

Rui Tavares é o candidato-a-tudo na política portuguesa. Já concorreu a eurodeputado pelo Bloco de Esquerda – e mandou a sigla às malvas após ter sido eleito. Já concorreu a vereador em Lisboa, integrado no rol de candidatos encabeçado pelo socialista Fernando Medina – e em vez de somar subtraiu, contribuindo para a vitória de Carlos Moedas.
Agora corre para a Assembleia da República com a marca Livre. Mas a julgar pelo primeiro dos 32 debates que até ao dia 20 desfilarão nos diversos canais televisivos, ambiciona ser secretário de Estado num novo governo liderado por António Costa. É a conclusão que se extrai da sucessão de salamaleques trocados entre ambos neste sonolento frente-a-frente na RTP.
Foi o equivalente a um desafio amigável no futebol. Tavares gostaria de ser lateral esquerdo – ou direito, tanto faz – de uma geringonça recauchutada, sem a incómoda ganga operária do PCP nem a fachada radical do Bloco. Costa, que parecia ter tomado um litro de chá de tília antes deste falso debate, tratou-o reverentemente por «professor Rui Tavares»: não lhe desagradaria vê-lo como secretário de Estado fosse do que fosse.
O primeiro confronto autêntico desta campanha ocorreu na SIC Notícias, também no serão de domingo. A hora bem tardia: 22.45. De um lado, Catarina Martins; do outro, André Ventura. Houve faísca, como se previa: ela nunca o tratou pelo nome, apelidando-o sem cessar de «candidato da extrema-direita»; ele, fiel ao boneco que criou como comentador da bola no canal do Benfica, chamou-lhe várias vezes «mentirosa». Como um adepto a insultar o árbitro.
Inútil especular sobre quem ganhou: não competem no mesmo campeonato. O deputado do Chega terá conseguido fixar o seu eleitorado mais ortodoxo, travando eventual debandada para o PSD. A deputada do BE deixou por explicar uma questão de fundo que irá persegui-la ao longo da campanha: por que motivo o seu partido precipitou esta crise política ao chumbar o Orçamento, fornecendo capital de queixa ao PS? A 30 de Janeiro, o Bloco será o principal prejudicado numa dinâmica de voto útil. Chamar mil vezes «racista» a Ventura não soluciona o problema.


Se os debates pecam por falta de substância, o subsequente desfile de “analistas” agrava a situação, desviando os telespectadores para outros canais. Essas “análises” andam a ser monopolizadas por gente que é parte interessada e não tem qualquer distância face ao que foi dito.
O exemplo mais gritante ocorreu há dias na CNN lusa. Acabava de ser exibida uma entrevista a António Costa. Quem surge em estúdio a comentá-la? O isentíssimo Medina, quinto candidato na lista do PS por Lisboa às legislativas, e o imparcialíssimo David Justino, vice-presidente do PSD. O bloco central personificado em antena. «Foi uma entrevista simpática», condescendeu o amável Justino, insólito opositor bissexto.
As televisões tornam a política num mundo ainda mais fechado do que já é. Uma bolha dentro da bolha. Falam uns para os outros e comentam-se entre si. Enquanto o país passa ao lado.
Texto publicado no semanário Novo

Bem pior foi o debate entre o António Costa e o camarada Jerónimo. Parecia uma actividade do Centro de Dia, um voluntariado para ir fazer conversa com os velhinhos. Nem um amigável, era solteiros contra casados, sendo os casados já entrados na 3ª idade e cheios de artroses. Os solteiros tiveram pena e jogaram devagarinho.
Rui Tavares e o seu Livre surpreendeu-me, já via ali um PEV do PS.
Quando Mário Soares se candidatou às presidenciais de 2006, um canal teve, para comentar um dos seus debates, o isentíssimo João Soares. João Soares que, talvez para fingir distância, passou o tempo de comentário a dizer “o dr. Soares isto, o dr. Soares aquilo”.
Talvez tenha sido em João Soares que Ricardo Costa se inspirou para, quando aparece a comentar a política nacional, se referir ao irmão como “o líder do PS isto, o líder do PS aquilo”.
Invejo-te essa tua do “insólito opositor bissexto”…
Fez quase tanto salamaleque a Costa como o ubíquo professor Tavares, vereador-que-quer-ser-deputado.
esse Tavares…
Ainda nas eleições autárquicas, o Medina comentava a entrevista do seu opositor Moedas, como se fosse qualquer um. Um episódio ridículo que diz tudo.
Sobre o Rui Tavares, parece ser bom rapazinho e com algumas ideias no sítio, mas os elogios todos que se leem por aí só me fazem lembrar aquilo que o David Lee Roth disse sobre os jornalistas musicais e o Elvis Costello.