
O repórter vindo da cidade, inchado de sabedoria cosmopolita, acompanha o Presidente da Repúblico nos seus mergulhos em praias fluviais do centro do País e decide descrever a paisagem circundante debitando a cartilha jornalística em voga, como um disco de vinil já muito riscado: «Lá ao fundo estão árvores queimadas pelo incêndio e estão já também os eucaliptos a brotar. Uma verdadeira praga que se vê por toda esta região – os eucaliptos a brotar junto de pinheiros e outros eucaliptos que arderam no incêndio de Outubro de 2017.»
Eis um conceito singular: olhar para «eucaliptos a brotar» no interior pobre e desertificado e classificá-los in limine como «praga». Horas antes do regresso ao conforto citadino.
Outro repórter, por sinal da mesma estação, em vez de dar sermões aos telespectadores do alto da sua douta ignorância, prefere fazer jornalismo a sério – isto é, dar voz a quem sabe, falando em Monchique logo após o maior incêndio registado este ano em toda a Europa, no qual se perderam maciços florestais de todas as espécies.
Escuta, por exemplo, o presidente da Associação de Produtores Florestais do Barlavento Algarvio, José Vidigal, que lhe diz isto: «Há 15 anos houve o abandono do mundo rural aqui em Monchique. Muita gente, revoltada, sem meios de subsistência, abandonou a agricultura – ou mesmo a região. Agora vai acontecer a mesma coisa: vão abandonar a floresta, vão para o litoral. Durante muitos anos, os incêndios só existiam na zona centro. Porquê? Porque a zona centro tinha a maior mancha de pinhal bravo do mundo. Agora dizerem que é por causa do eucalipto, que é por causa do pinheiro… não é. É por falta de ordenamento. Em 1936 houve um grande incêndio em Monchique, maior do que este de agora. Em 1954 repetiu-se, em 1970 repetiu-se, em 1985 repetiu-se, em 1995 repetiu-se… E até 1985 não havia eucaliptos. Por conseguinte, não são os eucaliptos: é a falta de gestão.»
Transcrevo estas palavras, em atenção aos eucaliptófobos que se reproduzem como mato selvagem nas pantalhas e nas colunas da imprensa. Sabendo no entanto, de antemão, que não serão escutadas. Porque o discurso dicotómico – onde a “culpa” assume sempre função relevante – é, em grau crescente, o combustível contemporâneo dos meios de informação. Tão simplista, entrincheirado e previsível como o das “redes sociais”, a cuja lógica obedece. E que explica, em larga medida, a crise em que o jornalismo mergulhou.

Quano se vê tantos ecologistas a destilar ódio pela dita espécie estrangeira e invasora, é caso para perguntar: não estaremos aqui perante posturas claramente xenofóbicas?
Urge denunciar esta gente à Comissão para a Igualdade de Género Vegetal.
Xenofobia vegetal, em defesa das “espécies autóctones”. A seguir vão atirar-se às espécies animais de importação. Depois querem expulsar os ciganos e os paquistaneses.
É sempre assim que se começa.
É tempo de recuperar a pureza campestre nativa! Abaixo a batata! Morte ao milho! Nem mais um tomate na boca dos portugueses!
Os eucaliptos são os ciganos das florestas.
A solução para as dores de barriga dos eucaliptófobos: importação de koalas.
Bem fofinhos, com a bênção do PAN.
Sem eucaliptos não há coalas, coitadinhos.
A mim parece-me que este post contradiz o do mesmo autor há poucos dias: então já houve tantos incêndios em Monchique, e o de 1936 até foi maior que o de 2018, e deve o PSD culpar o atual governo pelo incêndio de 2018?
É que, se os grandes incêndios em Monchique são uma recorrência, então eu diria que o incêndio deste ano (que aliás era esperado e tinha sido previsto por diversos especialistas na matéria) é uma fatalidade e não é culpa especificamente de ninguém.
Então em 1936, 1954 e 1970 já havia falta de ordenamento em Monchique? E porque é que as pessoas não abandonaram todas a agricultura e não foram todas para o litoral após os incêndios desses anos? Hmmm…
É a maneira de ficarem felizes com o Trump, por fazer amouchar a Portucel/Navigator…
“Amouchar” é um bonito verbo.
Excelente, Pedro! Autêntico serviço público
Pedro, só uma adenda:
Nunca, como agora, houve tantos meios de combate. Quem nos diz que em 36,54, 70 e 85 os incêndios foram gigantescos por falta de meios?
Eu não sei se os meios de cobate são os suficientes. No incêndio de Monchique estiveram para aí 1000 homens e 10 aviões. Mais ou menos pela mesma altura, num grande incêndio em Valência (Espanha) estavam 600 homens e 60 aviões. (Devo estar errado nos números exatos, mas são desta ordem.) Ou seja, em Espanha os fogos são combatidos com 1 avião por cada 10 homens, em Portugal com um avião por cada 100 homens.
