A Clockwork Orange (Laranja Mecânica), de Anthony Burgess, faz parte daquele grupo muito restrito de literatura de ficção científica cuja enorme popularidade – e polémica – saiu dos círculos restritos do género e se tornou numa referência – tal como 1984, de George Orwell, ou Farenheit 451, de Ray Bradbury. Para isso não terá sido de todo indiferente a adaptação cinematográfica realizada por Stanley Kubrick, em 1971 (sublime, mas lá chegaremos). Na verdade, pensar na revolta adolescente literária obriga-nos, invariavelmente, a passar por Alex, o protagonista da distopia de Burgess.
A Clockwork Orange é a história de Alex, narrada pelo próprio no peculiar “dialecto” que fala – “Nadsat”, cunhado pelo próprio Burgess, um misto de Inglês corrente com Inglês antigo, Russo, cockney (expressões da classe operária britânica), e mais algumas criações do autor, que tornam a leitura particularmente desafiante. É a história de uma Inglaterra futurista, distópica, a braços com a violência e o crime – duas áreas nas quais Alex e o seu bando de droogs são especialistas. É a história das incursões de Alex pela violência e pelo crime, até ao momento em que tem de pagar pelos seus actos. E é a história da sua “reconversão” brutal, da sua transformação na “laranja mecânica” a que alude o título da obra, e o título de um livro dentro do livro. Essa transformação, numa feroz crítica às teses comportamentalistas de John Watson (e, antes dele, de B.F. Skinner e Pavlov, se quisermos), consiste em num condicionamento, com efeitos secundários curiosos, que torna os visados incapazes, física e emocionalmente, de cometer o mal. Mas se o bem e o mal são uma escolha moral, continuaremos a ser humanos se nos tornarmos incapazes de a tomar? É essa a questão colocada pelo capelão da prisão de Alex, e a resposta chegará pela voz do protagonista, à medida que a narração da sua história prossegue.
Como disse, é um livro difícil, por causa da linguagem original (não consigo imaginar uma tradução) mas de leitura muito recompensadora. Alex não só é uma personagem fascinante, como também é um narrador cativante; e a sua história levanta inúmeras questões, bem mais do que respostas definitivas. No fundo, é também isso que fazem aqueles livros que ficam para sempre.
Sem querer misturar duas áreas – literatura e cinema -, sinto-me obrigado a falar da adaptação cinematográfica de Kubrick. Para todos os efeitos, é uma adaptação extraordinária, porventura das melhores passagens de livro para película que já foram feitas. Malcolm McDowell representa um Alex inesquecível, tanto nos momentos de maior perversidade como nos de mais profundo desespero. É um vilão/vítima por definição: a sua personagem encerra estas duas vertentes de forma indissociável. Tanto do ponto de vista narrativo como visual, A Clockwork Orange, o filme, é imperdível; se Kubrick pecou, foi por defeito – o livro consegue ser ainda mais cru, explícito e perverso. Mas há um pormenor interessante: Kubrick baseou-se na edição americana do livro para realizar o filme, e, à época, essa edição omitia o último capítulo do original de Burgess. Isto, note-se, não retira qualquer mérito ao filme; mas o final omitido acaba por dar toda uma nova dimensão a Alex. Quem viu o filme e não leu o livro, vá por mim: vale a pena.


John, o espaço de escrita e gráfico do Sapo não tem estado a funcionar bem: tem erros que se arrastam no tempo e dificultam o que queremos publicar. Usei alguns truques e só espero que o resultado te agrade, porque não foi fácil.
Agradam e muito. Obrigado! Era exactamente isto que eu estava a tentar fazer, e que o batráquio não me estava a deixar fazer!
O Sapo está a par disto e o problema já tem algum tempo, mas nunca mais o resolvem.
espero bem que seja resolvido rapidamente. já me estou a passar com estas fotos que não conseguem ser postas como deve ser, ao contrário do que sucedia até ao início deste ano.
Fantástica análise, João, como de costume. A pergunta sobre o livre arbítrio comportamental, quando os condicionamentos externos só permitem uma escolha, é mesmo o cerne da questão. Nunca li o livro mas o filme é mesmo inesquecível, embora duríssimo.
Acredita, Ana: O Kubrick suavizou muitas cenas. Mas o tema, tanto no filme como no livro, é o mesmo. Se bem que o último capítulo, omitido por Kubrick, dê uma perspectiva um pouco diferente de tudo o resto…
É um livro memorável, de facto:
http://numadeletra.com/32460.html