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É infelizmente cada vez maior o número daqueles que entre nós cultivam a tradução literal de textos literários, à margem de considerações estéticas, como se estivessem a traduzir um relatório árido e burocrático. Sem entenderem que um livro estrangeiro, quando é traduzido para o nosso idioma, torna-se de algum modo um livro português, sujeito às nossas regras gramaticais, à sintaxe que utilizamos e à própria musicalidade da escrita que foi sendo fixada ao longo de séculos por figuras com a dimensão de um Camões, um Garrett, um Camilo, um Pessanha ou um Pessoa.
Não perceber isto é nada perceber de essencial nesta matéria.
Qualquer texto em português, ainda que possua matriz estrangeira, torna-se património da nossa língua. Com as suas particularidades, o seu ritmo, a sua semântica muito específica, a sua inconfundível eufonia. Porque cada idioma tem a sua própria cadência musical.
Não sabe escrever quem não sabe escutar.
O sujeito elidido ou subentendido é uma dessas características que conferem subtileza ao nosso idioma. Enquanto noutras línguas, designadamente o inglês, as regras determinam a menção expressa do sujeito, a nossa regra impele-nos à omissão do nome ou até do pronome assim que ele nos tenha sido apresentado.
Um exemplo básico:
“Clara went away. She left everything behind.”
Não faz sentido traduzir este trecho assim:
“Clara foi embora. Ela deixou tudo atrás de si.”
Mas já fará sentido traduzi-lo desta maneira:
“Clara partiu. Deixou tudo para trás.”
A propósito, não sei se já repararam. Esta é uma das maiores diferenças entre os diálogos pretensamente “naturais” ou “realistas” das telenovelas e os diálogos da vida real:
– Ó João, vamos sair esta noite?
– Não posso, Maria. Tenho que trabalhar.
– Ó João, mas tu tinhas prometido…
– Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo.
São duas pessoas lado a lado num sofá (nunca falta um enorme sofá em qualquer telenovela). Tudo muito solto e despachado. Único problema: ninguém na vida real fala assim. Quantas vezes mencionamos o nome da pessoa que se encontra ali em casa, à nossa frente, trocando connosco umas frases banais do quotidiano?
Estamos perante um truque retórico que os autores dos guiões utilizam para ajudar os espectadores a memorizar o nome das personagens. Mesmo à custa da verosimilhança que dizem cultivar com esmero e afinal desmentem em cada frase.
A tradução literária, quando é competente, não se ocupa apenas do idioma: ocupa-se da qualidade da escrita. Não numa pretensa fidelidade à letra original levada ao extremo, mas na fidelidade ao espírito do autor para melhor o reproduzir no texto traduzido.
É aliás neste sentido que se diz com frequência que As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard, “ganharam” qualidade literária na célebre tradução de Eça de Queirós. Ou, em sentido inverso, ainda hoje nos chegam os ecos da tradução francesa do romance A Selva, de Ferreira de Castro, feita por Blaise Cendrars — que alguns garantem ser superior ao original.
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Como é frequente dizer-se, o tradutor trai. Ainda bem: nunca nenhum texto, ao ser transposto para outro idioma, será traduzido de forma competente através de uma colagem de vocábulos.
Costumo ilustrar isto com títulos de filmes. Nunca saberemos quem se lembrou de traduzir Gone With the Wind por E Tudo o Vento Levou, algo muito mais intenso e radical. Mas devemos estar gratos a tal pessoa. Porque o título português, que se tornou numa expressão idiomática, faz sentido no contexto e adequa-se ao conteúdo. “Levado (ou levada?) pelo Vento”, tradução literal na voz passiva, deixa-nos tão indiferentes como se estivéssemos a contemplar uma parede de tijolos.
E nunca poderemos agradecer bastante a quem se lembrou do título Bem-Vindo, Mr. Chance para baptizar em português a obra-prima de Hal Ashby protagonizada por Peter Sellers. Ao ponto de não faltar quem garanta que o título original deste filme de 1979 é “Welcome, Mr. Chance”.
Não é: chama-se Being There.
Mas algum de nós guardaria dele tão boa memória se algum burocrata de turno, como se recebesse um relatório para traduzir, lhe tivesse chamado “Estando Ali”?
Em cima: fotograma do filme Bem-Vindo, Mr. Chance


– Ó João, vamos sair esta noite?
– Não posso, Maria. Tenho que trabalhar.
– Ó João, mas tu tinhas prometido…
– Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo.
[…] Único problema: ninguém na vida real fala assim.
É um facto que raramente na vida real se fala assim. Mas também é verdade que é muito simpático colocar nalgumas frases o nome da pessoa a quem elas são dirigidas, porque nada é tão agradável a uma pessoa como ouvir outra dirigir-se-lhe pelo nome. Dizer “João” irá soar muito bem aos ouvidos do João, e a Maria sentir-se-á deleitada por ouvir alguém dizer-lhe “Maria”.
