Quem se vê na TV (18)


jmmcc,

Os tradutores de ideias – 2: os militantes voltam a atacar

Este grupo já aqui tinha sido apresentado, em tempos (v. Quem se vê na TV n.º 3). No entanto, torna-se importante voltar a ele, porque acaba de renascer um subgrupo co-relacionado. Apelo, pois, à vossa paciência para o que vou repetir na primeira parte, que apenas serve para caracterizar o grupo geral.

I

São repórteres de trabalho exterior básico que aspiram ser um dia "enviados especiais". Para os tradutores de ideias, os telespectadores são um bocado obtusos e, sobretudo, nunca percebem as coisas à primeira. Por isso é que eles se especializam na tradução das ideias que os outros nos dirigem.

Normalmente, o pivot em estúdio lança a notícia em poucas palavras, logo a seguir anuncia que o repórter está no local em directo, é feita a ligação ao exterior e dirige-lhe a primeira pergunta (que pode ou não ser a única).

Não raro, os tradutores de ideias pouco sabem sobre o que estão a fazer, mas nunca se atrapalham. Está tudo previsto e começam assim:

– Sim… hã… parece que de facto… hã… mas tenho aqui comigo o responsável que vai explicar melhor os acontecimentos. Diga-me, por favor, como é que tudo aconteceu?

Depois da explicação, viram as costas ao entrevistado e empinam-se todos para o momento crucial, que é mostrar trabalho:

– Como ouvimos agora, os acontecimentos foram acontecendo e blá-blá-blá-blá!

Os tradutores de ideias sabem que a gente nunca entende facilmente o que acaba de ouvir. É por isso que tentam explicar tudo outra vez. Mas a explicação que debitam costuma ser curiosa, porque vão entremeando frases repetidas do entrevistado com interpretações próprias. O problema é que estas raramente estão bem traduzidas.

(Termino aqui a repetição, por ser escusado ir adiante.)

II

A partir de hoje e durante os próximos 15 dias de campanha eleitoral, os tradutores de ideias reencontram o seu campo de acção ideal. Quando enviados aos comícios, atingem um clímax prolongado.

Hoje mesmo, assisti pela televisão ao que me pareceu um comício do Bloco de Esquerda, que se alongou por largo tempo televisivo. Na tribuna, Francisco Louçã fazia uma intervenção daquelas bem convictas em que ele é especialista, interrompido constantemente por ruidosas ovações de uma assistência que ele já teria levado ao rubro.

A pôr fim à transmissão, o repórter apareceu eufórico perante a câmara, tratando imediatamente de dar conta do que estava a ser dito no palanque.

Para quem tivesse dado alguma atenção ao discurso emitido, o repórter procurava desesperadamente traduzir as palavras de Louçã, com visível esforço para respeitar as ideias do líder. Sem sucesso, como de costume.

Em compensação, o repórter estava tão embalado pelo líder, tão acalorado pelo ambiente contagiante, tão convencido pelo discurso e com a voz tão alterada pela emoção que até as gotas de suor na testa o traíam. Foi então que percebi: vamos voltar a ser atacados; eles aí estão de regresso. São os tradutores de ideias militantes. No meio daquele povo, eles conseguem ser mais militantes do que todos os outros. O que os distingue e garante o distanciamento noticioso em relação aos partidos é simples: os tradutores de ideias militantes não têm as quotas em dia…

 

12 comentários em “Quem se vê na TV (18)”

  1. Excelente, compadre. Ainda bem que retomaste esta rubrica tão apreciada. Há ainda outro subgrupo de tradutores de ideias, igualmente militantes: os dirigentes-de-partidos-também-comentadores, tipo Olívia-costureira Olívia-patroa, que se apressam a surgir na pantalha para traduzirem as «ideias» de líderes dos seus partidos pouco ou nada fadados em matéria de eloquência. Alguns destes tradutores de ideias aparecem a toda a hora na TV (e rádio e jornais e revistas e blogosfera) queixando-se das ameaças à liberdade de expressão. Eles lá sabem: mal deixam tempo e espaço para deixarem falar os outros.

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