O voto útil dos professores


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Um professor de Leiria  decidiu lançar um apelo aos colegas, pedindo que votem  contra o PS. O dito professor, porém, não se limitou a apelar ao  voto contra o PS. Fez um “estudo” (nem imaginam como me divirto com estes estudos)  para determinar, distrito a distrito, qual é o partido  melhor posicionado para roubar deputados aos socialistas. 

Até aqui, tudo bem.  Eu já escrevi aqui que se os professores e funcionários públicos não votassem no PS – e têm boas razões para isso – a derrota de Sócrates estaria garantida.

O senhor professor esqueceu-se, porém, de um pormenor importante. Apesar dos erros sucessivos cometidos pelo governo em matéria de educação, há muitos professores satisfeitos com o novo regime de concursos, que lhes permite definir a sua vida por um prazo de quatro anos, sem serem obrigados a andar com as malas às costas no fim de cada ano lectivo. E muitos desses votarão PS, precisamente por essa razão.

Não precisei de fazer nenhum estudo para chegar a esta conclusão. Foi suficiente conversar com centenas de professores nas muitas escolas do país por onde passo durante o ano lectivo.

22 comentários em “O voto útil dos professores”

  1. Os professores descontentes são os mais antigos, porque os jovens, na sua maioria, estão satisfeitos. Conseguem ser colocados antes do final do 1º mês de aulas (mesmo os que concorrem às ofertas de escola). Conseguem ser colocados por 4 anos. E muitos dos meus amigos (as) vêm na avaliação não um obstáculo, mas uma oportunidade.

    Um aparte:
    Uma amiga minha, professora de educação visual e tecnológica, teve em tempos uma colega, vinda de uma Universidade privada, que ficou atrapalhada com o raio e o diâmetro da circunferência.

  2. Eu, pelas conversas que tenho com a professora do meu filho, que é uma jovem de menos de 30 anos, parece-me que ela está bastante satisfeita. Satisfeita por ter sido colocada por 4 anos e satisfeita por ser avaliada. E pelo que ela me transmite a avaliação é uma coisa séria e útil.

    Por outro lado, por conversas com outras duas professoras que conheço, ambas muito mais velhas, sei que elas abominam o atual governo.

    Pelo que, corroboro o comentário e o post: há efetivamente muitos professores que stão, essencialmente, satisfeitos. E com boas razões para isso.

    É normal que os sindicatos e, em geral, as estruturas representativas da classe estejam dominadas por professores mais velhos. Sendo assim, é normal que eles se manifestem contra a reforma – mas não são representativos da totalidade dos professores.

  3. Eu diria que a ministra da educação foi das melhores ministras do atual governo. Pode ter feito erros sucessivos, como este post acusa, mas as reformas que implementou eram imprescindíveis e foram, globalmente, positivas.

    Foram muito positivas para as crianças e para os pais, que é o principal. Eu sou pai de uma criança, não sou professor, e, como tal, estou grato à política da ministra.

    Mas foram também positivas para muitíssimos professores. A avaliação é boa e permite-lhes progredir na carreira. A colocação por quatro anos é ótima.

  4. “se os professores e funcionários públicos não votassem no PS a derrota de Sócrates estaria garantida”

    Pessimamente estaríamos se o governo governasse essencialmente para o bem dos seus funcionários. Os funcionários públicos, incluindo os professores, servem para servir o país. O governo deve governar para o país, e não para os funcionários públicos. Talvez o descontentamento dos funcionários públicos indique que o governo governou bem.

    Por outro lado, é uma terrível verdade que neste país há tanta, tanta gente que depende financeiramente do Estado, que, se todas elas votarem contra o governo, este vai-se abaixo. É lamentável. Num país decente o peso dos funcionários públicos, dos professores e de todos os pensionistas, deveria ser bem menor.

