Pela primeira vez na História da democracia espanhola, o país é forçado a repetir eleições. Amanhã, Espanha vai a votos pela segunda vez num espaço de seis meses. Embora os principais líderes partidários garantam que não haverá uma terceira ronda, qualquer análise prudente das sondagens não descarta essa hipótese. Mais uma vez, tudo dependerá dos pactos de governo – ou da falta deles. Com base nas sondagens, mais do que o número de votos, será a vontade dos partidos a decidir se haverá governo – e que tipo de governo será. A pouco menos de vinte e quatro horas das generales não há acordos políticos evidentes. Poucos são os partidos que mostram as cartas e assumem as suas preferências de parcerias políticas, apesar de instados por diversas vezes a abrir o jogo. O mapa das geometrias interpartidárias é difuso, mas podemos resumir a informação conhecida em 6 pontos.
1.
O Unidos Podemos é claro: apenas está disponível para celebrar um pacto de governo com o PSOE. Quer fique em segundo lugar – como anunciam as sondagens –, quer fique em terceiro ou em quarto, a formação política capitaneada por Pablo Iglesias só admite associar-se aos socialistas. Iglesias ainda não foi explícito na reivindicação da Presidência de Governo. Mas vai avisando todos os dias que, em política, existem dois princípios indissociáveis: (i) as eleições são ganhas pelo partido que tem mais votos (dissidência ontológica da geringonça portuguesa), uma vez que o PSOE, embora perdendo em votos, pode ainda vencer em mandatos; (ii) não menos importante, a Chefia do Executivo pertencerá a quem reunir mais apoios. Em suma, o Unidos Podemos confia que será a segunda força política mais votada e exige o apoio do PSOE para fazer de Pablo Iglesias o próximo Presidente de Governo de Espanha.
2.
O Partido Popular é igualmente claro: vence quem tem mais votos e mais mandatos. Os populares defendem que Espanha precisa de uma grande coligação de governo, isto é, de PP, PSOE e Ciudadanos no Executivo. Celebrar um acordo com o Unidos Podemos nem sob lei marcial. Para o PP, o Unidos Podemos constitui uma ameaça ao amplo consenso constitucional no qual Espanha se alicerça, para além de ser um perigo para a economia, a quarta maior da zona euro.
3.
No PSOE as intenções são menos evidentes. O discurso político é óbvio e compreensível: Espanha necessita de mudar e a única alternativa viável está no Partido Socialista Obreiro Espanhol. Até ao lavar dos cestos é vindima e o PSOE dará o tudo por tudo até domingo para evitar que o Unidos Podemos o ultrapasse pela esquerda.
Para os socialistas, dada a enorme polarização eleitoral, assumir preferências de coligação traduzir-se-ia em votos perdidos. No entanto, uma vez que o eleitorado está consciente da importância dos pactos de governo, esta estratégia de esconder o jogo lançou um manto de incerteza (até de suspeição) sobre as reais intenções socialistas, o que está a prejudicar o partido na captação dos votos indecisos. Os eleitores mais à esquerda temem que o PSOE viabilize um governo do PP, enquanto os votantes mais ao centro estão horrorizados com a possibilidade de um pacto PSOE-Unidos Podemos. Pedro Sánchez tenta quadrar o círculo: insiste no veto a Mariano Rajoy, que já não é exactamente um veto ao PP, ao mesmo tempo que massacra Pablo Iglesias, recordando diariamente – e bem – que foi o líder do Podemos quem impediu a criação de um governo progressista de esquerda. Sánchez tem sido violento nas críticas ao cinismo e à ambição de poder de Iglesias. Porém, não foi ainda taxativo na recusa de um acordo com a coligação de extrema-esquerda. Sánchez promete que haverá governo depois de domingo. Visto que o PSOE está obrigado a escolher entre PP e Unidos Podemos, resta saber que tipo de governo sairá do 26J.
4.
O Ciudadanos afasta o que considera serem os extremos, ou seja, não apoiará o PP nem o Unidos Podemos. Há, no entanto, um matiz. O veto de Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, à direita termina com a saída de Mariano Rajoy. O PP substitui o seu presidente e há acordo. No entanto, Rivera disse esta semana estar disponível para se sentar com Rajoy e Sánchez depois de domingo, sem nunca recuar no veto ao primeiro. A avaliar pelas sondagens, uma coisa parece certa: sozinho, o Ciudadanos não chega para viabilizar um governo do PP ou do PSOE. O partido não foi determinante nos últimos seis meses e tudo indica que assim continuará.
