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Este é o dia mais absurdo da nossa vida pública. O chamado “dia de reflexão” que o Estado impõe aos cidadãos, com pose paternalista e condescendente, instituindo a mordaça ritual aos meios de comunicação como se precisássemos de 24 horas para formarmos uma intenção de voto na sombra e no silêncio. Na era das redes sociais, onde tudo se escrutina e se debate em tempo real à margem dos clássicos circuitos da informação, aliás cada vez mais em crise, este anacronismo já devia ter sido banido da lei eleitoral portuguesa.
Esta é a minha primeira reflexão no inútil dia que parece congelado e congelar-nos no tempo – contemporâneo da imprensa estatizada e do canal único de televisão, que transmitia a preto e branco.
A segunda resulta da minha perplexidade perante a existência de 9,5 milhões de eleitores registados num país que tem apenas 8,6 milhões de habitantes em idade adulta. Há portanto 900 mil “eleitores” em excesso – gente entretanto falecida ou emigrada que não foi riscada dos cadernos eleitorais, o que permite as habituais parangonas de alerta contra a “gigantesca abstenção” dos portugueses.
“Em 2013 houve 47,4% de portugueses que não quiseram escolher os seus representantes no poder local”, repetem acriticamente os jornais que restam e os canais de televisão que subsistem, transformando o erro factual em notícia sem jamais questionarem a óbvia falsidade destes números. Estamos perante um caso grosseiro de “abstenção técnica”, eufemismo utilizado pelos burocratas de turno e pelo jornalismo preguiçoso para justificar o injustificável.
Limpeza urgente dos cadernos eleitorais e fim da obsoleta jornada de “reflexão”: eis o meu modesto contributo cívico para este dia.

se pudesse já tinha assassinado o estado pai-zinho
este Hamlin juntou todos os ratos para nos comerem
uns comem dia sim, dia sim (ratazanas vorazes)
alguns dia sim, dia não
ou outros dia não, dia não
Subscrevo ambos os contributos. O dia de reflexão nacional é um disparate, mas a questão dos cadernos eleitorais já entra no domínio do absurdo.
(o comentário anterior é meu; por algum motivo isto foi anónimo)
Uma palhaçada, João. E ninguém fala disto. Como se fosse normal haver quase um milhão de eleitores fantasmas.
A “limpeza” dos cadernos eleitorais não ocorre por não ser do interesse dos partidos. O número inflacionado de leitores traduz-se em mais vereadores e assentos nas Assembleias Municipais e de Freguesia em muitos municípios e, como sabe, a vida está difícil…
Este é um bom exemplo de “pacto de regime”: do PCP ao CDS, todos trazem a boca de moralismo nas noites eleitorais, porque a abstenção é preocupante, porque a classe política (os outros todos, evidentemente) não é capaz de motivar os cidadãos a votarem, patati patatá, mas nenhum parece minimamente interessado em mudar o estado das coisas. Bassine oblige.
Convêm não esquecer uma outra razão: em muitas circunscrições, os mortos também votam. Um fenómeno paranormal recorrente entre nós.
Pois votam. Tem razão. Inserem o boletim numa mesa de pé-de-galo. A Maya e o Paulo Cardoso escrutinam.
Como votam , não sei. O que sei é que no fim da jornada eleitoral, os seus nomes aparecem assinalados nos cadernos como tendo ido votar, e os correspondentes boletins de voto encontram-se dentro da urna.
Bate certo. Ninguém como um morto é tão ‘expert’ em urnas.
É como diz, Pedro Ferreira. Daí o consenso dominante – a que se associam os órgãos de (des)informação que a todo o momento propalam as pseudo-notícias sobre o “aumento da abstenção”.
Sem quererem perceber que esta espiral abstencionista se explica, em grande parte, pela coexistência de vivos e mortos nos cadernos eleitorais.
A boca cheia, evidentemente.
Eu já q há muito que refleti:
Voto em Alvalade…. No partido do Leão!
Ontem, na AG, era uma multidão..
Ontem, na AG do outro lado da Circular, só se via polícia de choque. Uma verdadeira “democracia”.
Pura opressão, como na Catalunha.
Não havia ‘mossos d’ esquadra’ mas havia bastantes moços de fretes.
Em Alvalade?
Já somos dois.
Esta lei da rolha – excelente denominação – sempre me irritou. A campanha barulhenta e chata vá que não vá, mas privarem-nos de notícias na Comunicação Social.