  5. vai-me desculpar, mas isso não é verdade. é aliás dos maiores embustes deste governo, que manipula a opinião pública com falsas verdades como essa – permita-me que não vá à procura do número exacto neste momento (estou com pressa), mas nos concursos deste ano ficaram colocados, nesse tal regime de estabilidade durante 4 anos, se não me falha a memória, 400 (!!!!!!!) profs a nível nacional. nos restantes concursos necessários para completar as vagas em aberto, ficaram colocados… 30.000 (repito, se não me falha a memória)!

    isto quer dizer o seguinte:
    1. a estabilidade do corpo docente é uma miragem;
    2. o numero de vagas aberto para esses concursos ‘dos 4 anos’ é ridiculamente pequeno, exactamente porque nao interessa ao governo estabilizar (dar lugar em quadro de escola) os docentes, pois esses ficam com um conjunto de direitos – entre os quais, os de remuneração – que
    a) custa dinheiro ao Estado;
    b) dificulta a estratégia do ministério, que é a de precarizar o vínculo dos professores ao funcionalismo público – a estratégia é a oposta (atente-se a todas as declarações do ministério e respectivos diplomas, como o do autonomia escolar e da nova gestão, e perceber-se-à claramente qual o objectivo – o de contratos individuais de trabalho), por razões de carácter ideológico,em primeiro lugar, e economicista, em segundo.

    pelo que, caro carlos, nunca como hoje houve tantos professores com contratos anuais (o que implica menor tempo de serviço, porque as férias não são contabilizadas, e menor ordenado também), muitos dos quais se referem a horários incompletos, pelo que ao docente não resta senão tentar completá-los noutra escolas. a título de exemplo, tive ha 2 anos uma colega de grupo (Filosofia) que dava aulas em 3 (TRES) escolas que distavam entre si em cerca de 150 (CENTO E CINQUENTA), duas delas a 40 km e a 110 do seu local de residência.

    reposta a verdade por parte de quem, à conta de ser velhota, felizmente já não sofre estas agruras ministeriais – mas só o conjunto de todas as outras… 🙂

    1. Está-lhe a fallhar muito a memória, pode crer. E a esquecer-se que o número tem de ser analisado cumulativamente, desde que a medida foi implantada.
      Nesse aspecto não me parece que haja demagogia do governo. Todos os professores com quem falei acham essa medida muito positiva.
      Só a desvaloriza quem já se efectivou numa escola ao pé de casa, ou quem gosta de andar todos os anos de Herodes para Pilatos e à espera, até à última hora de saber onde vai ficar colocado.
      Em matéria de colocações, peço desculpa, mas realmente este governo tomou medidas muito favoráveis aos professores. Então se compararmos com o que fez MFL quando foi ministra da educação, nem se fala…

  6. Se não estou em erro, os professores que beneficiam desses 4 anos de pousio são uma pequena minoria. Uma pequeníssima minoria. Está tudo praticamente na mesma. Esse é o problema das medidas do Governo cessante: ficou tudo na mesma, quando não ficou pior. E não me venham com a crise.

  7. Pois eu também tenho uma prova que contraria esse apelo. Num post que publiquei o ano passado e está só ele esta semana com um registo de visitas superior a 150 por dia, estão lá comentários alguns dos quais se identificam como professores e afirmam que vão votar PS. Não são assim tantos os 100.000 da manifestação que se saiba também não foram todos minuciosamente identificados como professores poderiam ser meros intrusos. Portanto e à partida parece-me que o apelo não vai ser coroado de êxito que o seu autor pretende. Os docentes são em número representativo mas não me parece suficientes para determinarem a eleição dum partido, perante um quadro de não empate técnico.

  8. O número de professores colocados por quatro anos é uma imensa minoria tendo em conta o universo dos professores, Carlos e nesse sentido o voto não determinaria a eleição ou não de Sócrates. A questão que opôs os professores e Maria de Lurdes Rodrigues inclui também situações decorrentes do Estauto do Aluno e do Diploma de Gestão das Escolas, além do Estatuto da Carreira Docente.