Tem a certeza, Luís?
— Ó lavora,foste à m*** como eu te mandei?
— Não querida Rosinha, não tinha papel-higiénico…
O padre da minha paróquia/freguesia trata, dizem, todas as mulheres por Maria. Ó Maria isto, ó Maria aquilo, mesmo sabendo que a fulana tem outro nome, daqueles que nem sequer têm Maria. Tenho andado a pensar que o padre lhes deveria chamar, muito simplesmente, Ó mãe de Jesus.
Assim, a Andreia Vanessa, por exemplo, andaria todo o resto do dia a cismar: Porque é que o padre me chamou “ó mãe de Jesus”. Queres vêr que o gajo me chamou Maria?
E, assim, a Andreia Vanessa sentir-se-ia deleitada por ouvir alguém chamar-lhe “Maria”. (Ai que meloso que ficou este comentário pimba).
Excelente, Pedro. Subcrevo até ao último ponto de interrogação.
Cada língua tem a sua musicalidade e uma riqueza muito própria. Tem as suas expressões idiomáticas, os seus ditos e até mesmo os seus estrangeirismos, que não podem ser traduzidos à letra. Um bom tradutor tem que ter sensibilidade e grande conhecimento da língua, não apenas por a ter escrutinado profundamente no seu estudo, no seu mestrado, mas também acrescentando alguma vivência e convivência no país de origem ou com naturais do mesmo, para lhe aprender as subtilezas que as aulas e os livros não ensinam. Por vezes uma inflexão errada altera todo o sentido de uma frase. Falar e escrever naturalmente por vezes obriga a flexibilizar um pouco as regras sem nunca trucidar a língua.
Os diálogos televisivos têm um público alvo, são para consumo instantâneo : basta juntar água e mexer. Parecem fatias de queijo light com sabor a PVC.
Se não fosse tão cedo, cara Dulce, brindaria ao seu comentário com “vinho vermelho”.
Talvez a minha ausência forçada me tenha feito perder postais sobre o tema, mas finalmente ei-lo!
Questiono-me bastas vezes porque se dará tão pouca atenção aos tradutores, principais responsáveis pelas portas abertas na literatura ou pela limpeza da máquina de café. Responsáveis pelo excelente e culpados pelos atropelos, desvirtuamentos e avarias de máquinas e semântica.
Traduzir é muito mais do que tornar perceptível um texto – é transpôr todo um pensamento para uma outra cultura sem destruir a ideia que o originou.
Nem que chovam cães e gatos, é este um caminho que não admite nem pressas nem atalhos. And hair yes, hair no, mais vale perceber o autor antes de tentar o google translator.
Isso mesmo. Nem que chovam gatos e cães.
Só pode traduzir correctamente quem pensa em ambas as línguas. É a diferença entre traduções automáticas e traduções automatizadas.
Nem mais.
concordo inteiramente.
daí, traduzir poesia será o expoente máximo da competência de um tradutor.
Alguns deviam até começar por aí, Cristina.
Começar e terminar, acrescento eu.
Concordo. Traduzindo para os dias corridos de hoje:
“- Ó João, vamos sair esta noite?
– Não posso, Maria. Tenho que trabalhar.
– Ó João, mas tu tinhas prometido…
– Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo.”
——————————
– Estou farta de estar enfiada em casa. Queres sair?
– O quê? Ir outra vez ao Centro Comercial?
– Olha-me este!! Muito fino.
– Não me chateies!
– Bardamerdas!
(João sai de casa com estrondo )
(Maria chora . Sai de casa para comprar uma nova mala , em promoção, que viu a semana passada na Bimba y Lola)
À noite fazem as pazes dando uma queca. Os avós ficaram com os miúdos
isto aqui até começa a ter imensa graça…,não pertence ao “guião” pois não?! Vê-se logo …
– Ó João, vamos sair esta noite?
– Não posso, Maria. Não tenho trabalho.
– Ó João, mas tu tinhas prometido…
– Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo. Estou sem guito. Só se sairmos para a varanda.
… E eu a pensar que era falha minha, afinal não… ups!
Nunca me esquece, já lá vão muitos anos, num filme em língua inglesa, e perante um par de cães em porcelana, alguém traduziu “china dogs”, por cães chineses. Nem quero ver como traduzirão: I have to go to the john.
Digamos que a lógica é semelhante à de um “tradutor” de português para inglês que, deparando-se com a expressão “chamar o Gregório”, se apressaria a escrever “to call Gregory”.
Pedro, convenhamos que “to call Gregory” é “muito mais bem”!
Obrigada pela boa
Eheheh. Vou ali chamá-lo e volto já, Té.
