"Em Porto Príncipe, os vivos dormem nas ruas; os mortos, nos escombros. Os números da catástrofe já parecem não fazer nenhum sentido. Foram 75 mil corpos lançados em fossas, mas quem os contou? Praticamente inexistente, o governo anuncia planos de transferir 400 mil desabrigados da capital para acampamentos organizados nas imediações da cidade destruída. Como? Quando? Por enquanto, dorme-se sob o céu negro e o calor asfixiante do Caribe, sentindo-se o cheiro fétido das fogueiras humanas. São os momentos mais perigosos para a sobrevivência dos haitianos, quando os mais fortes encontram a cumplicidade da noite para atacar os mais fracos. Brigam por comida, água, remédios – ou mesmo por bonés e óculos velhos, o tipo de farrapo que alguns haitianos ainda possuem. Há troca de socos até por restos de destroços. Nenhum haitiano parece aceitar que outro tenha mais do que ele, ainda que esse mais se resuma a lixo. (…) O Haiti, que sempre viveu próximo da barbárie, agora se queima por completo nela."
Excerto de uma excelente reportagem do jornalista Diego Escosteguy, enviado especial da revista Veja a Porto Príncipe. Um dos melhores textos sobre o Haiti que tenho lido.


Ou a tragédia no meio da barbárie…
A barbárie é outra tragédia, de facto.
Acho que é mesmo a tragédia da Natureza e a tragédia humana, que formam o inferno na terra.
Sem dúvida, Helena. O inferno na terra.
Só uma pegunta, Pedro: o grande censor da classe comentarista, que eliminou dezenas de comentários a um post abaixo, vai continuar a escrever neste espaço de liberdade?
Aqui temos, em vivo, o “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago.
Diz bem, Susana.
Uma boa sugestão. O blog merece uma atenção especial.
Vale a pena acompanhá-lo com atenção, meu caro. Pela forma e pelo conteúdo.
“Há troca de socos até por restos de destroços”
Para nós, confortavelmente à distância parece-nos a barbárie de facto. Para eles, no meio da desgraça, sem dela conseguirem sair e com muito poucos a ajudar pela dimensão da tragédia, é a corda que os segura à normalidade .. o que quer que isto queira dizer.
Não sei como reagiria. Sei contudo que o ser humano é capaz de tudo por um pouco mais de “vida”.
Certo, Chloé. Mas há certas formas de “vida” que pouco diferem da morte.
.. 🙂
Excelente reportagem Pedro. São estes testemunhos que nos confirmam que na natureza humana, é muito ténue a linha de fronteira entre a barbárie e a “civilização”.
Há muito que penso isso, Ariel. Devemos ter isso sempre presente.
Texto excelente, na forma e no conteúdo. Arrepiante também, de tão longínquo em relação à nossa realidade. Obrigada pelo destaque, que me teria escapado se não fosses tu.
Ainda bem que gostaste, Ana. Sempre que puder trarei aqui as melhores reportagens que vou lendo na imprensa internacional.