Lá estarei amanhã. Nem que a vaca tussa (a vaca, por sinal, tem andado adoentada).
Concordo em absoluto…
Gosto imenso do Miró que ilustra o poste.
Bom fim de semana para os reflores e abstencionistas.
Que ganhe o Felino! ( “vocês sabem de quem falo”…)
O Miró surge aqui em rigoroso exclusivo. É património do Estado português.
A propósito:
– Alguém será capaz de me explicar a verdadeira razão por que não são usados os meios eletrónicos, quer na atualização dos cadernos eleitorais, quer no próprio ato eleitoral?!
É uma coisa que há muito me intriga.
E, desde já, agradeço o esclarecimento.
João de Brito
Não sei por que não se usam os meios electrónicos mas sei por que há um dia de reflexão.
A seguir ao 25 de Abril houve um período de grande agitação e de grande mobilização pelas causas políticas. Nas primeiras eleições havia o receio de que pudessem ocorrer desordens junto às mesas de voto ou grandes excitações em consequência da propaganda eleitoral levada até ao último minuto. Por isso se proibiu a agitação política junto às urnas e acabou por se concluir que para acalmar os ânimos seria melhor um descanso no dia anterior. Inteiramente justificado. Até agora (por inércia ou interesse) ninguém modificou a lei. Penso que agora já não há grande razão para estes cuidados. Mas não há paternalismo nem … não sei o quê. Suponho que há outros países que têm uma lei idêntica. Acho que, apesar de inútil, não prejudica o acto eleitoral. Se calhar até ainda beneficia originando uma acalmia que, por exemplo, permite a ida às urnas sem grandes problemas de trânsito com arruadas etc.
A juntar às respostas acima, porque tal implicaria uma negociata estilo Siresp ou Citius, e o momento actual não é propício a roubalheiras descaradas desse tipo.
Não queira meios electrónicos, especialmente na hora de votar, se soubesse quem, internacionalmente, subsidia os que vendem esse tipo de software, não estaria tão seguro da sua segurança.
Mas essa, deve ser a próxima que nos vão querer “vender”, em nome da “segurança” e do “simplex”.
Se hackers conseguem entrar, onde nem sequer imagina, informação que não é para publicitar, mais a mais, quando nos querem pôr com dinheiro virtual, nunca queira um produto em que as “raposas” podem construir o “galinheiro” com programas com backdoors.
Com papel, caneta e várias pessoas a conferir a contagem, pelo menos, nesta parte pode estar descansado. (no Brexit havia mesas de voto com lápis e, mesmo assim não resultou porque, neste caso, o interesse não era partidário e podiam escolher “todos do mesmo partido” )
Para compreender do que estou a falar, pode ler na wikipedia.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Backdoor
Não se lembra de tentarem culpar a Rússia por interferir nas eleições americanas? Com tantas “certezas”, se calhar, até sabiam que não tinha sido a Rússia porque, em sítios de apoio a Clinton, haver mais votos que eleitores, qualquer “cortina de fumo” serve para manipular as atenções. Em vez de se focarem no problema puseram-nos a olhar para o outro lado do mundo.
Os meios electrónicos deviam ser usados na actualização dos cadernos eleitorais, como é óbvio.
Mas isso não acontece. Nisto não houve nenhum Simplex. Continua a haver Complicadex.
A jornada de reflexão, um anacronismo?! Um dia sem altifalantes, sem caravanas, sem arruadas, sem inauguração de rotundas, sem políticos a fazer de conta que andam de bicicleta, sem primeiros-ministros a terem de abandonar entrevistas: isso é uma autêntica bênção, senhores!!
Que “anacronismo”, o que se passa em países como os EUA, em que a campanha se prolonga até ao momento da votação.
Credo, que horror, Deus nos valha!
Como gostamos nós de copiar os outros…
Só não gosto se copiarmos regimes totalitários.
Como se fosse necessário refletir “nisto”… neste reflexo de geringonça viciado, nesta coisa do embaralha e torna a dar em que os “trunfos” são sempre os mesmos, nesta tristeza dos ghost voters, sei lá…
Apetece-me sair do trabalho e ir para o meio do Rossio gritar e dizer mal desta cambada toda… pode ser que me prendam por ser antidemocrática e estar a violara constituição.
Na era das redes sociais, em que tudo se debate em tempo real e tudo está publicado a todo o momento em qualquer lado, a lei eleitoral portuguesa persiste em manter-se ancorada no tempo da TV a preto e branco, Dulce. Remontando aos tempos em que a democracia ainda gatinhava e precisávamos de “assistência espiritual” no sábado que antecedia a ida às urnas.
