Tenho dificuldade em perceber os duplos critérios da esquerda bem-pensante. Os nacionalistas polacos e húngaros são péssimos, já os nacionalistas catalães são espectaculares. Um país considerado mau não pode atrever-se a legislar sobre o seu sistema judicial, tratando-se de intolerável violação dos valores europeus, mas um governo regional considerado bom pode desafiar o juiz, as decisões do tribunal constitucional e ainda ignorar o parlamento eleito e as instituições, sendo qualquer punição das ilegalidades considerada absurda (a lei não é igual para todos). Percebo que haja na questão catalã forte dose de romantismo, mas não entendo as interpretações de moralidade, de preto e branco, de quente e frio, sobretudo quando se acumulam notícias sobre a forma como estão a ser tratados na Catalunha todos aqueles que discordam dos independentistas: eles sofrem abusos verbais, intimidação e gritaria.
Vamos fazer um pequeno exercício mental, admitindo que isto da independência avança num prazo de seis meses, com proclamação unilateral semelhante à de 1934, que colocou um prego bem forte no caixão da II República espanhola. Nesse cenário felizmente hipotético, a Espanha entrará numa espiral de instabilidade e de empobrecimento acelerado. Haverá problemas legais e uma barafunda financeira. As consequências económicas serão calamitosas, no mínimo uma recessão prolongada. As ilegalidades só podem ter uma opção a nível europeu: a Catalunha fica fora da UE e haverá vários Estados a apoiar a Espanha na punição dos soberanistas, que terão escassa probabilidade de reconhecimento internacional. O efeito dominó de movimentos independentistas será perigoso para a Europa.
Do ponto de vista português, a equação devia ser simples, mas lendo os comentários das notícias sobre a Catalunha, julgo que a nossa opinião pública não estará a ver bem o filme: Portugal deve ter medo do fortalecimento excessivo da Espanha, mas sobretudo da sua fragilidade. Se a Espanha entrar em crise, isso só pode ter consequências graves para nós. Tudo o que implique a dissolução do país vizinho devia parecer-nos uma ameaça, para mais quando o processo de separação está a ser conduzido por radicais cujo objectivo não se entende. Os catalães querem ser mais pobres e menos livres? Querem arrastar o país para uma nova guerra civil? Acabar com a democracia espanhola? Ao contrário do que li num texto sobre o tema, sonhar nunca foi irresponsável, sonhar é gratuito e livre. O problema não é o sonho, é a realidade.
O problema não é o sonho
Luís Naves,

a Espanha é como as árvores envelhecidas
precisa duma poda
Sim, o problema não é o sonho mas a realidade. E a realidade aponta para um referendo e ainda não para a independência.
Deixem que o referendo se faça. Havia um antigo direito canónico que dizia: “O que a todos importa por todos deve ser deliberado”.
Se a independência vier a ser alcançada não significa que não se possa viver em reciproca dependência. A unidade é exactamente isto, um acto de reciprocidade.
O referendo não existe: não há legalidade, nem policiamento, nem urnas, nem boletins, nem listas; a votação que eventualmente vier a acontecer nem sequer serve para sondagem, pois nem todos os cidadãos podem votar, há pressões inaceitáveis sobre os organizadores locais, um clima de gritaria nas ruas, de insultos sobre quem não concorda com o independentismo descerebrado destes autoproclamados. Não percebe que o processo é uma palhaçada política? ‘Recíproca dependência’? O que é isso? E o que é o ‘todos’, neste caso? A constituição espanhola não foi votada por todos os espanhóis? Não há um único argumento a favor desta farsa lamentável…
Luís, eu compreendo a sua resposta. Este tem sido também um dos acentos tónicos de suas intervenções, isto é, a legalidade e as disponibilidades. Os britânicos, para que pudessem manter a jangada a navegar, fizeram cedências aos escoceses. Estas cedências são as cordas e os nós que os mantêm unidos. As leis são como estrelas cadentes.
Rajoy tem de ajudar a criar as condições para que se dê um referendo que acabará em nada, em termos de independência, para poder ceder depois mais alguma coisita por forma a não os deixar perder a face. São estas habilidades que os bem-pensantes à esquerda e à direita não são capazes de entender, em particular os bem-pensantes ibéricos.