Temos os meios. Mas estes não actuam sozinhos…
As bandarilhas são feitas de madeira de eucalipto.
As coronhas das armas do exército israelita são de eucalipto.
Os escravos africanos eram obrigados a dormir em cima de tábuas de eucalipto.
Os agressores dos jogadores do Sporting usaram tacos feitos de eucalipto.
O Passos Coelho costumava chupar rebuçados de eucalipto.
Apoiado, camarada. Há que combater os eucaliptos. Por serem “árvores de direita”.
Praga de eucaliptos, o governo populista de Itália, 1, 2, 3, 4 meios aéreos, os populares, o vice-campeão, Passos Coelho diz, Catarina exige e o PCP avisa — toda a linguagem do péssimo jornalismo que se faz por cá está contaminada de erros e preconceitos ideológicos. Trump teria muita razão por cá, na América provavelmente também.
Verifica-se que, ao longo do tempo e do espaço jornalístico,
https://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-1 2-19-Passos-Coelho-exige-cabal-esclareci mento-sobre-adocoes-na-IURD
http://www.dnoticias.pt/pais/passos-coe lho-avisa-que-falar-da-renegociacao-da-d ivida-e-deitar-gasolina-na-fogueira-GM82 4293
https://www.google.pt/amp/s/www.jn.pt/n acional/interior/amp/passos-coelho-exige-r esponsabilidade-civil-e-criminal-a-quem-c onduz-a-maus-resultados-1704416.html
https://expresso.sapo.pt/multimedia/vid eo/2016-09-02-Passos-Coelho-avisa-Orcame nto-cabe-ao-Governo-e-a-maioria
https://www.google.pt/amp/s/24.sapo.p t/amp/atualidade/artigos/passos-coelho-e xige-estrategia-verdadeiramente-nacional-q ue-nao-oculte-os-problemas
Estou surda! Como diz que disse???
Surda talvez, mas ceguinha não 🙂
Pois é, recorri à liberdade poética para frisar um ponto de vista. (Aliás, tem sido assim normalmente, vocemessê apanhou as excepções todas… ;))
Não invalida o argumento, je crois. Ponho isto aqui em françiú para dar um ar mais coiso à coisa.
Apanhei todas agora…! Atiraram-se-me aos pés, e olhe que havia muitas lá onde tropecei nessas… 😉
Ne le croyez pas, monsieur: sendo o argumento esse, invalida-se em si mesmo e in situ. Incito-o a arranjar outro 🙂
Se um comentário supra é mesmo de uma certa Sra deputada, não vale a pena dizer mais nada.
António Cabral
Não, não é.
E talvez não seja má ideia.
Estimado Pedro Correia,
Não escreva estas coisas – deixa uma série de “activistas” da capital e de parte das academias de ‘sociologia’ sem paleio, eventualmente sem “causa” …
E não estou seguro que “eucaliptófobos” seja rigoroso – é que muitos destes “talking heads” só ‘capturam’ e ‘aprofundam’ (eventualmente afundando..) o conceito com seleccionado ‘adjectivo’, e.g. eucaliptos “da Cristas”, “das Celuloses”, se calhar “do Passos”…)
Jorg
Já ouvi até dizer que era preciso “combater a praga dos eucaliptos porque provocam celulite”.
A gente ouve cada coisa…
Julgo que os eucaliptos são perigosos para os solos que os recebem (ou podem ser). Mas, em fogos de grande dimensão arde tudo. E os eucaliptos são árvore-rastilho -, é verdade. Portanto, não os inocentemos sem mais. Que não são com eles os nossos ajustes. Com tanta gente formada na área não haverá possibilidade de uma reflorestação racional e ordenada?! E também vigiada.
Concordo, o pior mal é a falta de gestão. Quem gere, também observa, conserva, melhora. Não “deixa andar”.
Não são piores do que as mimosas, que ocupam, sem que ninguém se indigne, o bosque onde houve antes árvores muito melhores. Sobretudo o bosque ardido. E isso sim é desordenamento. Desornamento e estupidez. Uma coisa vem depois da outra. E a governar, temos umas bestas sem paralelo. Uma coisa também vem depois da outra.
Concordo consigo inteiramente, V. Só não escreveria bestas, optaria por burros.
O facto de os eucaliptos não serem piores que as mimosas não os faz bons. E a mim me parece que há demasiada gente néscia a governar e ditar leis. Agora são estes, mas já houve outros. E como não tenho aparelho de medida de oportunistas, lamento este país que empobrece de recursos naturais e humanos.
Entretanto, a apregoada “maior reforma da floresta portuguesa desde o reinado de D. Dinis”, que o ministro Capoulas anunciou há um ano, eclipsou-se. Como a Lua há duas semanas.
