De repente, abro a página 38 da edição de hoje do diário El País e surge-me ela, a fotografia que eu imaginara ver impressa. Uma grande imagem a toda a largura da mancha gráfica do jornal, estrategicamente colocada a meio da página. Mostra-nos um Oscar Niemeyer aos 50 anos, ainda na primeira metade da vida, em plena pujança criativa, quando concebia a parcela mais extraordinária do seu legado artístico: as magníficas estruturas arquitectónicas que viriam a dar origem a Brasília, maravilhando o mundo.
Oscar domina a imagem, em pose sonhadora, sentado na deslumbrante residência que projectou em São Conrado, no Rio de Janeiro, e a que chamou Casa das Canoas. A seu lado, sentada na extremidade de um longo banco, a sua primeira mulher, Anita Baldo, de ascendência italiana e três anos mais nova. Entre ambos, sobre uma mesa, a imagem de uma Virgem clássica. Oscar e Anita parecem felizes nesta foto que os imortaliza num fragmento de instante, transportando-os para a eternidade. E é um gosto conhecê-los assim, recordá-los assim, inconcebivelmente jovens, ainda com uma infinidade de sonhos por realizar naquele vasto aposento debruado de vidraças e prolongado num frondoso jardim.
Imagino-os unidos por uma convivência feliz: casaram em 1928 e permaneceram unidos até 2004, ano da morte de Anita, já nonagenária. Imagino-os a partilharem projectos e confidências naquele espaço trespassado de cor e luz. Imagino Oscar a pensar na companheira quando proferiu, de forma bem expressiva, a célebre definição das suas linhas arquitectónicas: «Não é o ângulo recto que me atrai, nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva, livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein.»
Confesso: de todas quantas hoje vi, no amplo noticiário necrológico dedicado à morte do arquitecto, falecido a dez dias de completar 105 anos, esta foi de longe a fotografia que mais me captou a atenção. Gostaria de tê-la visto impressa num jornal português. Infelizmente, como quase sempre sucede em circunstâncias semelhantes, a nossa imprensa ilustrou o obituário de mestre Niemeyer com os últimos retratos que lhe fizeram em vida, já muito frágil e debilitado. É a solução mais cómoda, previsível e preguiçosa: deita-se a mão ao primeiro boneco disponível em arquivo ou nas agências e não se pensa mais nisso.
Olhamos os retratos desse ancião já tocado por uma insondável sombra crepuscular e somos incapazes de encontrar ali o génio visionário que fez irromper Brasília da vastidão desértica do Planalto Central brasileiro, capaz de conciliar “um extraordinário sentido monumental com uma graça fora do comum”, como hoje justamente lembrava Norman Foster, um dos seus pares mais famosos, também nas páginas do El País. Prefiro recordar Niemeyer naquela extaordinária foto, que não reproduzo aqui por respeito pelos direitos autorais, ou (como se vê lá mais acima) olhando a maqueta do Palácio do Planalto, na segunda metade da década de 50, capaz de transformar o mais arrojado sonho em pura arte. A meio de uma vida longa, que foi também uma vida frutuosa, a deste homem que imaginava o universo como uma superfície interminável, livre e sensual, em forma de curva projectada no infinito.
Texto reeditado. Publicado originalmente no DELITO DE OPINIÃO faz hoje um ano


felizmente que o bom jornalismo tambem se aprende. Isto claro para quem é avaliado com frequencia é muito importante.
Aprende-se, sim. E que ninguém diga que já aprendeu tudo: nunca se sabe de mais.