
Se o Fabuloso Destino de Amélie e O Labirinto de Fauno procriassem o resultado seria A Forma da Água. A estética do filme é lindíssima e inolvidável. A história é solvente e os personagens também. E é fiel à ideia subjacente a toda (ou quase toda) a filmografia de Guillermo del Toro: a fantasia não é escapismo, mas sim uma forma de confrontar os horrores do mundo.
Apontam-lhe descuidos e incongruências – dizem, por exemplo, que é pouco plausível que uma simples funcionária de limpeza tenha acesso a um laboratório secreto. Importa recordar que A Forma da Água gira em torno a um monstro anfíbio com poderes curativos. Portanto, e ao contrário de The Post, esta longa-metragem não está obrigada a uma adesão rigorosa à realidade. Pela parte que me toca, o Óscar de Melhor Filme e o de Melhor Realizador estão bem entregues.

Não concordo exactamente com a tua formulação sobre as incongruências (a fantasia, como a ficção científica, perde-se com frequência nos pormenores), mas concordo com o sentido geral do texto. Tanto o prémio de Melhor Realizador como o prémio de Melhor Filme ficam muito bem entregues à Guillermo Del Toro e a The Shape of Water. A ver se mais logo deixo aqui qualquer coisa sobre o tema.
Creio que o fantástico e a ficção científica se regem por normas diferentes no que toca a pormenores – muito mais importantes para a segunda. Mas venha de lá esse texto, João, que se há tema sobre o qual gosto de te ler é este.
O texto será mesmo sobre o Del Toro. Quanto a esta outra questão: mesmo o fantástico necessita de coerência interna nas suas histórias; ao contrário do que muitos pensam, não é por haver magia, dragões, ou ciência especulativa que se pode fazer o que der na gana. Há limites que devem ser estabelecidos e uma lógica que deve ser seguida.
Ainda não o vi, mas não resisto a uma provocação. Creio que foi no The Guardian que alguém definiu The Shape of Water como sendo Splash com realismo mágico.
Tens de ver, José António. O The Guardian foi mauzinho. É verdade que este filme é mais “mainstream” do que o habitual em Del Toro, mas daí a colocá-lo no mesmo patamar que Splash vai uma longa distância. Concedo, no entanto, que a força de The Shape of Water está mais na estética do que no enredo. Ainda assim, é um grande filme.
A este filme não são apontados apenas «descuidos e incongruências» – também (pelo menos três) acusações de plágio:
http://time.com/5170613/shape-of-water-p lagiarism-controversy/
É verdade – que há acusações, digo. But the jury is still out on that.
E as mãos de aracnídeo na foto, há veredicto?
Posso estar enganada mas creio que fui uma das primeiras pessoas a comentar aqui que A Forma da Agua é um filme líndíssimo com uma história muito bem contada.
(Os Oscars na realidade não surpreenderam e ainda bem)
Não está completamente desajustado uma “mulher da limpeza”, que para a época era apenas um acessório, ter acesso a um tanque onde se encontrava uma “coisa” que ninguém sabia verdadeiramente o que era.
Acabou por se tornar no encontro fantástico de duas “coisas” extraordinárias.
Um filme delicioso em que as sortes não usaram a tesoura no final para o deixar enredado na fantasia de cada sonhador.
Também não creio que esteja desajustado. Mas os críticos são críticos… Seja como for, é de facto um filme lindíssimo.
Gosto muito de histórias. Julgo que história ou conto sem a dimensão do maravilhoso tem pouco interesse. Como história/conto achei lindo demais e até no até com um final assemelhado ao da menina do mar (que daria um belo filme se um realizador português se lembrasse de tal). Não era o filme a que eu daria o óscar. Prefiro outro género. Mas está dado. É história bonita, acaba bem, tem sua moral implícita. E parece que o realizador tem queda para filmes com lado mágico e de desenho animado. Foi a hora dele.
Tem mesmo essa queda. E é um dos melhores, se não o melhor, naquilo que faz. Venham mais filmes.
Porque na realidade isto anda tudo ligado, este galardão, serve ainda para realçar que em vez de muros, pontes. And the Winner is…Guillermo del Toro – realizador de origem mexicana. Uma chapada de luva branca ao actual presidente dos Estados Unidos da América.
Pela minha parte, melhor filme e melhor realizador, é merecido.
A leitura política é possível, claro. Não seria inédito. Basta que nos lembremos da edição dos Óscares em que “Argo” vence “Zero Dark Thirty” e o galardão é entregue por Michelle Obama.
Não vi o filme ainda (está à espera de oportunidade), mas deixo só uma “provocação”: espero que seja melhor que o Fabuloso Destino de Amélie. A verdade é que é um filme que achei muito vazio. Comparei-o na altura a um balão: bonito, leve, mas essencialmente cheio de ar. Se lhe removêssemos a banda sonora (ou trocássemos Tiersen por John Williams) o filme perderia mais de metade do interesse.
Mas sei que é uma opinião algo isolada. É um filme que não me disse muito, mas de Del Toro tenho expectativas superiores. O Labirinto do Fauno foi um filme que me encantou. Também gostei dos Hellboys e até do Blade que ele realizou. Tenho curiosidade, e muita, em ver este.
Sinceramente, não entendo muito bem a comparação com o “Amélie” – e gosto mesmo muito do filme. As semelhanças esgotam-se num sentido estético próprio (estando a estética de Jeunet e de Del Toro a anos-luz de distância) e numa protagonista feminina algo deslocada que conquista o espectador muito facilmente, mas com personalidades e ambições radicalmente distintas.
Mas até já vi quem comparasse o “The Shape of Water” ao “Avatar”, pelo que…
A comparação com “Amélie” vê-se na banda sonora, no perfil (físico e psicológico) da protagonista, na solidão como tema, na importância dos pequenos gestos (como tão bem assinalas no teu post, João Campos), no peso que a estética tem no conjunto do filme, até em alguns aspectos da fotografia.
Mas já vi que estamos todos de acordo quanto ao “Labirinto de Fauno”. É uma boa base de entendimento.
Mas as bandas sonoras são tão diferentes… e sim, sendo dois filmes profundamente estilizados, não poderiam ser mais distintos. Não me é difícil pensar noutros nomes que pudessem realizar a história de “The Shape of Water” – na sua essência ela é bastante simples e as suas influências são bastante comuns -, mas não me ocorre um único que a filmasse como o Del Toro a filmou.
Acho que “O Labirinto do Fauno” só não é consensual entre alguma “elite” que se recusa a tocar numa obra de fantasia, não vá sair de lá contaminada. É um filme extraordinário.