Além de que “Clara foi embora” está errado. É português dos macacos. Diz-se e escreve-se “Clara foi-se embora”. Se não se escreve bem e ensina gramática, os trogloditas e os comentadores desportivos nunca terão uma oportunidade de aprender e subir nos índices de desenvolvimento humano. É para isso que serve a escola: para elevar as pessoas da trampa primordial que os socialistas confundem com o futuro da humanidade.
Será essa Clara a Ferreira Alves?
Lêem-se muitas aselhices que evidenciam o desconhecimento que o tradutor tem de particularidades do que está a traduzir. Com frequência, um personagem de uma série policial americana diz algo como:
“I talked with Langley about the suspect”
e é traduzido para:
“Eu falei com o Langley sobre o suspeito”.
Acontece que Langley, quando dito naqueles contextos, não identifica um homem (que teria por nome Langley) mas sim uma instituição (a CIA, que está sediada em… Langley).
Já nada me espanta. Nada mesmo.
E já passaram quatro anos…
Pois já. Mas é como se fosse ontem.
Penso nisto todos os dias agora que estou a fazer o esforço de ler a tradução para português de Fire and Fury, do Michael Wolff. Como leitora, tenho de fazer o esforço de ler a tradução em português, perceber claramente a expressão em inglês que lhe deu origem, e tentar traduzir mentalmente a melhor forma de o dizer de forma perceptível. É duro.
Como eu te percebo, Vânia.
Por vezes até as chamadas “grandes editoras” escorregam nestas cascas de bananas que ficam a manchá-las para sempre.
Aconteceu-me recentemente, como refiro neste texto, num bom romance pessimamente traduzido para português com a chancela de um grupo editorial cheio de prestígio.
Se calhar porque não gostam de pagar a quem é competente, chamam o primeiro sapateiro que aparece no horizonte. Alguém que, deparando-se com a expressão “chamar o Gregório”, se apressa a traduzi-a assim: “To call Gregory”.
O “Google tradutor” dá uma ajuda…
Bom dia,
Fugindo (e não fugindo) ao assunto, há uma outra situação que me faria arrancar os cabelos (se os tivesse…): são os tradutores dos canais da TV por cabo!!!!
É que é cada uma (fora as que não me apercebo). Não me recordo de um exemplo neste momento. Mas por vezes chegam ao cúmulo de traduzir da mesma forma que ouvi uma senhora portuguesa que atendi no emprego, emigrada nos EUA, que veio cá passar férias e queria por as malas no “tronco” (do inglês trunk”).
Dá vontade de ligar para os tipos a reclamar!
Nuno Cruz
Como já referi, caro Nuno, é de esperar tudo de quem traduz “vin rouge” por “vinho vermelho”.
Até na estação pública.
Traduzir não é um trabalho fácil, ao contrário do que muita gente parece pensar (e desvalorizar). Não temos varinhas de condão, nem é tão simples como estalar os dedos. É necessário ter bons conhecimentos das línguas em que estamos a trabalhar, pesquisar muito (por vezes perde-se imenso tempo para traduzir uma simples palavra ou expressão), saber escrever bem, gostar de escrever bem. E para escrever bem é preciso ler muito, e prestar muita atenção ao que se lê, para saber separar o trigo do joio. Tudo isto é incompatível com o “encher chouriços” em que a actividade de tradução parece ter sido transformada hoje em dia. A juntar ao facto de se achar que qualquer pessoa cujos conhecimentos de uma língua estrangeira são ligeiramente acima do nível básico (mesmo tendo uma licenciatura) pode ser tradutor, e à ideia completamente errada de que o Tradutor do Google é tecnologia de ponta no que se refere a traduzir… Receio que a tendência seja para termos traduções cada vez piores.
A solução? Como em quase toda a nossa formação universitária, privilegiar a prática em detrimento da teoria; incentivar a qualidade pagando bem o trabalho que é bem feito; apostar numa formação contínua; valorizar a profissão. Entre outras coisas, claro.
Mas não me parece que isso aconteça em breve, portanto vamos ter de continuar a aturar traduções “manhosas” todos os dias.
Excelente reflexão. Passei só por cá para aplaudir.
Obrigada, Pedro!
Se puder, deixe-me aqui o seu contacto (eu não publico).
Queria enviar-lhe um convite.
O meu marido é tratudor e tem o extremo cuidado de conhecer o que está a escrever, pode demorar um pouco mais a traduzir algo, mas fica bem traduzido. E apenas traduz nas línguas que está “treinado”. Muitas vezes, vejo-o a deitar as mãos à cabeça quando le certas traduções, a pressa com que foi feita, porque assim o exigiram. Exigem twice da rapidez no trabalho por menos valor, sendo que a malta nova quer é lucrar e não fazer um trabalho de qualidade. Esta é a triste realidade.