A angústia do guarda-redes antes do penalty.


Luís Menezes Leitão,

 

“A angústia do guarda-redes antes do penalty” (Die Angst des Tormanns beim Elfmeter) constitui um magnífico livro de Peter Handke, que serviu de guião a um filme de Wim Wenders. O livro retrata o drama de um canalizador, antigo guarda-redes, que fica desempregado, sendo que o desespero causado pela situação o leva a cometer um crime. Neste âmbito a descrição da sua habitual angústia antes do penalty corresponde a uma metáfora da vida. O guarda-redes não sabe para onde vai ser dirigido o remate mas, pelo que conhece do jogador, atira-se para onde espera que ele remate. Mas fica-lhe sempre a angústia: e se ele desta vez remata para outro lado? Da mesma forma, a vida faz-nos muitas vezes surgir situações que não esperamos, e com as quais por vezes não conseguimos lidar.

 

Quando li este livro há muitos anos sempre pensei que havia um erro de perspectiva: o guarda-redes não tem qualquer angústia antes do penalty, pois ninguém está à espera que ele defenda. Por isso, se não defender, ninguém o acusa de nada. Se defender, é um herói para todos. A angústia é toda do marcador, uma vez que é ele que sabe que todos o crucificarão se não conseguir marcar o penalty. Por isso, o marcador tem uma tarefa dificílima de marcar com precisão e ao mesmo tempo enganar o guarda-redes, dissimulando o sítio para onde vai rematar.

 

As circunstâncias fizeram, no entanto, com que ontem no Argentina-Holanda existisse uma verdadeira angústia do guarda-redes antes do penalty. É que, no jogo anterior com a Costa Rica, o treinador holandês, Van Gaal, decidiu substituir no último minuto de jogo o guarda-redes habitual, Jasper Cillessen, pelo seu suplente, Tim Krull, um especialista na defesa de penalties. Tim Krull desempenhou a tarefa na perfeição, ocupando totalmente a baliza e enervando os marcadores, o que apurou a Holanda perante uma Costa Rica que me pareceu mais forte. Mas, ao que consta, Jasper Cillessen ficou furioso, pois não tinha sido previamente avisado dessa estratégia.

 

Talvez por esse motivo, num jogo que me pareceu que estava fadado para ser decidido por penalties desde o primeiro minuto, Van Gaal deixou esgotar as substituições, pelo que acabou por ser Cillessen a defender os penalties. É verdade que o mesmo tinha feito uma extraordinária exibição durante o jogo, mas notou-se claramente que acusou o peso de ter que defender os penalties, uma área em que manifestamente não é especialista. Duas vezes se atirou para o lugar certo e das duas não conseguiu segurar a bola, sendo então o útimo remate um frango monumental.

 

Daqui fica demonstrado como Van Gaal errou ao não substituir outra vez o seu guarda-redes, que sabia perfeitamente não estar vocacionado para defender penalties. Em A Arte da Guerra, Sun-Tzu escreveu: “Se conheces o teu inimigo e te conheces a ti mesmo, se tiveres cem combates a travar, cem vezes serás vitorioso. Se ignoras o teu inimigo e te conheces a ti mesmo, as tuas chances de perder e de ganhar serão idênticas. Se ignoras ao mesmo tempo o teu inimigo e a ti mesmo, só contarás os teus combates por derrotas”.

9 comentários em “A angústia do guarda-redes antes do penalty.”

  1. interessante comparar o que se disse sobre a troca de guardaredes(vergonhoso) e o que se constata agora que não substituiu; mais interessante vai ser ver o que dizem os que condenaram a 1ª opção e vitoriosa de VanGal

  2. palavras do van gaal:

    If I could have substituted Jasper I would have done, but I’d already used three substitutes so couldn’t do that.

    I subbed Janmaat for Indi because he had a yellow card already and was often too late and wasn’t executing well.

    I didn’t want to take a risk on Nigel De Jong being injured, and he was the free man in midfield and Clasie can play going forward better than Nigel. I subbed van Persie because he was exhausted.

    1. Face às características do jogo, o que é que parecia mais importante? Pôr um jogador de campo mais fresco ou pôr um guarda-redes apto a defender penalties?
      Eu, no lugar de Van Gaal, e depois da experiência do jogo anterior, não hesitaria em repetir a estratégia. Um jogador de campo que se cansasse um pouco mais.

  3. É fácil criticar agora Van Gaal por não ter guardado uma substituição para o guarda-redes. E se tivesse feito e tivesse falhado?
    A teoria que defende que a responsabilidade nos penalties não está do lado do guarda-redes (correcta) contradiz o que defende mais à frente, dizendo que o guarda-redes titular não é especialista a defender penalties. A Holanda apenas foi perdendo gás aolongo do campeonato e esbarrou com o futebol manhoso da Argentina.

    1. Mesmo sendo a responsabilidade do marcador, há guarda-redes mais talhados a defender penalties que outros. É o caso de Krull face a Cillessen. Seguramente que Krull não teria feito aquele frango final.

      1. Parece-me exagero considerar aquele último penalty um frango. E o que foi considerado (e bem) uma inovação – a troca de guarda-redes para a fase dos penalties – é agora considerado um erro do treinador quando não o faz? No que diz respeito aos penalties, quem falhou foi o Schnejder e outro jogador da Holanda que não me recordo o nome. Se houve falha do Van Gaal foi não ter posto a equipa a jogar para ganhar desde o minuto inicial. Só na 2ª parte do prolongamento é que se viu a Holanda a tentar ganhar o jogo. Até lá, foi talvez o pior jogo de futebol deste campeonato.

        1. Concordo que foi o pior jogo do mundial, mas precisamente porque ambas as equipas se fecharam. Por isso havia que preparar a decisão pelos penalties. de facto, Van Gaal errou ao não querer ganhar o jogo. Precisamente não tirando do banco a arma que tinha para o efeito e que já tinha tido sucesso no jogo anterior.

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