-esquerda progressista”.
    Tal como as miss-mundo desejavam “a paz e fim da pobreza no mundo”, para risota do Coliseu Romano, qualquer intelectualóide aprendeu a nem sequer mencionar o assunto.

    Os assuntos sérios, as omissões sérias, as falhas civilizacionais graves, os conflitos brutais, esses são complicados… dão “chatices”. Se há coisa que a fama ensina é a não brincar com o “politicamente correcto”.
    Para se ser politicamente incorrecto, é preciso autorização oficial, que arregimentará um batalhão de defensores, e não deixará o desgraçado sozinho contra as inúmeras mandíbulas retóricas que despedaçariam essa carne ingénua em poucos segundos.

    Saramago tinha a coragem, tinha muito apoio, ganhou prestígio, e mesmo assim ainda foi alvo de muita mandíbula dilacerante, que o consumiu.
    Por isso, tirando casos marginais, alguns na cultura quase-marginal mesmo(*), vivemos num mundo de festarolas cor-de-rosa. Umas vezes decoradas com os velhos senadores sedentos de “presenças” no espaço intelectual, outras vezes no espaço do simples upstairs/downstairs da herança oligárquica nacional.

    (*) Valete:
    http://www.youtube.com/watch?v=7wDlxSvLrlc

  7. O texto tem toda a actualidade, mas quando os intelectuais se subordinam às regras de comunicação desta ‘Civilização do Espetáculo’ (MVLlosa), antes se calem do que dêm o espetáculo lamentável de um José Gil na SicNotícias a apelar à rebelião dos povos para efeitos não determinados!

    1. Vargas Llosa, por acaso, é um excelente exemplo vivo de um intelectual comprometido. Fez muito bem em mencioná-lo. Não conheço ainda essa mais recente obra dele, mas tenciono lê-la muito em breve.

  8. O curioso é que o Saramago era a favor do acordo. Talvez a questão não seja tanto de os intelectuais não se preocuparem com as questões importantes, mas de o acordo não ser uma questão importante, nem um baixar de calças ao Brasil. Quem tem interesse no acordo é Portugal, não os brasileiros.

    1. Saramago era contra, depois passou a ser favorável e finalmente tornou-se ‘agnóstico’ nesta matéria. A verdade é que nunca permitiu a “brasileirização” dos seus livros, que sempre se editaram no Brasil respeitando a ortografia original. E nem por isso deixaram de ser campeões de vendas. Sem necessidade de “acordo” algum.

  9. Gramsci, Bertrand Russell, Gide, Céline, Pound, Dos Passos, Malaparte, Malraux, Hemingway, Orwell, Sartre, Aron, Koestler, Camus e Simone Weil

    Poderia acrescentar, pelo menos, Chomsky.

    1. Acrescento Chomsky com todo o gosto – até porque não me esqueço do papel muito relevante que desempenhou no alerta internacional contra a ocupação ilegal de Timor pela Indonésia: nunca lhe seremos suficientemente gratos por isso, portugueses e timorenses. Mas o meu critério, verifico agora, foi mencionar apenas intelectuais que já morreram como símbolo de uma página que se virou. Chomsky, felizmente, ainda vive e julgo estar de boa saúde.

  10. “E a traição cívica?
    Primeiros.” – F. J. Viegas

    E o colaboracionista Francisco José Viegas que agora se passeia sorridente por tudo o que são órgãos de comunicação como se nada se passasse?

    Isto não é nada com ele?

    Se lhe fica no cu rrículo a secretaria de estado, as responsabilidades da sua predatória, ruinosa e interesseira governação também devem constar.

    Sugestão de post: A hipocrisia intelectual de F. J. Viegas ou como um sem-vergonha (em português do Brasil) pode esperar ter sol na eira e chuva no nabal (e todos lhe têm feito vénias e sorrisos).

    É o verdadeiro artista a passar pelos pingos da chuva. Com palmadinhas nas costas e abracinhos nervosos.
    Que cara-de-pau.

      1. Pedro, eu perguntei porque, após escudrilhar o DO, não encontrei nada que abordasse a mesma temática.

        Desde já, digo-lhe que concordo absolutamente consigo sobre a diferença entre a geração de Saramago e a nova, que parece não existir no plano cívico. A este respeito tenho andado a ler O País do Absurdo, do grande Adolfo Casais Monteiro, e ele debruçou-se sobre o escritor participante. Está cheio de óptimas passagens, por exemplo esta sobre a indiferença do escritor neutro:

        “Essa indiferença que, por exemplo, alegando não querem interferir na política, os conduz a ficar manietados quando a política, que não lhes paga na mesma moeda, resolve interferir no campo da inteligência, quer para suprimir, quer para lhes pedir a pena de empréstimo. Nessa altura o intelectual acorda, e vê que o seu “esplêndido isolamento” não era, como ele supunha, uma “virtude” da inteligência, e que é preciso defendê-la, para ser possível cultivá-la.”

        É paradoxal: Saramago e os seus viveram numa era sem liberdade, e pagaram caro a coragem para defendê-la; os novos, que a receberam de bandeja, raramente a usam para algo digno de nota. Faz-me muita confusão.

        1. Caro Miguel,

          Escrevi também sobre esse tema, a propósito do acordo ortográfico, no meu livro ‘Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico”.
          Sobre a importância dos intelectuais em geral, e dos escritores em particular, tenho escrito aqui em DELITO, das mais diversas formas, em textos como estes:
          – Os fins não justificam os meios (13 Dezembro 2009)
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1269189.html
          – Um emblema da liberdade (13 Dezembro 2010)
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/2459451.html
          – Manuela de Azevedo: cem anos (31 Agosto 2011)
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/3399769.html
          – Os conformistas (4 Outubro 2011)
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/3549199.html
          – Sophia e Sena: o dever de ver (28 Janeiro 2012)
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4003316.html
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4002988.html
          – Dickens, o homem que travou Marx (14 Fevereiro 2012)
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4078201.html
          – “Viver é desenhar sem borracha” (2 Abril 2012)
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4258320.html
          – “Piensa que el muerto amado vive” (23 Maio 2012)
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4445769.html
          – Memória de Jorge e Zélia (10 Agosto 2012)
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4695913.html
          – No centenário de Nelson Rodrigues (23 Agosto 2012)
          http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4716826.html

          1. Caro Pedro, muito obrigado. Garanto-lhe que o seu esforço não foi em vão, vou ler cada um desses artigos com muito interesse.

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