O absurdo no trato (II)


Diogo Novo,

Uma amiga espanhola está de momento a fazer várias entrevistas de trabalho em Portugal. Desenvolve soluções digitais de gestão para grandes empresas. Embora já tenha trabalhado no nosso país, fê-lo sempre pontualmente, através de empresas sedeadas em Espanha, e para empresas portuguesas na dependência de empresas espanholas. Assim, apesar de Portugal não lhe ser estranho, é a primeira vez que se lança no mercado laboral local. Perguntei-lhe quem a vai entrevistar hoje – director de recursos humanos, responsável pela área de gestão à qual se candidata, ou se outra pessoa. Responde-me, a rir, “vou ser entrevistada por um doutor”. Já aqui escrevi sobre a parolice esclerosada da pátria com os títulos académicos, que se torna ainda mais imbecil quando vista de fora. O grave é que, além de provinciana, no sentido maligno do termo, a mania é fonte de sectarismo.

Isto vem a propósito da reacção negativa de académicos e, mais recentemente, de alunos à ida de Pedro Passos Coelho para o ISCSP na qualidade de professor. Como bem escreve João Gomes de Almeida no i “o argumento de que Passos Coelho é apenas licenciado não só é parolo, como é revelador do estado empoeirado, bafiento e de irrelevância social que abunda na esmagadora maioria das instituições de ensino superior portuguesas”. Detalha, com razoabilidade, que “achar que alguém deve ser professor por ter um Doutoramento e não pelo seu percurso e conquistas profissionais, apenas contribui para termos universidades cada vez mais desatualizadas, teóricas, desligadas do mercado trabalho e que só existem para alimentar uma clientela de professores de carreira”.

Não abdicava da minha formação académica, que me é essencial tanto no plano profissional como no pessoal. Devo-lhe muito. E ainda não lhe pus um ponto final. Mas o seu valor seria limitado se não a tivesse submetido a escrutínio fora dos meandros universitários. Dito de outra forma, a ciência política e os estudos de segurança e defesa não teriam para mim o valor que têm se não os tivesse levado para sítios como o Norte de África, a Turquia, a Etiópia, ou a Tanzânia. Não é preciso ir para tão longe, é certo. Mas é preciso experiência. Devo muito aos livros e aos anfiteatros, que continuo a frequentar com gosto e empenho, mas sem o terreno não teria aprendido convenientemente aquilo que estudei.

A experiência que advém da chefia de um Executivo é única e rara, sobretudo quando exercida no contexto de uma grave crise. Considerar que alguém com este conhecimento e tarimba não tem nada para ensinar a alunos de ciências sociais é fruto de sectarismo, de ignorância e de soberba.

15 comentários em “O absurdo no trato (II)”

  1. Isso é um pouco a filosofia das “novas oportunidades”….

    A verdade é que, por mais experiência que se tenha, é manifestamente peculiar ver pessoas com a 4ª classe a dar aulas ao 12º ano, ou com o 12º a dar aulas na universidade, ou licenciados a dar aulas em cursos de douturamento; não digo que seja inédito (afinal, de certeza que o primeiro professor que deu aulas a aulunos do grau académico “X” não tinha esse grau académico), mas não será muito usual.

  2. Escusa de ter tanto trabalho a pensar nessas coisas.

    Se passarmos do geral para o particular já fica menos estranho.

    Passos Coelho, foi eleito prometendo ter a solução para os problemas económicos dos país, (os tais 1700 M€ de cortes, lembre-se), quando lá chegou teve um governo com uma desorientação total que falhou todos os objetivos quantificáveis, escondeu problemas na banca para dar um ar de saída limpa (o Banif, lembre-se) e foi completamente inábil a resolver o problema deixado por não ter conseguido maioria na AR.

    Antes disso tinha sido formador em aeródromos sem aviões e jota sénior.

    Não sei para que cursos isto constituí experiência para uma cátedra, mas sei que parece a toda a gente que é um caso de: “dá lá uma mãozinha ao homem que ele precisa”. O que seria muito louvável se não fosse pago com os nosso impostos.

