A barbárie está no meio de nós


Pedro Correia,

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O Mal existe. Tem nome e rosto. Tem identidade própria. Tem alegadas «motivações», propaladas aos quatro ventos através da caixa de ressonância dos órgãos de informação. Tem até defensores – uns por razões políticas, porque interessa «destruir o sistema», outros simplesmente porque sim.

Não faltam aqueles que procuram negar a existência do Mal. Desde logo por crerem na bondade intrínseca à natureza humana: essas excelentes almas acreditam convictamente que não há rapazes maus. Ou por negarem validade às estruturas axiológicas: esses são os que argumentam pela irrelevância das fronteiras entre o Bem e o Mal, sobretudo porque as imaginam sempre contaminadas de conteúdo religioso. Sem repararem que tantas vezes, ao difundirem tal crença, assumem com frequência um fervor simétrico ao dos mais ortodoxos fiéis de uma determinada igreja.

E no entanto o Mal existe. Podemos vislumbrá-lo em múltiplas erupções quotidianas. No indivíduo que pela calada da noite, há poucos anos, punha uma bomba no carro de um autarca basco e encolhia indiferentemente os ombros quando a explosão desse veículo matava crianças que ignoravam o significado da palavra nacionalismo, considerando-as «danos colaterais» – o homicídio mais aleatório elevado à categoria de instrumento de acção política. O monstro de sorriso gélido que planeou friamente a execução sumária de algumas dezenas de adolescentes num acampamento de férias na Noruega e acabou classificado de inimputável por um colégio de psiquiatras. O fanático anti-semita que transforma o ódio étnico, cultural ou religioso em senha de identidade à margem de todos os considerandos de ordem moral, convertendo o massacre de seres humanos numa espécie de mandamento ditado pelo sectarismo mais irracional.

Foi preciso correr o sangue de inocentes para também a França republicana e laica reparar que albergava a semente do Mal no seu seio iluminista com atentados como o de 2016 em Nice ou o massacre na redacção do Charlie Hebdo.

 

Não adianta proclamar, como fazem saudosos discípulos de Sartre, que o inferno são os outros. Não tenhamos ilusões: a barbárie está no meio de nós. E ganha terreno quando tentamos justificá-la com indiferença cúmplice invocando argumentos de sociologia política para validar as cartilhas ideológicas que autorizam a dissolução da dignidade humana em benefício de impulsos liberticidas. Como se os fins justificassem todos os meios. Como se houvesse equivalência moral entre carrascos e vítimas. Não há, em absoluto: a tragédia na Ucrânia bem o demonstra.

«Observar um crime em silêncio é cometê-lo», ensinou-nos José Martí. Nada mais certo. Não podemos resignar-nos ao poder da barbárie. Nem tolerá-la. Nem «compreendê-la». Nem deixar que ela se banalize a tal ponto que comece até a ser encarada com indiferença. Enquanto os cadáveres se amontoam e mastigamos qualquer coisa à hora do telejornal.

 

Imagem: O Massacre dos Inocentes (1609-11), de Rubens

52 comentários em “A barbárie está no meio de nós”

  1. se a condição humana não fosse a bosta que sempre foi
    o Papa não tinha perdido o seu tempo a escrever os !0 Mandamentos

    1. 1 – Os comportamentos agonísticos transformados em violência vão subtrair-se aos mecanismos reguladores, e constituir uma nova dimensão da violência não conhecida na Natureza. Para a qual não há antídoto específico (um gene, ou uma instrução bioquímica natural).
      2 – Doravante, nas sociedades humanas, a única inibição da violência consiste em o agressor ver-se no agredido, que, de alvo rival ou a eliminar passa a semelhante.
      3 – A identificação cognitivo-emocional com os congéneres é, nos Humanos, o único antídoto real para inibir a violência.
      4 – Apesar de não evitar, mesmo entre próximos e familiares, os efeitos do ódio, inveja, interesse económico, reação emocional descontrolada, facciosismo radical, efeito de drogas, meros actos lúdicos e arbitrários, ou prazer na tortura e subjugação.

        1. A Rússia está há 60 dias apenas, a defender-se da agressão, tortura e genocídio que um comediante contratado por EUA/Nato lhe andou a fazer durante 8 anos (2920 dias).
          Os EUA/Nato são mais de 1000.000.000 de pessoas, a Rússia são apenas 140.000.000 (7 vezes menos).

          1. Qual a porção de violência que devemos inibir, para conseguirmos viabilizar uma comunidade/sociedade?
            E, simultaneamente, qual a porção de violência que devemos produzir, para não desaparecermos pela ameaça das sociedades vizinhas ou aquelas que nos querem conquistar?

