A Animação é para crianças (ou não) – 6


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Wolfwalkers
Realização: Tomm Moore e Ross Stewart
Argumento: Will Collins, com base numa história de Moore e Stewart
Produção: Cartoon Saloon, Mélusine
Ano: 2020
Duração: 103 minutos
Países: Irlanda, Luxemburgo e França

Wolfwalkers foi o melhor filme de 2020 que pouca gente viu. 

Não estou sequer certo de que tenha estado em exibição nas salas portuguesas por alturas do Natal de 2020; se esteve, terá certamente sido por poucos dias, com a azáfama da quadra e o contexto pandémico a abafarem a estreia. Foi distribuído em streaming pela Apple TV, onde tanto quanto sei ainda é possível vê-lo, mas a segunda grande desvantagem do streaming (a primeira é a falta do grande ecrã, claro) também lhe terá retirado alcance: afinal, quem pode hoje em dia subscrever a quantidade cada vez maior de plataformas digitais, com os seus conteúdos exclusivos?

Os problemas de distribuição em nada diminuem a qualidade dos filmes, claro – e seja no grande écrã de uma sala de cinema ou no pequeno ecrã da televisão das nossas salas, Wolfwalkers é uma pequena maravilha. Será talvez o filme mais juvenil que trarei a esta série, mas também será decerto um dos mais prodigiosos em termos artísticos. Não é por acaso que há já quem se refira ao Cartoon Saloon como os Estúdios Ghibli da Europa: a cada novo filme os estúdios irlandeses e os seus parceiros europeus exploram novos territórios narrativos e novos estilos artísticos, até à data com enorme sucesso. Este enquadra-se na “trilogia irlandesa” de Moore, explorando, tal como A Canção do Mar e Brendan e o Mundo Secreto de Kells, aspectos da história e do folclore da Irlanda.

Wolfwalkers recua à Kilkenny setecentista (pormenor: Kilkenny é também a cidade onde o Cartoon Saloon está sedeado) para contar a história de duas crianças: a rebelde Robyn, filha do caçador inglês Bill Goodfellowe, convocado àquela região pelo Lorde Protector para exterminar os lobos que dominam a floresta local e aterrorizam os cidadãos; e Mehb, cujo espírito se transforma num lobo enquanto dorme, e assim defende a floresta com a sua alcateia das incursões dos lenhadores de Kilkenny. A animação, nunca é demais dizer, é absolutamente magnífica no traço vivo e irregular – um desenho animado em estado puro, se quisermos – e na utilização da cor, com Moore e Steward a adaptarem o estilo a cada momento: a cidade de Kilkenny é sempre rígida e geométrica, em tons mais esbatidos, como uma gravura antiga viva; já a floresta é toda ela curvilínea e irregular, numa explosão constante de cores vivas, na vertigem desenfreada da alcateia por entre as árvores. 

E é com esta animação espantosa que acompanhamos as aventura das duas raparigas, da qual se podem fazer várias leituras: sobre os papéis femininos naqueles tempos, sobre a colonização pela figura do Lorde Protector, símbolo da opressão inglesa; e sobre o conflito eterno entre a civilização e a natureza. Podemos pensar nas semelhanças com A Princesa Mononoke – a floresta dominada por criaturas mágicas com lobos como protectores, uma rapariga selvagem forte e resoluta, a civilização como elemento destruidor do mundo natural. Nesse aspecto o filme de Moore e Stewart será menos ambíguo – menos complexo? – do que a obra-prima de Miyazaki, mas nem por isso deixa de ser menos tocante, incidindo mais sobre a força colonizadora de uma entidade externa (no caso, a Inglaterra personificada no Lorde Protector) e sobre a forma como cada personagem luta para aceitar a sua natureza e para fazer o que está certo. 

