A cambaleante Espanha de Zapatero


Pedro Correia,

 

A Espanha de Zapatero procurou deslumbrar o mundo com a sua engenharia social, o seu igualitarismo militante, as concessões quase ilimitadas aos nacionalistas e o seu "diálogo" com a ETA. O mundo, para desgraça do primeiro-ministro socialista, não ficou nada impressionado.

A política de apaziguamento com o terrorismo basco fracassou em toda a linha: sucessivos atentados da organização terrorista que Zapatero chegou a eleger como interlocutora fizeram abalar o desígnio do presidente do Governo espanhol de se tornar um novo Tony Blair selando um acordo com o equivalente a Gerry Adams na ETA. A realidade é dura, como Zapatero bem se apercebeu: não há qualquer Gerry Adams na ETA.

As concessões quase ilimitadas aos nacionalistas tiveram a sua expressão mais emblemática no estatuto de 2006 que reconheceu a Catalunha como nação. Estava aberto um precedente para a multiplicação de toda a casta de populismos contra Madrid que teve a sua erupção máxima há dias, quando o presidente do Barcelona, Joan Laporta, imaginando-se já investido na condição de caudilho catalão, apelou em entrevista ao El Mundo para que "um milhão de pessoas" o acompanhem na nobre gesta da "libertação" da Catalunha.

Zapatero, há quase seis anos no poder, falhou em toda a linha no essencial: a economia. De que adianta aos espanhóis terem um "governo paritário" – com tantos homens como mulheres – se esse governo se revela péssimo na gestão dos assuntos económicos? Segundo os mais recentes dados do Eurostat, o desemprego em Espanha atinge neste momento 19,4% da população activa – mais de quatro milhões de pessoas – e 42,9% entre os jovens dos 16 aos 24 anos.

Não admira, por isso, que o conspícuo Financial Times tenha sido particularmente duro na sua antevisão deste primeiro semestre de 2010 na União Europeia sob o comando de Madrid: "Uma Espanha cambaleante conduz a Europa".

Definitivamente, Zapatero não deslumbrou o mundo.

14 comentários em “A cambaleante Espanha de Zapatero”

  1. A Espanha teve foi uma bolha imobiliária ainda maior que nós, talvez porque mais exposta/apetecível ao investimento estrangeiro (inglaterra, nomeadamente).

      1. Não podemos concluir isso. Mas Espanha não estaria em melhor estado com um governo mais à direita na economia, aposto. Quanto aos nacionalismos e regionalismos, confio na sua análise.
        Mas em casa que não tem pão…

        1. Claro, Luís, casa onde não há pão… Mas prefiro escrever sobre factos e não sobre “ses”. Os factos estão aí. Envergonham Espanha neste início de semestre europeu sob presidência espanhola.

  2. Não, infelizmente Zapatero não fará juz ao velho ditado “…primero paz y después…gloria ! …”

    E assim parece-me que ainda verei a minha segunda Pátria(Antolin não é apelido esloveno…) a resvalar para a insignificância de uma “balcanização”…

    1. Na Catalunha, a “balcanização” é já uma realidade. Um estado espanhol enfraquecido, ao contrário do que alguns imaginam, é uma péssima notícia para Portugal.

    1. Não vou tão longe. Mas vai no rumo acelerado para o desastre. Ainda por cima tendo agora a responsabilidade de “presidir” à União Europeia. Que autoridade tem o Governo espanhol para dizer o que quer que seja a qualquer dos restantes países membros da UE?

  3. «Ah, excelente. Devemos então concluir que Zapatero tem governado muito bem. O problema foi da “bolha”. Tadinho dele»
    Não será bem assim, ou apenas por isso:Zapatero.
    Este, não fez mais no campo económico, do que deixar andar o que vinha de trás.
    Ou estivesse Aznar ou um outro do PP, teria evitado o desastre?
    O sistema, pois.
    No lo creyo.
    JB

    1. Você acaba de fazer uma crítica brutal a Zapatero, a que nem eu me atreveria. Ao salientar que um Governo do PP teria feito exactamente o mesmo está a considerar implicitamente que o actual presidente do Governo espanhol é uma nulidade.

      1. Tão nulidade, como a que se verificou em Portugal, sob os poderes do PSD e do PS.
        Ou algum dos ‘parceiros’ do bloco central se destacou por alguma diferença de fundo?
        Ou seria de admitir que Z ou outro, fosse capaz de prever o que sucedeu em Espanha?
        Claro que agora, depois do sucedido, tudo se tornou muito claro.
        Prever, e ao arrepio das ideias dominantes, não me parece ser muito habitual, antes pelo contrário.

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