  3. “o argumento de que Passos Coelho é apenas licenciado não só é parolo, como é revelador do estado empoeirado, bafiento e de irrelevância social que abunda na esmagadora maioria das instituições de ensino superior portuguesas”

    Penso que o argumento é outro. E resume-se a não se reconhecer , em Passos Coelho, qualquer percurso profissional que porventura lhe pudesse dar a tal relevância académica e pedagógica que lhe falta. Ser PM durante 4 anos não tem qualquer relevância, sobretudo no seu mandato, quando grande parte deste resumiu-se ao memorando da troika – politica do corte e costura.

    http://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/XIIL_RegInteresses.aspx?BID=129&leg=XIII

    CV de Passos Coelho:

    (2007-2009) Administrador Executivo da Fomentinvest, SGPS, SA;
    (2007-2009) Presidente da HLC Tejo,SA;
    (2007-2009) Administrador Executivo da Fomentinvest;
    (2007-2009) Administrador Não Executivo da Eco ambiente,SA;
    (2005-2009) Presidente da Ribatejo, SA;
    (2005-2007) Administrador Não Executivo da Tecnidata SGPS;
    (2005-2007) Administrador Não Executivo da Adtech, SA;
    (2004-2006) Director Financeiro da Fomentinvest,SGPS,SA;
    (2004-2009) Administrador Delegado da Tejo Ambiente, SA;
    (2004-2006) Administrador Financeiro da HLC Tejo,SA.

    Um individuo que nunca trabalhou fora da politica até aos 37 anos de idade e curiosamente aquando do seu batismo o fez logo como Administrador, em Empresas ligadas a ex-políticos/empresários envolvidos em escândalos financeiros (os construtores irmãos Cavaco, acusados de burla qualificada no caso BPN, sócios em sociedades do universo Fomentinvest até Dezembro de 2009; e Horácio Luís de Carvalho, que está a ser julgado por corrupção activa e branqueamento de capitais, ainda é sócio da sub-holding Tejo Ambiente; e o clarividente Eng. Ângelo Correia) dá alguma credibilidade? Alguma mais valia?

    Em Portugal a maioria dos políticos ganha curriculum e dinheiro depois de saírem da politica. Não deveria ser ao contrário?

    Não me escandalizaria ver o Sr. Rui Nabeiro como Professor Convidado no curso de Economia da U. Nova. Este senhor sim, sem canudo, é verdade, mas com uma experiência profissional impar e integra.

    Porventura a indignação dos alunos relaciona-se em reconhecerem no exemplo de Passos Coelho, e outros semelhantes, um obstáculo a todos aqueles que seriamente procuram singrar na vida laboral exclusivamente com base no mérito.

    Cada um acredita no que quiser. Mas Passos beneficia e sempre beneficiou dos seus contactos políticos, estabelecidos antes e durante da legislatura do seu governo. Como Paulo Portas….Clarinho….

    Patrão de Passos na Tecnoforma: “O Pedro é que abria as portas todas”

    1. “Não me escandalizaria ver o Sr. Rui Nabeiro como Professor Convidado no curso de Economia da U. Nova.” Está a gozar.
      Já agora para reger uma cadeira de Psicologia das Multidões deveríamos contratar o Macaco (chefe de uma claque dos portistas) ou um qualquer hooligan. E o Al Capone podia ser Catedrático de Criminologia.

      1. Decreto-Lei 448/79, o “Estatuto da Carreira Docente Universitária”

        O “Macaco” poderia ser útil como objecto de estudo, nada mais.

        Quanto à utilidade pedagógica dos criminosos a NSA, e outras agências de segurança, tem feito bastante bom uso deles.

        Rui Nabeiro:

        Empresário líder no mercado dos cafés, constituiu em 1982 a Novadelta e, em 1984, criou uma nova fábrica de torrefação, na altura a maior da Península Ibérica. Em 1988 criou a holding Nabeirogest, através da qual soma, atualmente, investimentos no ramo agrícola e vitivinícola, na distribuição alimentar e de bebidas, no retalho automóvel, no comércio imobiliário e na hotelaria

        A 9 de Junho de 1995 Mário Soares atribuiu-lhe o grau de comendador da Ordem Civil do Mérito Agrícola, Industrial e Comercial Classe Industrial, e a 5 de Janeiro de 2006 Jorge Sampaio distinguiu-o como comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

        Em 2007 inaugurou o Centro Educativo Alice Nabeiro, para dar resposta às necessidades extra-escolares das crianças de Campo Maior.

        Com o patrocínio da Delta a Universidade de Évora criou, em 2009, a Cátedra Rui Nabeiro, destinada à promoção da investigação, do ensino e da divulgação científica na área da biodiversidade.