Há um princípio jurídico que diz que “equity must come with clean hands”. Não se pode prender os organizadores do referendo, apreender as urnas, fechar as tipografias e depois querer argumentar que não há condições para o referendo se fazer. Não há condições porque os opositores ao referendo estão a impedi-las. Estivesse a Espanha de boa fé e era a primeira a assegurar as condições necessárias para o referendo, como o Reino Unido fez com a Escócia, ou o Canadá com o Quebeque, ou a Alemanha com o Sarre e o Schleswig-Holstein. Mas como a Espanha está de má fé reage assim. Se o referendo fosse uma “palhaçada política” ou uma “farsa lamentável”, como diz, não era preciso todo este aparato policial, bastava assistir ao espectáculo. Espanha está cheia de medo. E pelos vistos em Portugal há muita gente que também esteja. Mas a verdade é que a decisão é dos catalães, e eles é que sabem o que querem para o seu povo. Não são os outros que lhes podem dizer o que é sonho e o que é realidade. Se em Portugal se quisesse ser realista nunca teria havido a independência de Timor-Leste.
Timor-Leste era uma situação colonial, não é exemplo para este caso. O princípio jurídico que o Luís cita também não parece aplicar-se inteiramente ao governo espanhol, pois os políticos catalães estão longe de ter as mãos limpas no processo, como se viu nas discussões do parlamento regional, onde houve manifesta farsa democrática. O exemplo muito citado da Escócia, mais uma vez, não se aplica, pois as condições históricas são diferentes, a Escócia integrou-se de livre vontade no Reino Unido, no século XVIII. O recente referendo de independência (que deu voto negativo) foi realizado em toda a legalidade e incluiu uma saudável discussão.
Diz no seu comentário que em Portugal há muita gente que tem medo, mas escrevi o texto por me parecer que a discussão em Portugal não reflecte o perigo que Portugal corre: devíamos por exemplo escutar a opinião dos galegos e tentar compreender o leva os bascos a não embarcar na carroça do independentismo radical dos catalães.
Em muitos textos e comentários que tenho lido sobre este tema, a Espanha é tratada como um império colonial que exerce o terror sobre uma população, coitadinha, que se quer libertar da longa opressão de séculos; os catalães são uns nacionalistas românticos que sangraram várias gerações. Ora, a situação é um pouco diferente: a Espanha é uma democracia descentralizada e o governo aplicou a lei do país, gerada pelas instituições.
tentar compreender o leva os bascos a não embarcar na carroça do independentismo radical dos catalães
É muito simples: o País Vasco tem autonomia fiscal, a Catalunha não tem. Os vascos ficam no País Vasco com o essencial dos impostos que pagam e, portanto, sabem que não estão a ser roubados pelo resto da Espanha. Ao contrário daquilo que acontece com os catalães.
Também há colónias na Europa, como foi o caso da Irlanda, Chipre e Malta e ainda hoje de Gibraltar. Quanto a Timor-Leste, já não era uma situação colonial, tinha sido integrado na Indonésia. O referendo escocês fez-se porque os nacionalistas ganharam as eleições, da mesma forma que aconteceu na Catalunha. Se a Escócia entrou voluntariamente no Reino Unido e a Catalunha não o fez em Espanha, isso é mais uma razão a favor da Catalunha. Se se quer um referendo em condições, basta que a Espanha concorde em fazê-lo, caso em que ele decorreria com toda a tranquilidade. Quanto ao facto de a Espanha ser uma democracia, é bem sabido que uma democracia só funciona se primeiro for resolvido o problema imperial, não fazendo sentido invocar a democracia para eliminar as aspirações independentistas de uma parte da população. Dizer que é preciso que 2/3 dos deputados espanhóis revejam a sua constituição e haja um referendo geral no país para a Catalunha ser independente é um absurdo. Imagine-se que a URSS tinha dito que só aceitaria a independência das suas repúblicas com uma votação geral no seu território, ou que Portugal fizesse o mesmo em relação a Angola e Moçambique. Cada povo tem o direito de decidir do seu destino.
Meu caro, note que todo o aparato policial e espetáculo acessório deveu-se, principalmente, à recusa de execução das decisões da procuradoria por parte dos órgãos da generalitat!