Se os Óscares primassem pela justiça, Wolfwalkers teria saído da cerimónia de 2021 com a estatueta de Melhor Filme de Animação. Salvo raríssimas excepções, porém, este prémio está destinado à Disney ou à Pixar – que, não desfazendo, há anos que não surpreendem com os seus filmes de animação. Ficou pela nomeação da Academia, pelos vários Prémios Annie conquistados, pela aclamação da crítica e pelo carinho do público que o viu. A maioria dos filmes desta série serão exclusivamente para adultos, mas para Wolfwalkers deixo a recomendação sem reservas a miúdos e graúdos.

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8 comentários em “A Animação é para crianças (ou não) – 6”

  1. Pouco entendo de filmes de animação. Mas há, seguramente uma categoria em que estamos de acordo: a Disney (a Pixar desconheço) perde qualidade em cada filme. Detesto os temas e o modo como os tratam; as figuras são uns bonecos horríveis e às histórias falta o maravilhoso que nos prendia. Ainda assim os garotos parecem gostar. Pergunto-me se as crianças mudaram assim tanto.

    1. A Disney está muito acomodada, e irrita-me ter o Óscar sempre garantido quando na Europa, no Japão e noutros países (mesmo nos próprios EUA) se fazem todos os anos filmes melhores e mais arrojados. Alguns dos filmes de que já aqui falei, e outros que ainda trarei, nem sequer chegaram às nomeações, quando filmes menores da “casa do rato” ficaram lá plantados.
      A Pixar também não tem sido especialmente inovadora na animação, pelo menos nas longas metragens. Os filmes são bons, mas falta rasgo. Em cinco filmes nos últimos treze anos o Cartoon Saloon já mostrou muito mais brilhantismo tanto na vertente artística da animação como nos temas que explora.

      1. Perdi a publicação deste post, e ainda não vi este filme – sendo que, pelo critério do blogger (e por ter adorado os dois anteriores deste realizadores, em particular o “Mundo Secreto de Kells”), não o irei perder. Já as críticas à Disney parecem-me exageradas, sendo, que, naturalmente, produzindo tanto, nem tudo é bom – mas o último, “Encanto” é excepcional – para quem gosta de musicais, naturalmente. Quanto a Pixar, realmente, o único filme bom e original que produziu nos últimos 7 anos, foi “Coco”. Dito isto, não nos exploram indecentemente, como é o caso da editora deste filme, que nos obriga a comprá-lo (e apenas em Blu-Ray) juntamente com os outros dois, pela simbólica quantia de €47,87 (amazon.es).

        1. Errata: dada a volta às Amazons todas, existe o Blu-ray com a versão francesa, a €15 (que, obviamente, já cá vem a caminho).

        2. Lá está, não sou grande fã de musicais, e do que vejo não encontro na Disney grande rasgo em termos de animação – não como no Cartoon Saloon ou na animação japonesa.

          A Disney não explora o público indecentemente? Com um serviço de streaming com “estreias” pagas à parte da mensalidade, condicionamento fortíssimo das salas de cinema nos EUA, roubo descarado a artistas (é ver a polémica das royalties dos livros do Universo Alargado de Star Wars, entre outras), com as restrições que promove à legislação de direitos de autor, e com a uniformização massiva que promove no entretenimento? A casa do rato pode ser muita coisa, mas santa não será de certeza 🙂

          Não vi “Coco” – não pagamos Disney+ cá em casa, e ainda não calhou irmos ao alto mar. Mas ainda trarei aqui a esta série pelo menos um filme excepcional da Pixar.

  2. 1 – E se o pensamento se realiza através de imagens, mais do que através de palavras e números?
    2 – Logo, se assim fosse, estariam errados todos aqueles que conferiram à linguagem a autoria do pensamento (por exemplo, Platão, J-J.Rousseau, G.Hegel, E.Cassirer, L.Wittgenstein, G.Bachelard, N.Chomsky, etc.).
    3 – Arthur Hiller, 2000, “Intuitions de génie. Images et créativité dans les sciences et les arts“, Flammarion, Paris).

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