A culpa, pois, é dos jornalistas


Pedro Correia,

Uma professora universitária de Ciências da Comunicação, num debate televisivo a propósito da detenção de José Sócrates, defendeu que o direito à informação deve submeter-se ao “segredo de justiça”, como se ambos estivessem situados em idêntico patamar constitucional. E fez reiteradas críticas aos órgãos de informação que, a seu ver, “violaram o segredo de justiça”.

No dia em que um antigo chefe do Governo era pela primeira vez detido em Portugal por alegados crimes de corrupção, fraude fiscal qualificada, falsificação de documento e branqueamento de capitais, a eminentíssima senhora não achou nada melhor para sublinhar do que apontar o dedo acusador aos profissionais da comunicação social.

Interrogo-me que jornalismo será produzido futuramente pelos alunos de tão ilustre defensora da vulnerabilização do direito à informação. Muito provavelmente será um “jornalismo” de comunicados oficiais, devidamente afeiçoado aos mecanismos da auto-censura para gáudio do poder político, tenha a tonalidade que tiver. Com caução “científica”, ainda por cima.

28 comentários em “A culpa, pois, é dos jornalistas”

  1. Os jornalistas deviam ir todos presos e o senhor engenheiro devia ir para a sua casa com vista para o Sena.

  2. Será que o juiz Carlos Alexandre, por ter mandado dizer que a detenção se debe a alegados crimes de corrupção, fraude fiscal qualificada, falsificação de documentos e branqueamento de capitais estará a cometer alguma biolação do segredo de justiça, madame?

  3. Os professores universitários de Ciências da Comunicação estão lá mesmo para isso. Para ensinarem jornalistas a censurarem quando se trata de coisas más para a Esquerda. E quem não segue a linha tem as pernas cortadas.

    Já se o primeiro ex.Primeiro Ministro detido na Democracia não fosse de Esquerda, teríamos loas ao trabalho de investigação, ao registo histórico da detenção, à oportunidade da imagem .
    E os jornalistas que teriam estado na detenção do ex.Primeiro Ministro da Direita seriam heróis.

    1. É espantoso verificar como se injuria e difama o mensageiro enquanto se apregoa a necessidade de respeitar o bom nome e a presunção de inocência dos arguidos, sejam eles quem forem. Sobretudo quando essa cambalhota é dada por pessoas que noutros casos, com outras cores políticas, fizeram tábua-rasa dos mesmos princípios que agora juram honrar e defender. Sobretudo quando essa cambalhota é dada por pessoas que noutros casos, com outras cores políticas, invocaram como alicerce das suas certezas alguns dos órgãos de informação que dantes citavam e agora acusam de violar segredos de justiça.

  4. Estou de acordo consigo, Pedro. Uma coisa é criticar um certo circo e outra é o dever de divulgar aquilo que chega às mãos dos jornalistas.

    Mais, eu creio que não há nada do segredo de justiça que tenha sido violado. Violar o segredo de justiça é lançar para fora toda a investigação processada.

    Ora, o que está em causa é o direito dos cidadãos receberem nem que seja uma breve nota sobre as causas da detenção de um personagem que foi primeiro-ministro de Portugal. Creio que foi isto que se observou, o resto é circo.

    Não me apraz em nada a situação em que Sócrates se encontra, que critiquei quanto entendi que devia fazê-lo em matéria política, e até tenho pena. Também sei que ele tem vindo a ser usado como arma de arremesso político para justificar erros semelhantes em matéria governativa.
    Não sei no que vai dar este assunto, mas percepciono que o que está a acontecer é uma aviso à navegação.

    1. Caro Vento: muitos dos que criticam o “circo” fazem parte integrante dele. E não teriam existência cívica sem o tal “circo” que tanto criticam. E alguns não teriam sequer meios de subsistência sem ele.

      1. Pedro,

        a crítica ao circo faço-a eu; e reconheço em suas palavras a verdade desse circo ser alimentado pelos próprios críticos, onde presumo esteja incluída a tal de professora das ditas ciências da comunicação.
        Se é uma questão de subsistência, então, serei mais comedido nas minhas críticas ao circo, porque em tempo de crise não se limpam armas. E o tostão para a bucha lá vai fazendo falta. Recomendo, adicionalmente, um subsídio para a pasta de dentes.

  5. Vamos aguardar para ouver o que dirá a senhora sobre isto:

    Mulher de advogado de Sócrates fala do interrogatório no Twitter

  6. “Para quem já foi lobo é difícil ser sacrificado como um bode”. Há pedradas no charco que moem e até matam. E põem muita gente á volta a sacudir-se.

  7. Um dia todos os jornalistas farão o jornalismo que Noam Chomsky preconizou em “Manufacturing Consent.” Basta haver mais uns quantos professores como essa senhora e toda uma geração ensinada por eles.

    1. Já há várias gerações ensinadas por eles.
      E esta senhora está a fazer o que Naom Chomski sempre quis.
      Naom Chomski não tem problema nenhum com manufactoring consent, aliás como totalitário quer ainda mais que mera manipulação.

  8. Desculpem chegar tarde, estive fora e só segui coisas/ruído à distância.

    Gostava de saber quem é essa professora. Mas arrisco supor que é uma douta Anabela qualquer coisa, da UMinho. Aposto! Falhei?

    Uma vez fiz um comentário muito azedo contra uma boutade dessa senhora.

    Não sei, contudo, se estamos a falar da mesma pessoa.

    Nunca mais quis ouvi-la.

    De resto, sobre o tema da autocensura – que há muitos anos venho insistindo e acho que o novo século trouxe problemas destes como se tivéssemos recuado ao sec. XIX -, também já critiquei a postura idêntica do “comunicado oficial” feito por uma responsável de Informação, creio, da Antena Um, Rosário Lira, que ouvi por acaso na “Antena Aberta” da RTP na 2ª feira à tarde.

    Inacreditável, ainda, como jornalistas que levaram paulada socrática de criar bicho (“a Imprensa de sarjeta”, dita pelo SS), que foram manipulados, enxovalhados, amesquinhados, denegridos na essência da sua missão, ainda têm simpatia por esta tralha sócretina – a não ser que se revejam nela.

    Viva o Pravda e a Informação oficial igual para todos os OCS!

    Os jornalistas rotineiros, amanuenses de escrita, do horário 9 às 5, agradecem e louvam na sua nobra missão de estarem quietos, calados e nada verem. Se ouvirem, aplicam a alínea anterior.

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