Entro na carruagem do metro, são quase 19 horas. A habitual multidão do fim da tarde: quase toda a gente – excepto turistas – de cabeça para baixo, mergulhada nos ecrãs dos telefones a que chamamos inteligentes apesar de fazerem de nós estúpidos. Questiono-me quantas destas pessoas alheadas de quem as cerca perdem tempo a ver vídeos de gatinhos ou a ler piadolas alarves ou a aprofundar “todos os pormenores” que jamais quiseram saber sobre celebridades da treta.
Aproveito para abrir o livro que por estes dias me acompanha. São seis estações até ao meu destino: à média habitual, dá para avançar umas dez páginas. Aproveitando todos os momentos disponíveis ao longo de fragmentos do dia, consegui ler 44 livros completos desde o início do ano até ao fim de Agosto. Era uma aposta muito pessoal para 2017: igualar ou superar agora enquanto leitor o ritmo veloz dos meus tempos de adolescente e jovem adulto, quando cheguei a ler 72 no ano em que passei dos 17 aos 18.
Guardo na mochila o Equador, de Miguel Sousa Tavares (sim, é deste romance que se trata), quando se anuncia a estação onde vou sair. E reparo então que nos lugares circundantes vão quatro pessoas também a ler. Duas mulheres, dois homens: paridade absoluta.
O que lêem elas? A Rapariga que inventou um sonho, de Haruki Murakami (edição Casa das Letras), e Filhos da Fortuna, de Jeffrey Archer (Europa-América).
O que lêem eles? A Game of Thrones, de George RR Martin (um paperback na versão original), e O Islão Político Ontem e Hoje, de John Owen (Bertrand).
Não deixo de sorrir: eis quatro parceiros de carruagem totalmente desconhecidos e que talvez nunca volte a ver mas a que me sinto de imediato ligado por um inesperado elo de cumplicidade.
Somos poucos mas não deixamos de remar contra a maré dominante, transformando o transporte de um livro num singelo acto de resistência. Demonstrando aos outros e a nós próprios esta evidência: é possível escapar ao vício dos telemóveis que cada vez mais nos uniformiza no espaço público.
Por mim, continuarei. Até ao fim deste ano e no outro que vier. Sem unicidade, sem uniformes, sem vídeos de gatinhos. Como escreveu o poeta, “só vou por onde / me levam meus próprios passos”.

E para a semana replicarei o seu cenário trocando a sua carruagem de metropolitano por um toldo de praia a Sol, o Sal, a Sul.
Forte abraço
Coincidência, meu caro: farei o mesmo, na mesma altura – e com o mesmo destino.
Abraço.
Prudência com conclusões precipitadas. Podia estar a uns metros a ler as notícias, a rever Python, a ler sobre física e electrónica ou o The City & The City no telemóvel, ou até a programar, e o meu caro continuaria a pensar “olha, mais um imerso em nulidades”.
Admito sempre essa hipótese, claro.
Mas não é isso que vou vendo quando viajo como sardinha em lata (passe o lugar-comum) e a improvisada vizinhança me exibe sem sombra de pudor os ecrãs dos telemóveis à frente dos olhos.
Paga o justo pelo pecador, enfim. Mas é legítimo pensar o pior quando, em termos gerais, a massa que por ainda anda de cabeça baixa e polegar calejado serve de fundamento para aberrantes acções censórias.
A massa estará orgulhosa disso, certa do seu poder e da sua justiça de tablóide (se chegar a tanto). O poder felicíssimo, encontrando nela o perfeito idiota útil (sob a máscara de uma espécie de muito conveniente referendo informal e vinculativo, independentemente disso e do número de participantes; o que permite todos os receios) para fundamentar o seu pensamento aberrante.
Resta temer o pior.
Costa
Detesto este simbolismo que representa ver dezenas de pessoas numa plataforma de estação de cabeça baixa.
Ninguém olha em redor. Como se toda a realidade estivesse plasmada no ecrã do telemóvel.
Li algures que Fernando Pessoa durante um certo período obrigou-se a ler 1 livro por dia ou coisa assim, o que me parece perfeitamente absurdo.
Se tivesse persistido nisso teria chegado a Presidente da República.
As poucas vezes que ando de metro em Lisboa, e depende das horas, com certeza, são muitas as pessoas que estão agarradas ao telemóvel e poucas as que lêem.
Um grande desafio, esse, de ler uns quantos livros por ano.
Sou mais preguiçosa, porque arranjo outras actividades, mas leio.
É questão de estabelecer uma meta e cumpri-la. Eu gosto de traçar metas. E nunca desisto antes do fim.
Observar as pessoas que viajam no metro, com olhos de ver, pode ser uma boa alternativa à leitura.
No autocarro, olhar pela janela, com olhos de ver, ainda mais…
João de Brito
Pode ser uma boa alternativa à leitura, sim. Sobretudo se o livro for chato (o que não é o caso daquele que ando a ler agora).