          2. Mas nos Relatórios da ONU está escrito que o «regime de Zelensky & batalhão azov» (o tal contratado pela Nato/EUA para atacar a Rússia) queimou vivas 42 pessoas russas indefesas em Mariupol em 2014.
            Até houve um partido na Assembleia da República em Portugal que nessa altura alertou para esse facto.
            Ninguém ouviu os que agora se ralam, ralarem-se.
            Se defendem o direito à defesa através de armas, como podem criticar a Rússia?

  2. O Mal existe. Tem nome e rosto.

    Claro que sim. Tem corninhos e chama-se Belzebu. E Hannah Arendt confirmou que sim, ele existe mesmo. Não há dúvidas.

    1. 1 – Em relação com os problemas da conflitualidade e violência, valerá a pena recordar as fases clássicas do desenvolvimento do raciocínio ético em crianças e adolescentes (L. Kohlberg):
      i. Obedece a regras e à autoridade para evitar castigo;
      ii. Conforma-se ao comportamento do grupo para obter reciprocidade;
      iii. Demonstra generosidade para obter favores e evitar rejeição;
      iv. Aceita a necessidade de regras e disciplina para manter o bem comum;
      v. Torna-se consciente da existência de princípios éticos e morais.
      3 – Será que estas fases de desenvolvimento das crianças e adolescentes estão presentes na condução actual do processo educativo?

  3. Que existe maldade não é uma descoberta supreendente, sempre houve e sempre haverá.
    É preciso muito cuidado com os que se julgam puros e só vêm o mal nos outros. Como se houvesse gente incapaz de bondade ou de incapaz de maldade. Não há tirano nem tiranete que não pense assim, apesar da tirania fazer parte do mal.
    Julgar-se sem pecado é pecado.

    1. O pior é mesmo quando alguns defendem o que está mal sem ser porque acham que as coisas são relativas (muitas não são, o que já é suficientemente mau) — mas apenas para não perder a face. A “coerência” não é uma qualidade, é uma característica daquilo que é inflexível e que, precisamente, nunca admite que está mal. O Mal é aquilo que persiste no seu erro e recorre a truques para subsistir.

  4. a dissolução da dignidade humana em benefício de impulsos liberticidas

    Hoje acabou em Portugal um impulso liberticida que afetou a nossa dignidade humana: passámos a poder mostrar a cara uns aos outros quando no interior de estabelecimentos. Durante muitos meses, devido aos impulsos liberticidas de António Costa, não pudemos.

  5. “Não podemos resignar-nos ao poder da barbárie. Nem tolerá-la. Nem «compreendê-la». Nem deixar que ela se banalize a tal ponto que comece até a ser encarada com indiferença” – sim, subscrevo. E não deixo de me espantar com a dificuldade que tantos têm em assimilar isto. A cegueira ideológica tem o poder de condicionar o raciocínio até dos mais inteligentes e bem intencionados.

    1. Alguns fascistas e comunistas, mesmo travestidos de “liberais” e até de “libertários”, são os primeiros a celebrar a barbárie, Teresa.
      Prestam-lhes culto.
      E nem é preciso sair desta caixa de comentários para perceber isso.

  6. Pedro Correia, a volta que você vai dar por causa da guerra que está a acontecer na Ucrânia.
    Vai rebuscar populista e demagogicamente comparações para assustar as criancinhas, e até
    se esqueceu dos massacres dos campos palestinianos de Sabra e Chatila.
    A não ser que queira começar a desviar atenções para o lado de convencer estar acontecer um problema anti semita. Em certos casos até parece, e o “carinho/propaganda” é testemunha disso.

    1. O x está mal informado ou mente…
      Sabra e Chatila foi feita pelas forças falangistas cristãs de Elie Hobeika depois do massacre de Damour feito por Palestinianos onde mataram a sua noiva. Notar que o massacre de Damour não aparece nos telejornais…

      E os jornalistas ficaram calados quando Elie Hobeika foi nomeado posteriormente Ministro dos Refugiados Libanês, a maneira de Hafez Al Assad ditador Sírio a ocupar o Líbano dizer aos Palestinianos para estarem quietos.
      Estranhamente não aconteceu nenhum escândalo no jornal Avante, nem no Expresso, no DN. Ou nos jornais internacionais… Nem nos telejornais. As redacções supostamente pró palestinianas não tiveram nenhum problema com Elie Hobeika autor de Sabra e Chatila Ministro dos Refugiados … Palestinianos . Será que os Palestinianos são só algo que se utiliza para atacar Israel e deitar fora?

      1. Comenta lucklucky
        ‘…. x está mal informado ou mente..’
        Não estou mal informado nem menti. Afinal houve ou não houve um massacre de refugiados palestinianos em Sabra e Chatila, disso não há dúvidas.
        E foi tão grave em termos internacionais, que Supremo Tribunal de Israel considerou o Ministro da Defesa do país, Ariel Sharon, pessoalmente responsável pelo massacre, por ter falhado na proteção aos refugiados.
        Foi um massacre, ponto

        1. Mente portanto.

          A não ser que defenda que no caso do ataque Russo à Ucrânia devemos falar do massacre de Damour que os Palestinianos fizeram aos Cristãos.

