Vivemos num país deslumbrado pela juventude. O que é novo é bom, logo pode ser arrogante e até mal-educado. Pasmo perante a quantidade de gente nova que masca pastilhas elásticas com a boca aberta; jovenzinhos foliões que não dizem bom dia ou boa noite, obrigada ou se faz favor; gente com menos de trinta anos incapaz de entender que serão, não tarda, parte desta outra metade do mundo: os mais velhos.A juventude aguerrida é de louvar. Nem todos tiveram educação esmerada, logo é aconselhável optar por observar, aprender e replicar. Não me comovem os argumentos de que cresceu sem isto ou sem aquilo. O que aconteceu na nossa infância ou na adolescência pode ser revisto na idade adulta. Convém que o façam para que, uma vez traídos pela passagem do tempo, possam chegar aos trinta, quarenta, cinquenta e por aí fora sem se sentir postos de lado, nomeadamente no mercado de trabalho.
Sim, a juventude é boa para os potenciais empregadores e não se premeia a experiência. É triste, mas é a nossa realidade, o que leva a que muitas pessoas com 50 anos de idade e mais tenham perdido o emprego e não consigam arranjar soluções no mercado. De repente, tudo o que fizeram não tem qualquer importância? Parece que não.
Muitas pessoas que trabalharam uma vida inteira, muitas vezes em condições indignas, envelhecem sem qualquer abrigo ou protecção. As famílias não são os álbuns das festas com sorrisos e roupas engalanadas. As famílias também podem ser autênticos infernos a portas fechadas. E, perante a velhice, os mais novos preferem não ver, nem ouvir. E há ainda quem prefira abandonar ou agredir.
Há cinco anos, um estudo brasileiro indicava que a cada cinco minutos um idoso era agredido no país-irmão. Em Portugal, mais de um terço da população tem 65 anos de idade ou mais. O que significa que somos o quarto país mais envelhecido da Europa, ultrapassado apenas pela Grécia, Alemanha e Itália. Mas vamos um pouco mais longe. Sabe quantos octogenários temos? Pois são 5,84% da população. Estudos apontam para que daqui a 50 anos existirão cerca de 300 velhos para cada 100 jovens.
E tudo isto importa porquê?
Importa que o envelhecimento activo se torne uma prioridade. Não só para evitar a discriminação de quem quer manter-se no mercado de trabalho apesar de não ter uns gloriosos 20 anos de idade, mas também por ser melhor.
Portugal terá de se redefinir, elaborar estratégias de forma inteligente, porque a população não está a rejuvenescer, não vivemos numa série de ficção científica, logo temos de dar resposta à questão da idade de outra forma. A maioria das empresas parece preferir ter dois empregados a ganhar ordenado mínimo do que um sénior com um ordenado adequado ao seu percurso e experiência. Diz-me a experiência que não é necessariamente a melhor opção. Conheço quem faça tudo para continuar a trabalhar e se mantenha activo, apesar de se ter visto no desemprego ou na reforma por razões alheias à sua vontade.
Uma equipa que integra gente mais velha possui algo que muitos desconsideram e que é fundamental: a formação. Não é apenas ter alguém mais velho que pode saber mais, é alguém que tem outra memória, que pode ajudar a contextualizar.
Quando comecei a trabalhar nos jornais, há 30 anos, aprendi muito, muitíssimo, com jornalistas veteranos. Bebia o que me ensinavam com fervor e fui acarinhada de forma inimaginável por sentir que apostavam em mim, que queriam que eu fosse mais longe.
Hoje, perante um vídeo que se tornou viral e que faz uma paródia do que é uma entrevista a um millennial, tenho de me rir. Quando fui à minha primeira entrevista de trabalho não me passou pela cabeça estar em permanente contacto com ninguém a não ser com o meu sistema nervoso. Queria muito aprender, sabia o meu lugar e, como o poeta, se falhasse pois voltaria a tentar e, porventura, falhava melhor. Ter alguém ao meu lado com uma enorme experiência serviu para muito.
As empresas não reconhecem o valor dos mais velhos num país que só quer jovens, mas que não os tem em número suficiente? Não. Nem as empresas, nem o Estado.

Patrícia na perfeição dos dias de hoje, deixaram de haver vítimas, apenas vitimização. Nunca como hoje, de falas laicas, a Culpa se torna ubíqua. Um credo – se não te safaste, foi porque não te esforçaste.
Não existem vítimas, apenas vitimização.
Afinal se acreditares o suficiente tudo o que desejas virá. Mas há anos que não me sai prémio. E eu que escrevo rasgando de tanta vontade o boleto
A mim também não me sai nada, caro Vlad.
E muito aprecio as suas tiradas Agostinianas!
Embirro, por outro lado, com aquela do Brasil ser país irmão!! Qual irmão, é filho! Um filho que se portou mal, rebelou-se e andou na má vida!
Patrícia, na era global sejamos globais, grandiosos! Neste particular, o nosso país é o mundo quase todo.
(continuação de um comentário que por artes desconhecidas ganhou autonomia e saltou antes de tempo)
O grande problema do nosso tempo é que, naquela pequena parte do mundo que não é o nosso país (aquela onde os jovens estão em maior número), os velhos não arredam pé das cadeiras de gestão, sofás revestidos à medida das cadeiras – e fazem dos jovens carne para canhão. Figurada ou literalmente.
Espero que a meia-idade não seja um sítio sem futuro neste mundo.
Sou suspeito.
Mas garanto, e posso provar se for caso disso, que há muita gente que sai do ativo e é claramente mais competente do que algum dia será quem a substitui.
Muitos deles gostariam de continuar a ser úteis, de uma ou outra maneira.
Mas ninguém quer saber disso para nada.
Como é possível!
João de Brito
Não é muito exacto, mas é factual em alguns casos.
O desemprego não é a primeira grande causa do desemprego. Acontece que o facilitismo em que foi embalada a geração mais nova, impede-os de terem o culto do trabalho que os mais velhos possuem. São à dezenas o desempregados que os centros de emprego enviam para entrevista e que se apresentam num estado deplorável, obviamente à caça do almejado carimbo que os deixa ficar sem trabalhar por mais três ou seis meses.
Todos jovens querem empregos, mas muito poucos querem trabalho..
Na minha guerra acarinhamos os mais velhos, porque trabalharam uma vida, ainda trabalham para que outros possam ficar em casa, têm mais experiência em tudo, muito particularmente em disponibilidade, assiduidade, pontualidade, respeito por normas de trabalho e higiene pessoal que os mais viçosos varreram completamente da memória, ficando apenas latentes na sua vaga ideia.
O que é curioso é que, apesar de muitos patrões preferirem empregar jovens a recibos verdes para executarem trabalhos de necessidade continuada, mesmo assim o desemprego dos jovens é muito superior ao de pessoas de maior idade.
Acho este tema bastante interessante, na medida em que as dicotomias entre jovens e menos jovens sempre existiram. No entanto, parece-me (digo eu que trabalho com jovens e tenho 31 anos) que existem alguns valores que estão a desaparecer, infelizmente.
Creio que o papel das famílias é fundamental. Eu cresci numa família onde nada abundava, excepto os valores. Felizmente tive essa sorte, porque os valores que me foram incutidos permanecerão para sempre em mim.
As famílias têm de ser responsabilizadas por algumas mudanças que estão a acontecer, nomeadamente no que toca à perda de vocábulos como: “Bom dia”, “obrigada” e “com licença”.