        É cônsul regional honorário de Espanha, com sede na Vila de Campo Maior e jurisdição nos distritos de Castelo Branco, Beja, Portalegre e Évora.

      2. Ah , mas a santa da ladeira , se fosse viva , já poderia ser prof. convidada em psicologia das multidões e um segurança/polícia de centro comercial no bairro das galinheiras já poderia ser prof. de uma qualquer cadeira de “ecologia “criminal…
        Qualquer aluno que queira ser gestor de uma empresa de sucesso teria muito a ganhar em ter o sr. Nabeiro ou o sr Salvador Caetano ou o Onassis como professores , nisso não há qualquer dúvida. Ou o Amâncio Ortega.

  4. ” escrevi sobre a parolice esclerosada da pátria com os títulos académicos, que se torna ainda mais imbecil quando vista de fora.” Na Alemanha é bem pior. Há professores que ostentam o título de “Professor Dr. Dr.” Não sei a razão por que são Drs duas vezes. Mas não é por aí que o mundo cai.

    1. Na Alemanha é bem pior, é verdade, mas somente com os doutores. É que, na Alemanha, “doutor” significa mesmo doutor, não significa licenciado. Só em Portugal é que se dá o tratamento “doutor” a um mero licenciado.
      São os doutores da mula ruça.

  5. ““o argumento de que Passos Coelho é apenas licenciado não só é parolo, como é revelador do estado empoeirado, bafiento e de irrelevância social que abunda na esmagadora maioria das instituições de ensino superior portuguesas”.”
    Para mim significa só que Passos Coelho não tem as habilitações que se costumam exigir para o cargo. Há que demonstrar que mesmo assim sabe do assunto. E mais nada. Por exemplo, a um cirurgião exigem.-se certas habilitações antes de permitir que abra a barriga a alguém. Idêntico para um piloto da aviação de passageiros. É claro que o cirurgião se não tiver os conhecimentos devidos pode matar e o piloto também. Por isso nestes casos se exige seriedade e rigor. Mas é claro que a dar aulas, o Senhor Passos Coelho não mata ninguém nem vem nenhum mal ao mundo se disser bacoradas. Portanto deixem-no dar aulas.

  6. Eu o que acho engraçado é ver agora a direita a defender o Novas Oportunidades, quando antes tanto o criticou.
    Mal Passos Coelho chegou ao poder, a primeira coisa que o seu ministro da Educação fez foi acabar com o Novas Oportunidades. Esse programa atribuía classificações académicas a quem não tinha estudado para elas, argumentava-se.
    Agora, é a Passos Coelho que é dada uma Nova Oportunidade. Vão-lhe atribuir a ele, que não estudou, capacidades académicas com base na sua experiência laboral.

  7. Diogo, isto é como nos Concursos Públicos para o Estado:

    1) Escolhe-se o candidato
    2) Informa-se o candidato sobre os critérios de selecção para o dito lugar.
    3)Candidato faz a formação adequada para preencher na integra o curriculum pretendido
    4)Abre-se Concurso, cujo critério de selecção é papel químico do curriculum entretanto adquirido pelo candidato
    5) Candidato é selecionado entre muito outros pois os seu curriculum era o mais adequado.

    Passos Coelho, neste momento, está na fase 3. Deverá esperá-lo, futuramente, um cargo numa qualquer grande empresa, que isto, dos ordenados dos professores universitários, está uma miséria…

  8. Não li os comentários anteriores pelo que poderei repetir ideias. O que julgo, sem desprimor para qualquer licenciado, é que será preciso algo mais – em termos de grau académico – que ser licenciado para poder ensinar na universidade. No entanto, é verdade que existe gente sem graus académicos e que, por esforço pessoal, sabedoria incomum e mesmo experiência invulgar, é não desmerece e até é uma honra em qualquer ensino universitário. São casos de excepção. Não fazem a regra, fogem-lhe pela sua extraordinária cultura ou experiência. Ou. Têm algo de especialmente bom e exemplar que os indica como educadores.
    Que eu saiba, e apesar da sua experiência governativa -, falta a excepcional qualidade.
    Lamento Passos Coelho. Quando passar a onda, e a não ser que entretanto faça o doutoramento, cai fora. Mas talvez encontre outro bico ou fique mesmo por lá. Dizem as más línguas que ser governante abre portas.

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