A questão não deve ser colocada na hipótese de se referendar a independência da Catalunha, mas que tal processo deve passar por um consenso nas cortes de Espanha. O processo é complexissimo e deve dar resposta prévia a todos as questões problemáticas e legitimadoras da separação! Quem são os catalães!? Quem tem legitimidade para votar no referendo? Que território seria reconhecido a uma Catalunha independente? Que critérios atributivos da nacionalidade catalã?
Que compensações financeiras recíprocas entre o Estado Espanhol e a Catalunha?
Aquando do referendo da Escócia, autorizado por Lei da Camara Legislativa do RU e não unilateralmente pelo parlamento Escocês, uma vez que no RU muitas das questões relativas à existência da nação escocesa (ou Inglesa, Galesa…) são um pressuposto, como a nacionalidade o património e participação na fazenda e no tesouro, era pressuposto acordado, consabido, que a moeda manter-se-ia a mesma que, como sabemos, é comum a todo o RU e emitida em Inglaterra e na Escócia (prerrogativa exclusiva destes dois Reinos). A questão da União pessoal da Coroa estava resolvida, pacifica e consensual na manutenção do chefe de Estado.
Não há comparação possível entre o caso Escocês e o caso Catalão!!
Já eu tenho dificuldade em perceber os duplos critérios do Luís Naves. Os nacionalistas catalães são péssimos, já os nacionalistas polacos e húngaros são espectaculares. PS: quanto aos argumentos de dona de casa (citando Mário Soares, o que em regra evito) para ajuizar sobre as aspirações de um povo à soberania, repito-me: acha que a nossa independência nos garante melhores condições de vida? Se o fraccionamento político da Península é tão nefasto, não quer ir à Zarzuela, com uma delegação de empresários, pedir para nos readmitirem?
Este comentário revela que não leu bem o que escrevi. É evidente que a fragilidade da Espanha é péssima para Portugal e julgo que não é preciso fazer insinuações de mau gosto (não aprecio muito a zarzuela, que considero uma coisinha sem sal) para se reconhecer um facto simples: sempre que a Espanha está em crise, nós temos um problema, não é preciso estar aqui a recordar a ansiedade de 1936. Se não entende isto, passemos em frente.
Em relação à acusação sobre a falta de coerência, julgo que terá dificuldade em encontrar um texto meu com elogios ao nacionalismo polaco e húngaro, o que não é a mesma coisa de se compreender o seu patriotismo: devido a muitas peripécias históricas e circunstâncias geográficas, estes dois países sobreviveram por lutarem sempre pela preservação da identidade nacional, e ainda bem que o fizeram, pois as culturas polaca e húngara foram e são ambiciosas, europeias, em contraste com o provinciano Portugal, com as suas beatices, romantismos serôdios e outras ilusões melancólicas.
Polacos e húngaros fizeram parte de entidades supranacionais, onde se destacaram pela sua paciência, resistindo com coragem a todas as tentativas de supressão da língua ou das tradições. Pagaram com sangue e julgo que não é preciso estar aqui a fazer comparações inúteis, pois o que escrevi pretendia apenas notar que a esquerda é selectiva nas simpatias. Uns são maus, quando isso convém, os outros são bonzinhos. As questões são todas morais, como na missa.
Não tenho nada a favor ou contra o nacionalismo catalão, pelo contrário, estou-me perfeitamente nas tintas. O que digo, e repito, é que os nacionalistas catalães não vivem numa colónia e qualquer processo de independência tem de cumprir a lei, tem de ser democrático e deve ser negociado com os outros interessados. O processo a que assistimos é uma farsa eleitoral conduzida por políticos irresponsáveis que vão ser punidos nas urnas, como veremos nas próximas eleições autonómicas antecipadas (essas é que vão acontecer). Assistiremos à descida dos partidos que participaram neste autêntico golpe e à subida dos restantes. E tenho pena dos nacionalistas catalães lúcidos, pois a sua causa recuou uns anitos…
Basta de cinismo!
Os princípios nunca devem subjugar-se às conveniências.
A liberdade é o princípio dos princípios da dignidade humana.
A liberdade individual e a liberdade coletiva.
A “real política” está na base de todos desastres da história da humanidade.
Até de certos desastres naturais!
Basta de cinismo!
João de Brito
“Os nacionalistas polacos e húngaros são péssimos, já os nacionalistas catalães são espectaculares.”
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realmente…querem levar a Espanha para um caos em tempo de expansão islâmica!!!???nãã…