    1. Concordo. É vergonhoso.
      A cultura e o desporto deveriam ser separados da política.
      E não se deve jamais confundir pessoas de nacionalidade russa com a Rússia. A Rússia é um Estado. Os russos são seres humanos.

      1. O “liberal” Luís Lavoura, afundado no sofá, defende a Rússia. Fazendo coro com fascistas e comunistas.
        Como se fosse a Rússia a ser atacada e não a Ucrânia.

        A Rússia destrói tudo na Ucrânia. Teatros, hospitais, escolas, igrejas. Enquanto isto acontece, o “liberal” Lavoura, oculto em pseudónimo, defende russos, não os ucranianos.

        A Rússia vem destruindo a Ucrânia há 58 dias.
        Com o aplauso cúmplice e miserável de gente como esta, indiferente à maior barbárie já vista no século XXI.

    2. Tendo a concordar com o Anónimo e com o Balio. Não se devia falar de russos mas de Rússia. Conheço russos em Portugal cujos filhos andam melindrados pelos vitupérios contra os russos, incluindo da parte dos professores.
      Os escritores, os compositores, etc, russos têm sido vítimas de injustiça. No desporto, no entanto a questão é mais complexa, porque as competições tendem a ser entre nações. Nesse caso parece-me que as sanções fazem algum sentido.

      1. Essa é a questão que já se punha na Alemanha de Hitler, Susana. E que arrastou a culpa dos alemães nas décadas seguintes – culpa que ainda não foi dissipada.
        Hitler não agiu sozinho, tinha uma forte base social de apoio. Houve milhões de alemães que votaram nele, houve milhões de alemães que o sustentaram e secundaram até ao fim.
        Não adianta dizer que Putin é um homem só: ele, como Hitler, tem uma parcela muito significativa da população com ele. Votaram nele, aplaudem-no, querem ser governados por um ditador.
        Faz pouco sentido essa dicotomia: separar Putin dos russos. Como não faria sentido, nas décadas de 30 e de 40, pôr Hitler e os alemães em compartimentos estanques.

  7. Sim, Meca está a dominar o Ocidente!!! Agora a NATO até defende a dependência economica-energética as ditaduras whaabis. Mil vezes ficar dependente da energia russa ou do poder económico da China, do que de Meca!!

  8. O mal está quando achamos que defesa e ataque são situações equivalentes e metemos tudo no mesmo saco, ainda por cima “justificando” com razões bafientas, sejam elas políticas, religiosas ou sociológicas. O mal está na falta de respeito pelo outro, e em levar essa falta de respeito ao extremo de achar que tudo é justificável, agredir só porque o outro fez ou disse qualquer coisa que nos desagradou, torturar e matar só porque o outro não é da nossa cor, da nossa religião, do nosso sexo, da nossa ideologia política, do nosso clube. O mal está na ambição desmedida, na sede de poder, em querermos ser mais do que os outros, ter mais do que os outros – e em não termos quaisquer escrúpulos para atingir os nossos fins, mesmo que para isso seja preciso pisar, bater, matar, como se fôssemos crianças inconscientes do resultado dos nossos actos mais egoístas. O mal e o bem existem dentro de cada um de nós, e a responsabilidade da escolha é nossa. O mal e o bem existem à nossa volta, e dizer-lhe sim ou não, tolerá-lo ou recusá-lo, compactuar com ele ou lutar contra ele, essa responsabilidade também é nossa. Há uma linha que divide o bem do mal, e se a ultrapassamos e passamos para o “lado negro”, então perdemos definitivamente aquilo que nos torna humanos.

  9. 1 – Qual a porção de violência que devemos inibir, para conseguirmos viabilizar uma comunidade/sociedade?
    2 – E, simultaneamente, qual a porção de violência que devemos produzir, para não desaparecermos pela ameaça das sociedades vizinhas ou aquelas que nos querem conquistar?

  10. Esquerdalhada nojenta — é só teorias de merda.

    Quando é que desabitam e nos deixam em paz? Por que razão é que não vão viver todos para a China ou para o raio que vos parta? É porque sabem que o que defendem não vale um caracol e que se não andarem por aqui a sacar as regalias que não merecem, a sacar reformas sem as merecer, sem nunca ter contribuído para nada com mérito, morrem todos com uma enxada na mão a cultivar ópio na coreia do norte.

    Vão à bardamerda, pá. Desapareçam. Ou pelo menos calem-se. Não valem nada. Vocês não valem nada.

      1. Talvez, mas ao contrário de ti, não tenho ADSE, teria de pagar do meu bolso.

        Já tu, até as lâmpadas lá do instituto da lambidela à vítima deves levar para casa.

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