P.C.. Iliteracias eucaliptosas de lado. O post é uma delícia.
O Eucalipto é uma praga.
De elevada adaptabilidade, compete com as espécies circundantes e, por ter ciclo de crescimento mais curto que a generalidade das autóctones, coloca em causa a continuidade de outras espécies.
O Eucalipto é um rastilho
Pela densidade populacional, pelos compostos orgânicos voláteis, pela dispersão no território, pela sua instalação indiscriminada e sem respeito por regras de ordenamento (sendo de rápido crescimento, seria das espécies onde mais facilmente se garantiria ordenamento nas novas populações)
O Eucalipto é garante de sobrevivência do pequeno produtor
Pela grande adaptabilidade, pelo ciclo de crescimento rápido, pela procura
O Eucalipto é responsável pelos incêndios
O Eucalipto é figura de eleição e actor mais visível da falta de políticas florestais.
Porque a responsabilidade é de quem não definiu políticas florestais, de quem não vê na floresta o potencial de investimento e desenvolvimento, de quem se lembra da floresta quando arde mas que se for solicitado a pagar 5€ para entrar num parque natural refila. Refila por isso ou por a zona de piqueniques ter um chafariz sem água, ou os WC não terem papel… até talvez refile por os eucaliptos não darem grande sombra. Mas não refila nem questiona quem de direito: os ministros da Agricultura desde Álvaro Barreto.
E estamos todos a olhar para a árvore sem ver a floresta.
Desde quando os fogos são um problema político e a quem interessa serem um problema político?
Não certamente a quem lhe ardeu tudo. Para esses é um problema concreto que tem a ver com o que vão almoçar amanhã, onde vão dormir.
É um problema de incompetência. É um problema que tem a ver com o facto dos políticos viverem num mundo tão faz-de-conta. É um problema concreto termos políticos ignorantes, corruptos, que farão no Parlamento belas tiradas retóricas que são um insulto a vidas reais que desconhecem.
Não há realmente diferença entre os de esquerda, os mais de esquerda, e os de esquerda radical – em Portugal é o que temos, esquerda, mais à esquerda, e ainda mais à esquerda. O problema é serem todos tão broncos.
O problema é viverem num universo de acessores, motoristas, dossiês, ar-condicionado e esquemas. E o que ardeu ou quem ardeu só lhes interessa como arma de arremesso ou factor de chantagem.
No fundo, estão também preocupados com o almoço de amanhã e onde vão dormir, só que dum modo snob e nojento. Deviam arder todos.
eu gosto é do Gonçalo Robeiro Telles (e não me obscurece a pensadura por se tratar de um monárquico), que leio há décadas. Também adoro o Jorge Paiva 🙂
Também sou grande admirador do arquitecto Ribeiro Telles. Faz parte do PHP (Património Humano Português). Com 96 anos, bem conservados…
“Bem conservados”, os noventas, P.C.?
🙂
Sempre pensei que a palavra alimenta o corpo. Observemos as diatribes, as convulsões elegantes, o discurso, as ideias d’este homem, há décadas: bem sei, atiram-me pedras, mas ele merece diamantes, e só não coloquei ainda na hospedaria um dos textos dele, na íntegra, por ter a certeza que seria esquecido no dia seguinte, mesmo por aqueles que se passeiam pelos verdes augados da Calouste Gulbenkian (onde passei horas de estudo durante o meu 12º ano, tentando compreender 🙂
____________
p.s. – não esquecer o J.Paiva :), mas eu sou muito ignorante, mais gente existirá, de igual mérito.
Pedro,
Na Suécia que eu saiba não há eucaliptos.
Nem floresta mediterrânea.
E também ardeu a floresta.
O eucalipto tem o problemas secar as terras e ir buscar água a grande profundidade.
Mas curiosamente disso ninguém fala.
Ambientalistas da treta!
É óbvio que o eucalipto dá mais lucro ao dono que o pinheiro. Mas os incêndios florestais existem por outras causas.
O lixo urbano com muito vidro deitado na floresta pode ser uma razão. Mas há muitas mais: o desordenamento, a falta de aceiros, a falta de guardas florestais e demais problemas.
Grande abraço.
Bom dia,
Acho muito engraçado gente da cidade a criticar outra gente da cidade que critica o que a gente do cidade quer que a gente do campo faça (sem morrer de preferência, que as mortes ficam feias na televisão e mais razões haverá para a gente da cidade criticar).
Posto isso só deveria botar faladura quem já tivesse pegado numa mangueira de água para tentar apagar um fogo florestal e quem perde os seus dias de descanso a limpar mato e tentar semear floresta.
Falar…fala-se muito, mas gostava de saber o que cada um anda a fazer, sem desculpas de que não há nada que possa ser feito e que a culpa é toda dos políticos. Ana