5.
Vistas as posições dos principais partidos, não será abusivo especular sobre a criação de uma frente PSOE-Ciudadanos que exija a demissão de Mariano Rajoy como condição para integrar um governo chefiado pelos populares. Porventura adivinhando esta estratégia, o presidente do PP deixou uma pergunta no ar: “se eu ganho eleições e tenho que sair, os restantes líderes partidários ficam todos no mesmo sítio?”. Se esta estratégia PSOE-Ciudadanos for para a frente, alguém terá que se imolar no altar da pátria. E talvez a coisa não se resolva com apenas uma demissão. Caso contrário, e assumindo que as intenções dos principais partidos são para levar a sério, terceiras eleições à vista.
6.
Para Espanha, tal como para Portugal, a adesão ao projecto europeu marca fim do processo de transição democrática. Simboliza a criação de um vínculo ao Estado de Direito, de um compromisso com o modelo democrático da Europa Ocidental. Em suma, a adesão à Europa foi uma mensagem enviada por Espanha ao mundo e, no plano interno, a todos aqueles que pugnavam pela manutenção de um Franquismo sem caudillo: o país mudou, as instituições mudaram, há uma nova ordem constitucional e “entrar na Europa” torna o processo de transição democrática irreversível. Dada a importância que a Europa tem para Espanha e, por outro lado, visto que a ordem constitucional constitui um dos elementos centrais no debate político espanhol, o Brexit pode revelar-se um cautionary tale. Isto é, pode assumir a premência de um sinal de alerta. Não que seja suficiente para alterar as intenções de voto, mas talvez baste para alterar as intenções partidárias. PP, PSOE e Ciudadanos, os partidos subscritores da ordem constitucional vigente, podem ver no Brexit um sintoma de um mal sistémico que apele à sua responsabilidade e, consequentemente, facilite acordos de governo que isolem o populismo do Unidos Podemos.


Excelente texto!!
Muito obrigado, Luís!
Caro Diogo Noivo:
Então, a contradizer-se nos seus próprios argumentos?
Parafraseou [aquele lunático Iglesias, considero eu] desta forma:
«(i) as eleições são ganhas pelo partido quem tem mais votos (dissidência ontológica da geringonça portuguesa)»
Para depois parafrasear isto:
«(ii) não menos importante, a Chefia do Executivo pertencerá a quem reunir mais apoios.»
A sua observação ao ponto i) foi perfeitamente desnecessária, fruto da sua legítima opção ideológica.
As simpatias ideológicas pregam-nos cada partida, não é?
Eu considero o Iglesias ainda pior do que a Catarina Martins e o Podemos muito mais perigoso do que o BE, mas isto sou eu a pensar em termos de avaliação política geral, até posso estar enganado.
É legítimo pensar assim, mas não é legítimo retirar ilações como fez a partir de contradições inexistentes.
O que fez foi retirar ilações da boca dos outros a partir do que eles não disseram.
Quem ganha eleições é o mais votado: Óbvio.
Quem governa é quem conseguir maioria para tal ou, em minoria, obtenha a abstenção da maioria ou de parte dela.
Óbvio também.
Não veja dissidências ontológicas onde não existem.
Caro M.S.,
Não há qualquer contradição. E não me enganei no meu comentário sobre a dissidência ideológica. Vamos por partes, começando por esta última.
Para Pablo Iglesias, as eleições são uma competição entre partidos/formações políticas. E, por isso, para Iglesias, vence o partido que fica em primeiro lugar. Pelo contrário, para o BE, para o PCP e para a ala esquerda do PS, as eleições são um confronto entre frentes. Ouvi por diversas vezes distintos membros do BE, PCP e da ala esquerda do PS (a que conta, de momento) afirmar sem assombro que o PSD não ganhou as eleições porque quem teve mais votos foi a esquerda. Isto é, não contam os partidos, mas sim o confronto entre uma frente de direita e uma frente de esquerda. Aliás, se bem se recorda, indigitar Passos Coelho era “uma perda de tempo” porque as “eleições foram ganhas pela esquerda”. Logo, o que é óbvio para mim – e aparentemente para si também, M.S. – não é óbvio na geringonça. Quando, a este respeito, comparamos a visão da geringonça com a de Pablo Iglesias há, de facto, dissidência ontológica.
