A morte de José Saramago é também a morte simbólica do intelectual que se indigna. Com o desaparecimento do autor de Levantado do Chão, encerra-se uma era caracterizada pela intensa participação de escritores e artistas na vida pública dos seus países e até na cena política internacional. A separação entre arte e vida não existiu para a maioria dos intelectuais do século XX: uma era o prolongamento natural da outra. Intelectuais como Zola (que, com o seu “J’ Accuse”, ainda no século XIX, influenciou as gerações que lhe sucederam), Gramsci, Bertrand Russell, Gide, Céline, Pound, Dos Passos, Malaparte, Malraux, Hemingway, Orwell, Sartre, Aron, Koestler, Camus e Simone Weil. À esquerda e à direita.
É certo que muitos desses intelectuais acabaram por apoiar alguns dos regimes mais despóticos da sua época, caucionando-os com a sua pretensa autoridade moral. Mas o reverso desta medalha, igualmente negativo, é a apatia dos intelectuais de hoje, que se comprazem a mirar o próprio umbigo e fogem cuidadosamente de tudo quanto cheire a controvérsia.
Pensemos à escala portuguesa: alguém se recorda de alguma atitude indignada de um intelectual, nos últimos anos, contra a corrupção galopante, a justiça descredibilizada, a economia inviável, as assimetrias sociais, o drama imparável do desemprego, as mentiras dos políticos? Calando-se agora a voz de Saramago, que nunca evitou as polémicas, sobra um silêncio conformista e resignado. Cada qual só se preocupa com a sua “obra”, com as suas “vendas”, com a sua vidinha, abdicando da intervenção cívica. A própria reforma ortográfica passou perante um generalizado encolher de ombros e quase sem um sussurro crítico dos “intelectuais”, com a excepção honrosa de Vasco Graça Moura. Muito ao contrário do que sucedeu no final da década de 80, quando pela primeira vez a Academia de Ciências de Lisboa procurou impingir aos portugueses um “acordo ortográfico” que equivalia a uma rendição incondicional à norma brasileira.
É um sinal dos tempos. Nesta era de feroz individualismo, o intelectual regressa à torre de marfim. Ou imita aqueles distraídos xadrezistas de Bizâncio, de olhos concentrados no tabuleiro enquanto a cidade ardia. Compreende-se: é mais cómodo ser assim. Depois da intervenção cívica, a demissão cívica. E, no entanto, a Terra move-se.


Acho que estás a ser muito duro, Pedro. Bem sei que este é um país de individualistas ferrenhos e que o egotismo dos artistas convida ainda mais ao tal alheamento de que falas. Há que definir primeiro “intelectual”, para começar, o que é logo muito complicado. Mas não é verdade que com Saramago desapareça a figura do intelectual com intervenção social e política. Vasco Graça Moura foi o grande mentor desse movimento contra o acordo ortográfico, mas não esteve sozinho. E estás a esquecer-te de Manuel Alegre, por exemplo. E de outros, claro.
Falta um grande manifesto? Sim, sem dúvida, nisso tens razão. Mas há muitas formas de intervenção, e a arte é por si só uma arma poderosa contra a apatia geral. Recuso acreditar que Saramago fosse o único, ou o último.
Oxalá tenhas razão, Ana. Estou muito menos optimista do que tu quanto à mobilização cívica dos intelectuais contemporâneos.
Entendo-te e subscrevo. Mas o que diz a Ana aqui por cima também dá que pensar. Até talvez acrescentasse mais um. Pode ser Pacheco Pereira? Ou é mais do-có-que se invoca?…
Pacheco é um intelectual ‘engagé’. Espécie em vias de extinção. Não há outro como ele.
O Pacheco Pereira é um intelectual ‘engagé’ que, ainda por cima, tem um “je ne sais quoi”. Acho que nem ele sabe, aliás…
Às vezes acumula. ‘Engagé’ e ‘enragé’ ao mesmo tempo.
Por mim, acho que o Saramago foi o último, sim, mas dos moikanos.
Saramago não será o último, tal como disse a Ana ali em cima, mas tens razão quando dizes que a maioria dos intelectuais portugueses são pouco interventivos.
Há dias, quando li a notícia de que o primeiro-ministro reuniu num almoço em São Bento um conjunto de jovens escritores para se redimir do lapso de ter errado o nome de um deles numa sessão pública anterior, fiquei a pensar como gostava mais dos intelectuais, jovens ou menos jovens, quando eram anti-poder.
Nisso dou-te inteira razão. As posições claras de rebeldia em relação ao poder instalado fazem falta, sobretudo na juventude (ainda por cima ligada às artes). Mas “há sempre alguém que diz não”. No dia em que deixar de acreditar nisso, acho que deixo de acreditar em tudo…