Um par de sapatos é mais prático.
Comprar depois de experimentar.
É dia de reflexão
Cá na crista do talude
E as rosas em botão
De mergulho pró açude
Nessas cristas do talude
a dois passos do lagar
vê-se a costa amiúde
basta ao bloco lá chegar
Acho que aquilo que irrita mesmo o pessoal é a pretensão implícita na lei de que, por um dia, a reflexão é um acto importante e com significado, e o silêncio resulta em benefício do cidadão eleitor. Um completo absurdo!
Imagino o desespero de milhares e milhares a esta hora, impedidos de se dedicarem a actividades tão imperativas como colar cartazes ou pichar paredes, obter mais 5 canetas, dois esqueiros e um chouriço de Maximinos, responder a mais uma sondagem da católica ou do protestante, agitar bandeiras durante três horas para disfarçar a sala quase vazia, verificar se nos jornais vem mais qualquer coisa sobre André Ventura… É de enlouquecer, este sossego.
Concordo com as suas duas sugestões. Presumo que muita gente conhece a anomalia do número de inscritos face ao número de votantes, até já existe o termo “abstenção técnica” que é referido nos media mas que não é levado em conta na grande maioria das lamúrias dos jornalistas e comentadores da TV.
Eu também referi o fenómeno já em 2009 neste post (http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2009/0 6/eleicoes-europeias.html) mas o meu blogue tem uma audiência muito modesta. Num dos comentários deste post avançam uma explicação para esta inércia: assim os orgãos autárquicos têm mais lugares eleitos e existe portanto um conflito de interesses dos partidos que dão pouca prioridade para a actualização dos cadernos eleitorais.
Em países de forte emigração como Portugal e dado que votar para quem está emigrado exige enorme esforço, disponibilidade de tempo e despesa em viagens até consulado mais próximo dever-se-ia também considerar os que se abstêm porque estão emigrados ou então facilitar aos emigrados o seu voto.
Finalmente constato alguma falta de proactividade dos funcionários públicos que por vezes dão andamento aos processos apenas depois de muito instados e incomodados pelas reclamações dos cidadãos. Ora dá-se o caso de os mortos não reclamarem a supressão da sua inscrição nos cadernos eleitorais, o que torna a execução da operação extremamente rara.
Estou plenamente de acordo. Até porque quando ocorre o falecimento de uma pessoa, é obrigatório por lei a entrega do cartão de eleitor em anexo ao requerimento a fazer á freguesia onde terá lugar o enterro, bem com indicar no mesmo o número de eleitor e a respectiva assembleia de voto. Logo, a partir daqui a actualização dos cadernos eleitorais ainda que manualmente é sempre fácil de fazer.
Está tudo previsto, por lguma razão somos dos países onde há mais leis, só basta aplicá-las, o que neste caso não convém aos que as produzem.
Pois. Leis há muitas, aplicá-las é que é o problema.
Limpeza urgente dos cadernos eleitorais
Eu não sei como é possível fazer tal coisa. Se um indivíduo (e)migra mas decide manter-se recenseado num determinado local, como é que se pode “limpá-lo”? Não pode! Ninguém tem o direito de apagar um migrante do sítio onde ele está recenseado!
Em minha opinião o que há a fazer não é uma limpeza dos cadernos eleitorais, mas sim alterar as leis por forma a que nada passe a depender desses cadernos, mas sim do número de pessoas que efetivamente vote.
fim da obsoleta jornada de “reflexão”
Mas durante o próprio dia da votação continuaria a ser proibida a propaganda eleitoral e a realização de comícios?
Qual é a diferença entre impedir propaganda eleitoral somente no próprio dia da votação e proibi-la também no dia anterior ao da votação?
Eu não vejo diferença. Em vez de ser um dia em que é proibido fazer campanha eleitoral, são dois dias. Não há razão nenhuma para eliminar o Dia de Reflexão: é somente mais um dia em que é proibido fazer campanha eleitoral. Nada mais que isso.
Bom é na Rússia do seu adorado Putin. Não há nenhuma dessas chatices por lá. Nem é necessário reflectir. Só é necessário botar o papelucho no quadrado onde vem a fuça do ditador.
E nada de exibir uma folha de papel em branco na rua: dá direito a prisão nesse admirável oásis de liberdade que vocês, putinescos, tanto idolatram.