
(Sofala, área inundada)
Razões minhas, e fastio também, levaram a que há mais de três meses tivesse fechado a minha conta FB (fiquei a blogar). Reabro-a hoje, para juntar o meu teclado aos que pedem ajuda para Moçambique (o qual é, se os mais “anti-tuga” de lá me permitirem dizê-lo, também “minha” terra, pois onde está a terra vermelha na qual preferirei morrer, na estação das chuvas se possível).
Reabrir a conta FB faz-me regressar às opiniões alheias aí no rincão português, partilhadas por parte substancial do rol das minhas ligações. E isso não é bom, não me faz bem. João Pedro Simões Marques e Eduardo Cintra Torres continuam a sua tarefa iluminista, partilhando um magnífico texto de Luis Filipe Thomaz, um dos grandes intelectuais portugueses, sobre Fernão de Magalhães e, assim, afrontando os obscurantistas dominantes. O resto opinativo? É tétrico.
Mas percebo também que muitos se insurgem contra as delongas do socorro português a Moçambique. Sorrio, triste. Recordo um texto meu (inacessível no jornal) publicado no Público a 9 de Março de 2000. Sobre o atraso da ajuda enviada para as cheias de então. “Um timor e meio debaixo de água“, chamei-lhe, pois naquela época a “cooperação” portuguesa se centrava naquele país. Resmunguei, clamando: “Um Timor e meio levado pelas águas e tanto tardamos a acordar. (…) Com efeito o Infulene, o Maputo, o Inkomati, transbordaram há já um mês. Há quanto tempo publicou o “Público” o triste lamento do Nelson Saúte? (…) Claro que os governos reagem às televisões. Horrível? E se elas não existissem, que fariam os governos? Talvez nada. O estranho é que a RTP-África acompanhou o desaguar. (…) Tarde chegou a ajuda de emergência!” (ao texto guardei-o aqui, página 137). E a isso junto-lhe agora: tanto clamou a embaixada por uma ajuda urgente! Tínhamos então um excepcional embaixador, a pessoa mais sagaz, capaz e decente que encontrei, e uma bela equipa de diplomatas (três dos quais actuais embaixadores) e de quadros diplomáticos, gente atenta e activa. Tínhamos jornalistas no país. A ajuda demorou porque “Lisboa” (o governo) quis congregar a actuação com a UE, para “fazer figura”. E não me venham dizer que não é verdade.
Foi há 20 anos. A modorra, a incapacidade de actuação, do solidário fervilhar mantém-se. As pessoas mudam mas mantém-se a concepção do que é o lucro político, a “moeda política”. E a incultura dos políticos. E dos cidadãos (facebuqueiros tantos deles). Leio que o Secretário de Estado das Comunidades se desloca para o país para aquilatar da situação. Nem valeria a pena referir a monumental mediocridade intelectual e política que esse simples facto revela. Vale pois para tantos dos meus compatriotas isso é normal. Ou melhor dizendo, para tanto dos meus “compatriotas”. Porque, de facto, a minha “pátria” não é a dos vis boçais que julgam, que continuam a julgar, que isto é algo da tutela de um secundário mono, aquilo das Comunidades Portuguesas. E é este emigrante que o diz.
Enfim, as coisas são como são. Que cada um dê o que pode. Eu dei pouco, mais do que posso, pois nada posso.
E um dia, mais tarde, não agora que é apenas momento de ajudar, se vos for possível lavai as remelas. E abri a pestana.

Como tem razão. Vi a miséria em que ficaram aqueles pobres, sempre pobres de tudo e agora com mais uma desgraça em cima. Vi a ajuda internacional no terreno. E, daqueles que colonizaram o país, onde se fala a mesma língua e deve haver tanto sinal português, não vi nem ouvi nada. Esta gente do governo não terá vergonha na cara?! Pois a mim envergonha-me pertencer a esta vil inacção. Que falta de humanidade e de memória.
Já se estão a mexer. Uns dias atrasados mas já se estão a mexer …
Afinal, acordámos. Devagarinho, uns mais lestos que outros. Mas aquele povo sofre muito. Nele, vejo Cristo vivendo a paixão.
evidentemente existe a urgencia imediata de salvar pessoas, o jpt alerta e incita a comunidade a ajudar.
A comunidade lamenta a tragedia …
Os governos precisam de conhecer a situaçao para planearem a ajuda.
Depois, quando a situaçao serenar e deixar de ser noticia, nao ficaremos a conhecer o que fizeram e poderiam ter feito as forças do proprio pais vitima.
As estruturas do país vítimas são muito frágeis. Se deveriam ser mais consistentes? Com toda a certeza. Mas não são. Ainda assim, a catástrofe é por demais gigantesca para ser resolvida pelos recursos de um país (basta comparar, mal, quando há um fogo em Portugal, como logo surge apoio externo – ainda que aqui a economia kamoviana seja algo responsável pela fragilidade das respostas). Será necessário, antes de reflectir pela qual V. opta, considerar que uma área parecida com metade de Portugal foi alagada.