Qual é a diferença de ler um livro no Google e em papel?
Obrigado e boas leituras.
Toda a diferença. O contacto físico com o livro – que sublinhamos, marcamos, detemos em exclusivo no acto de leitura – é muito diferente de um dispositivo electrónico, com várias janelas abertas e diversos sistemas de alerta que a todo o momento nos distraem e encaminham noutras direcções.
Desde logo isto.
Se pergunta, tem a resposta. É inútil; fique no seu mundo. O mundo vencedor. Daqui a mil anos – havendo gente – algo me diz que haverá memórias do meu, bem mais do que do seu.
Bem vê: questões de “ware”. Soft e hard
Costa
Então?! Temos o contacto físico com a pele suave da bolsa do telemóvel.
Podemos rasurar e anotar o que quisermos, pesquisar, citar, ouvir narração por um humano, com toda a comodidade. Sim, também é uma questão de conforto. E de peso. E de espaço. E de ter licença para múltiplas cópias.
Se trabalharmos na área das ciências exactas começa a tornar-se quase imprescindível. Milhares de guias connosco, apoiados por aplicações técnicas.
Ocorre-me agora que as pessoas absortas nos seus auscultadores, coisa que por segurança não uso na via pública, podem estar a ouvir os seus livros.
É isso, tem razão. Somos um país de intelectuais modernaços. Tudo a ler Joyce em resumo no tuíter e Tolstoi em suaves pastilhas folhetinescas no feicecoiso, sem esquecer Proust no audiotexto.
ahahahah
é verdade! mas não deixa de ser uma delícia imaginar.
Tal e qual como as “fichas” que há uns anos parece que por aí substituem a desumana leitura integral de horrores, como Os Maias e outras aberrações. O feicebuque e afins é apenas o passo seguinte.
Portugal sempre na vanguarda (da estupidez, claro).
Está muito bem.
Costa
http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noti cias/somos-dos-paises-europeus-que-menos-l e-e-isso-obviamente-e-uma-preocupacao-17 5300
Os intelectuais têm a mania de que todos devem ser intelectuais.
Brilhante.
Tenho este para a troca:
Para evitares homónimo, mantém-te anónimo.
Certamente, que nem todos os livros são apropriados para ler no Google…
Experimente ouvir, por exemplo, Vinicius de Morais e declamações de poesia de Fernando Pessoa..
E quantas vezes a Wikipédia (1) serve para tirar uma dúvida do que se está a ler!
Nem todos os leitores podem ser enciclopédicos.
(1) Refiro-me, por exemplo, a citações escritas em lingua que não a nossa
Wikipédia? Uso-a todos os dias. E quanto a poesia sonora, nenhuma melhor do que a do Bob Dylan, que até recebeu o Nobel da Literatura – com o meu aplauso.
Já li muito em transportes públicos, e o volume dos livros nunca me demoveu. Hoje em dia faço-o menos, já que os meus percursos regulares de transportes públicos entre casa e o trabalho duram, em regra, menos de dez minutos. Mas continuo a levar o livro que estou a ler a cada momento (nunca me deu para ler mais do que um de cada vez) para todo o lado, não vá a oportunidade surgir. E é durante a minha hora de almoço, se não tiver a companhia de colegas mais próximos, que costumo avançar as minhas leituras.
Ainda assim, nem toda a gente utiliza os telemóveis e/ou tablets (só) para ler as imbecilidades do momento nas redes sociais. Ler notícias e/ou ouvir música são duas coisas que faço com frequência desde que tenho um telemóvel que me permite fazê-lo. Percebo de onde vem esse teu “antagonismo” (passe a expressão), mas tenho dúvidas de que a generalização seja correcta. E, de resto, não creio que sejam os telemóveis os culpados de se ler menos livros. Quanto muito, terão dado cabo do negócio dos “jornais” ditos “gratuitos”.
João: como bem sabemos, as “notícias” são cada vez mais lidas em função do filtro das redes sociais. E são cada vez mais tontas. tigos/portugueses-leem-cada-vez-mais-not icias-a-partir-das-redes-sociais
Os critérios de mediação estabelecidos pelos jornalistas estão praticamente desaparecidos, tendo dado lugar genericamente aos tais “vídeos de gatinhos” – metáfora que aqui serve para exemplificar a estupidificação promovida pelas “redes” a todo o momento, sem sequer haver comprovação garantida acerca do que é verdadeiro e do que é falso.