Da mesma forma, não creio que haja contradição entre os pontos i) e ii). Para Pablo Iglesias, vence as eleições quem tem mais votos. Porém, se esses votos não derem uma maioria absoluta e, por outro lado, se o partido vencedor não tiver apoios em número suficiente para governar, então é o partido com mais apoios quem deve assumir a Chefia do Executivo.
Em suma, sim há dissidências ontológicas entre geringonça e Unidos Podemos, e não, não há qualquer contradição.
Caro Diogo Noivo:
O que percebi da sua tese foi dissidência ontológica entre o ponto i) e ii) do Iglesias.
Se calhar percebi mal.
Tudo indicia que o resultado eleitoral de hoje deixará Espanha ainda mais embrulhada. O que é péssimo para nós, sob diversos aspectos. Interessa-nos uma Espanha próspera e tranquila, não uma Espanha a debater-se com os seus fantasmas históricos.
O mais provável é sair das urnas um governo do PP minoritário apoiado pelos Cidadãos nas Cortes com a abstenção socialista. O PSOE tem muitas feridas internas para lamber.
Iglesias, depois de engolir os comunistas e reduzi-los a uma insignificância tão grande ao ponto de abdicarem da sua sigla para se diluírem na lista do Podemos, onde têm escassos candidatos em lugares elegíveis, ambiciona agora engolir também o PSOE e “reconstruir” a esquerda a partir da sua mixórdia programática pós-ideológica – que é constitucionalista em Madrid e soberanista na Catalunha, social-democrata quando se vira para o centro e orgulhosamente marxista quando se vira para a esquerda.
Uma espécie de Beppe Grillo com verniz retórico académico.
O grande teste dirige-se hoje ao PSOE, que luta no patamar da sobrevivência enquanto grande partido nacional. Com Rubalcaba, em 2011, teve o pior resultado eleitoral de sempre. Já com Sánchez, em Dezembro de 2015, teve um resultado ainda pior. Restam-lhe os feudos autonómicos da Andaluza e Extremadura para emitir prova de vida. Muito pouco para um partido que em 1982, com Felipe González, conquistou a mais dilatada maioria de sempre numas legislativas espanholas.
(ups, verifico que acabei de escrever um ‘post’ em comentário suscitado pela tua excelente análise)
E um excelente ‘post’, Pedro! Subscrevo tudo, tendo apenas dúvidas quanto à solução governativa: não sei se, como dizes, vai ser PP com apoio do Ciudadanos e abstenção do PSOE; se vai ser PP com PSOE e Ciudadanos, mas sem Rajoy; se vamos a terceira ronda (a opção menos provável, na minha opinião); se será uma opção “and now for something completely different”. Para quem gosta de política, a noite de hoje vai ser muito interessante.
Os democratas de primeira viagem (esta gente do sul nova na democracia parlamentar) ainda vai ter que comer muito pão, até que perceba que os votos valem todos o mesmo, e os capangas só devem fazer o que os eleitores lhes dizem : acordar entre eles e formarem governos de coligação , sem premissas fantasiosas. Nós aqui no cantinho, enveredamos por uma aprendizagem acelerada graças ao dão sebastião Costa e estamos a portarmo-nos como homenzinhos, já podendo conversar de igual com os povos bem governados do norte. Tenho uma medo terrivel do que o nº dois do socrates vai fazer com a economia do país, mas a historia quardar-lhe-á um lugar bem alto, no acabar com o lero lero de que há eleitos que têm lepra.
Percebo o seu argumento, cristof, mas creio que, de facto, há “eleitos com lepra”. A Frente Nacional francesa, a AfD alemã, a Aurora Dourada grega, o Podemos espanhol, o BE e o PCP portugueses são partidos com lepra, pelo menos para quem tem um compromisso com a democracia europeia ocidental. Estou de acordo consigo quando diz que os votos valem todos o mesmo. São iguais em valor. Mas comportam riscos completamente diferentes para as liberdades individuais e para o desenvolvimento económico e social.