    1. Embora conheça muitos, admito que possam ser uma minoria, Leonor. No entanto, isso não invalida que a medida tenha sido boa. Quanto ao resto, claro que estou de acordo contigo. Principalmente aGestão das Escolas e o Estatuto da Carreira Docente são suficientes para levar os professores a não votar PS. Resta saber se o voto no PSD será solução. Duvido…

      1. Duma coisa eu tenho a certeza: o PS deixou de estar nas minhas opções de voto, não só pelo descalabro em termos de ensino, e adianto que inicialmente tive esperança que podia haver uma melhoria do estado de coisas, mas pela incapacidade de lidar com a maioria absoluta e ter tido tiques autoritários inadmissíveis em democracia. Um partido que se diz socialista devia ter vergonha de ter proposto e aprovado o diploma da Gestão das Escolas. Acho que jamais lhes perdoarei isso. O PSD nunca foi sequer uma opção para mim.
        Para concluir, claro que a estabilização do corpo docente é uma boa medida, Carlos.

        1. Totalmente de acordo contigo, Leonor, mesmo sem ser professor. Apenas um esclarecimento: quando me referi ao PSD, estava apenas a lembrar que, por coincidência, o tal estudo do professor de Leiria recomenda o voto no PSD em quase todos os distritos…

          1. Esse professor tem memória curta, Carlos, e já se esqueceu de Manuela Ferreia Leite enquanto Ministra da Educação. Até tenho medo só de pensar…

  9. Maria de Lurdes R. governou contra os professores e tentou impor «reformas» à revelia da classe docente com uma arrogância e um desrespeito pelo diálogo que ficaram como uma das piores imagens do Governo de maioria absoluta. Termina o mandato como ministra desprestigiada e praticamente despedida em directo pelo primeiro-ministro no final de um recente debate televisivo. Significativo.

    1. Sou professor e não conheço nenum professor que vá votar no PS. É certo que o universo dos meus contactos pessoais não é estatisticamente representativo, e que inclui sobretudo professores mais velhos, como eu.

      Mas inclui alguns dos mais novos, a maior parte dos quais não beneficia da tal estabilidade dos quatro anos, que, tal como as outras medidas do governo em matéria educativa, é mais virtual que real e destinada a ter efeitos, não no ensino, mas na propaganda política.

      Quanto à avaliação, pertenço ao número dos que andam a dizer há décadas que ser avaliado é um direito que os professores não só devem aceitar, como exigir. Só que nesta matéria estamos, mais uma vez, perante a diferença entre políticas substantivas e políticas de aparência.

      A identificação que o Carlos Barbosa faz entre os professores mais velhos e os sindicatos erra o alvo. Há décadas que os professores tentam obrigar os sindicatos a pôr em cima da mesa questões como a pedagogia de Estado, a disciplina nas escolas e a deriva tecno-burocrata e a necessidade de existir um Ministério da Educação. Tendo os sindicatos em comum com o Ministério a propensão burocrática e a distância em relação às escolas, não admira que fossem surdos a muitas preocupações antigas dos professores; e se estes conseguiram trazer finalmente para o debate público estas preocupações, isto deve-se à recente evolução nas tecnologias de informação e comunicação, com as quais nem o Governo, nem os sindicatos contaram.

      A influência dos professores em futuros processos eleitorais vai diminuir. Não porque as burocracias pesadas dos sindicatos, dos partidos ou da Administração Pública tenham qualquer possibilidade de recuperar a influência perdida, mas porque se vai diluir em estratégias semelhantes por parte de outros grupos sociais e profissionais.

      O que aconteceu aos professores foi encontrar-se, inadvertidamente, na vanguarda duma profunda transformação política que está a tirar poder às instituições formais a favor das informais. Não sei se isto é bom ou mau, mas é o que é. E uma consequência lateral desta transformação é que as maiorias absolutas se tornarão menos prováveis.

    2. MLR conseguiu esse prodígio impensável de ser tão má ministra da educação como MFL. O que mais me impressionou, durante o seu mandato, foi o desprezo que manifestou pelos professores e o auto-convencimento. Foi mais um erro de “casting” de Sócrates.

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