Há dois anos, recordo, as coisas já se passavam assim:
http://tek.sapo.pt/noticias/internet/ar
Quanto a livros, não vale a pena ter ilusões a este respeito. Portugal está na cauda da União Europeia em matéria de leitura: um “leitor voraz” no nosso país lê doze livros por ano(!) enquanto em França lê 60. cias/somos-dos-paises-europeus-que-menos-l e-e-isso-obviamente-e-uma-preocupacao-17 5300
http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noti
Sim, mas isso de estarmos na “cauda” da Europa no que à leitura diz respeito decerto antecederá os telemóveis e as redes sociais… e é bem provável que muitas das pessoas que hoje vemos “de cabeça baixa” a olhar para o ecrã também não estariam a ler um livro se tão tivessem um telemóvel ao dispor.
(De resto, considerando os preços a que se vendem os livros por cá… enfim, valham-me as lojas inglesas online. Se não lesse em Inglês, não ganhava para comprar livros em português)
Não digo que muita gente, porventura a maioria, não leia as notícias através do filtro das redes sociais. Mas continua a ser possível não o fazer – boa parte das publicações generalistas ou especializadas que não disponibilizam aplicações próprias estão sempre acessíveis através dos browsers. Tal como é possível verificar qualquer “notícia” que apareça no facebook, no twitter, num blogue. É uma questão de vontade.
O problema não é tanto da tecnologia como das pessoas. Quem quiser, consegue aceder a todo o tipo de informação a partir do telemóvel, do tablet, do computador. Quem não quiser, tem fartura de vídeos de gatinhos com que se entreter.
João: quando vejo uma pessoa ler um livro sei o que está a fazer: a ler um livro.
Se a vejo dobrada sobre um dispositivo móvel, inteligente ou “burro”, sei lá o que está a fazer. Pode estar a trocar larachas por sms, a jogar às cartas, a ver postais do instragram, a acumular “partilhas” do FB.
Há um dado que me parece inegável: o acesso às novas tecnologias não nos tem tornado um povo mais letrado. Caso contrário um “leitor voraz” em Portugal não leria em média apenas um livro por mês – cinco vezes menos do que acontece em França. Isto tem pouco ou nada a vez com os preços. Desde o início do ano já comprei vários livros no mercado em segunda mão – entre 1 euro e 3 euros. Mais barato do que isto, só de borla.
Essa estatística dos leitores “vorazes” parece-me bizarra: por definição, um leitor “voraz” terá de ler mais do que doze livros por ano, ou essa voracidade será algo franciscana. Eu leio bem mais do que isso por ano e dificilmente consideraria caber nessa categoria. Podemos é ter menos leitores “vorazes” (não duvido).
Uma vez mais, não creio que quem esteja a fazer o que quer que seja no telemóvel estivesse a ler se não o tivesse à mão . Os hábitos de leitura dos portugueses (ou falta deles) são um problema mais antigo do que os telemóveis.
E sim, para muita gente os e-books são uma alternativa muito cómoda. Pessoalmente não gosto, mas conheço leitores “vorazes” que lêem sobretudo no Kindle. Lá prático é.
O conceito é relativo, naturalmente. Num povo de abstémios, quem beber uma mini será um bebedor voraz.
Claro, cada um vai pelos passos k que escolhe! Não somos todos iguais, nem pensamos todos da mesma maneira! Mas há sempre quem se julgue superior aos outros, e só sabe criticar as preferências de cada um!
kada um k eskolha o k ker!
Klaro klaro ainda bem K vai percebendo k só está a levar mas orelhas!:-). Prq acha-se superior a todos! Acha-se td certinho, direitinho, e o mundo gira a sua volta! É (dakeles) daqueles k que só olha pro seu umbigo! Cresça e apareça, seja homenzinho! Respeite os opções dos outros! Ou acha k que só você é k que tá certo! Olhe K K K K K K K NÃO olhe que NAO!
K bom, Aninhas! Kd krescer kero ser komo tu.
Nunca gostei de ler ” em movimento”, excepto talvez em aviões. Apesar disso, é pela falta que me faz um livro de vez em quando e que me obriga a consumir um título às colheradas, que reconheço que os minutos, todos eles podem ser preciosos.
Os de fast food, divido em duas classes, os já devorados e digigeridos, e aqueles que é necessário repetir para saborear.
Entrei de férias ( a sério !!!) Rumo mais uma vez ao aconchego. Nada tenho ainda na mala excepto 7 livros e o tablet onde tenho as aplicações dos e-books ( mercado muito pobrezinho, por tal sinal). Planejo longas tardes com chá frio sem açúcar de um lado, os óculos de ler e um dos meus amigos ao alcance do toque.
Voltam comigo com cheiro a mar , sabor a verâo e a fruta fresca, com um pingo de ameixa ou meloa aqui e ali. Trazem com eles momentos felizes de tranquilidade e prazer que ajudam a resistir aos dias carregados e de labuta que vão marcar o caminho do tempo que falta até à próxima aberta.
Adorei ler está suampublucaçã, Pedro.
Obrigado, Dulce. Desejo-lhe excelentes férias.