Está a ser uma noite imprópria para cardíacos mas de sonho para quem gosta de política. Com cerca de 81% dos votos escrutinados, o Partido Popular vence as eleições e reforça o seu grupo parlamentar. A dinâmica do voto útil parece ter funcionado: os deputados perdidos pelo Ciudadanos vão todos para o PP. Os representantes do Ciudadanos vão culpando o sistema eleitoral.
O Unidos Podemos, por agora, não ultrapassa o PSOE. A confirmarem-se estes os resultados, Pedro Sánchez, Secretário-Geral dos socialistas, sobrevive. Iñigo Errejón, secretário de política e número dois do Podemos, acabou de fazer uma primeira apreciação do escrutínio. Disse que não são os resultados esperados. Acrescentou que estes números atrasam o processo de mudança em Espanha, isto é, inviabilizam a nova transição que o Podemos tanto ambicionava. Por outras palavras, reconhecem ter ficado aquém dos seus objectivos. A noite será longa.

Não vai haver geringonça em Espanha. Temos pena.
Ainda é cedo para tirar essa conclusão. Com estes resultados, a vontade dos partidos continua a ser determinante para a formação de governo.
O Unidos Podemos falhou o objetivo de suplantar o PSOE, e o PSOE ainda baixou mais. São ainda mais derrotados do que há seis meses.
Uma coligação PP, Ciudadanos e mais o centro direita da Catalunha, obtém a maioria absoluta…
As televisões tugas continuam agarradas às projecções, quando estas já foram descartadas há uma hora. A realidade é uma chatice quando não nos convém. E esta noite já não vai mais ninguém do berloque de esquerda falar nas eleições espanholas.
Com 90% dos votos escrutinados, algumas conclusões provisórias:
– O PP é força maioritária em 36 das 52 províncias espanholas e ultrapassa o PSOE na Andaluzia.
– Em seis meses, o PP recupera 500 mil votos. Fizeram mal as forças políticas que inviabilizaram a investidura de Rajoy. Vão fazê-lo agora, em condições mais desfavoráveis.
– O PSOE volta a registar o pior resultado da sua história (algo que já tinha ocorrido em 2011 e em Dezembro de 2015).
– Como é óbvio, não haverá terceiro acto eleitoral. Já bastam duas.
De acordo. Apenas tenho dúvidas quanto à investidura do PP. Creio que a calle Ferraz vai sentir-se tentada a geringonçar.
Diogo, há seis meses o PP tinha mais 33 deputados do que o PSOE. Agora, segundo a mais recente contagem (91,2% dos votos), conta com mais 50. Não vejo a menor hipótese de um PSOE ainda mais fraco do que em Dezembro continuar a bloquear o sistema político. E julgo que não tardará uma noite de facas longas em Ferraz. Não contra Rajoy mas contra Sánchez.
Também não vejo como. Mas Sánchez pode tentar lutar pela sua sobrevivência política. Veremos o quanto se parece a António Costa. Por outro lado, o Podemos tem agora menos margem de manobra para dinamitar uma solução à esquerda, como fez nestes 6 meses. Acho que a coisa se decidirá pela mão dos democratas que existem no PSOE e que rejeitam “derrubar muros”.
Só no jogo das expectativas Sánchez não é um derrotado em toda a linha. Mas perde cinco deputados, não consegue maioria em nenhuma das 17 comunidades autonómicas e vence apenas em três das 52 províncias espanholas (Sevilha, Huelva e Jaen, se não me engano).
Um perdedor em toda a linha.
Não me parece que tenha a menor hipótese de reivindicar a presidência do Governo quando acaba de se confinar ao menor grupo parlamentar de sempre do seu partido, quedando-se a 91 lugares da maioria absoluta. Nem que duplicasse o número de assentos no Congresso lá chegava…
A Susana Díaz já mandou um recado “from Andalucia, with love”: o PSOE andaluz travou o crescimento do perigo populista. Sánchez tem que começar a fazer contas rápido.
Fizeram mal as forças políticas que inviabilizaram a investidura de Rajoy.
Como assim?! Um partido é suposto apoiar um primeiro-ministro que não deseja, um governo que não deseja? Acho isso um conceito muito estranho de democracia!
O rei investiu Rajoy, mas nenhum partido é suposto dever viabilizar tal investidura!
Se o impasse se mantiver, não é grave. Mais 3 eleições e o PP conseguirá maioria absoluta. Quanto tempo é que a Bélgica esteve sem governo?
🙂
Bem visto. 🙂
Se o impasse se mantiver, não é grave.
É grave porque Espanha tem vivido este tempo todo com o orçamento para 2016 que fôra aprovado, mas não poderá aprovar orçamento para 2017 sem uma maioria que sustente um governo. E Espanha está com um défice muito alto (muito maior que o português), que a União Europeia não pode tolerar eternamente. Não se pode dar ao luxo de viver de duodécimos, como a Bélgica (penso eu) terá vivido.
Isto só revela que os espanhóis gostam de levar. Tanta queixa que ouvi que o governo era isto e aquilo que não aguentavam mais e votaram para continuarem a barafustar mais. Agora, quando se queixarem, só lhes posso dizer: cada povo tem o que merece.
Talvez em Espanha, como em Portugal, exista um divórcio entre a opinião publicada e a opinião pública.
A opinião de que falo, é aquela que me era transmitida directamente e não nos meios de comunicação. Uma Espanha descontente queixosa, desmotivada e não mudam. Têm o que merecem, é o que lhes direi quando se lamentarem.
Os representantes do Ciudadanos vão culpando o sistema eleitoral.
Parece-me que não devem ter razão absolutamente nenhuma porque, tanto quanto me apercebo (o Diogo que me corrija se fôr caso disso), o sistema eleitoral espanhol é, na prática, muio mais proporcional do que o português.
Caro Luís Lavoura, a queixa do Ciudadanos está relacionada com o “preço” de cada mandato. É isto: anto-custa-um-mandato-8052744
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/qu
Eu percebo perfeitamente que a queixa dos Cs se relaciona com isso. O que eu disse é que a situação em Portugal é, parece-me a mim, pior do que em Espanha. Por exemplo, nas últimas eleições legislativas portuguesas (2015), entre os quatro maiores partidos o número de votos por mandato variou entre 26 a 29 mil (para PCP e BE, respetivamente) e 20 mil (para PSD/CDS e PS). Uma diferença bastante superior à que se regista entre os quatro maiores partidos em Espanha.