Penso rápido (89)


Pedro Correia,

Até que ponto os textos se tornam impessoais ao perdermos o rasto da sua carpintaria?
O que seria do nosso entendimento da obra de um Eça ou de um Pessoa, por exemplo, sem o acesso aos manuscritos de cada um, nomeadamente às cartas que escreveram?
Li há tempos que as crianças finlandesas deixaram de ter noções elementares de caligrafia. Nas escolas, só aprendem a escrever com letras de imprensa – ou de computador. A moda vai pegar, não tenho dúvida.

Acontece que a nossa capacidade de interpretar textos antigos diminui drasticamente com estas novas tendências pedagógicas, de duvidoso mérito. E também a possibilidade de desvendarmos personalidades alheias, na medida em que a caligrafia diz muito do que somos. Ou do que éramos.

39 comentários em “Penso rápido (89)”

  1. Além de que está provado que escrever à mão ou através de um teclado corresponde a uma “experiência cerebral” diferente. Sendo que no primeiro caso, o exercício, por ser orgânico, se pode traduzir em melhores resultados do ponto de vista da criatividade.

    1. Aquilo que está referido não é que as crianças deixam de aprender a escrever à mão, mas sim que deixam de aprender a escrever texto cursivo – com letras minúsculas conectadas uma à outra. Elas continuam a aprender a escrever à mão, mas somente em letras separadas uma da outra. Que é tal e qual como escrevem os russos, os chineses e montes de outros povos altamente evoluídos.

    2. É o equivalente, nas letras, à incapacidade crescente de fazer contas de cabeça – algo que estimula a actividade mental, incluindo a capacidade de memorização. Em muitas escolas contemporâneas, desde os primeiros anos do ensino básico, as contas já são feitas com o recurso exclusivo à tecnologia.
      No dia em que se registar um apagão digital, as gerações futuras voltarão a ser analfabetas.

      1. No dia em que se registar um apagão digital, as gerações futuras voltarão a ser analfabetas.

        Não. Continuarão a saber escrever à mão. Aliás, escrever à mão é sempre muito mais conveniente em inúmeras situações da vida. Só que, em vez de escreverem texto cursivo, escreverão letras uma a uma, tal e qual como os russos fazem. Não é nada de mais. Não é nenhuma tragédia.

        1. Os Russos têm caligrafia cursiva (apesar da sua evolução estonteante e de já estarem a sair da Idade Média para onde a merda do socialismo os atirou).

          1. Vamos lá ver se vão conseguir. Eu tenho algumas dúvidas — tendo em conta de que até estão a reagir contra a islamogayoafrofacebookização do planeta.

          2. Não é tanto uma questão de reacção. É mais de Radioactividade

      2. Pedro, a capacidade de aprendizagem dos miúdos de hoje é muito superior à nossa, quando na mesma idade.

        Estão desde muito novos habituados a líder com variadíssimos tipos de informação, simultaneamente, muito por “culpa”dos computadores/informática/jogos .

        Aliás essa interface mão – cérebro pode estar a ser intensificada pela complexidade crescente dos jogos informáticos/PS4/XBOX… ( por vezes são mais de 10 as teclas/comandos usados pelos miúdos, num único jogo; como na música )….bem sei que o motivo deste incremento não é tão poético (escrita /música ), mas na prática os resultados podem ser da mesma natureza, em termos neurológicos.

        1. Vlad, a incapacidade para interpretar textos de pequena e média dificuldade é crescente por parte de jovens que vivem mergulhados desde muito pequenos nas tecnologias, que decidem tudo por eles.

          O mesmo para as contas.
          O cálculo mental é inexistente: qualquer máquina faz operações aritméticas. Ao entregar uma nota de cinco para pagar uma despesa de 3,6, a jovem que me atende na papelaria tem de deitar mão à calculadora para saber quanto me terá de dar de toco. Digo-lhe de imediato: um euro e quarenta. Ela faz a operação, à mesma. E depois diz-me: “Ah! Acertou.”

          Hoje não é preciso memorizar uma data: lá vêm, no FB, todas as datas que precisamos saber.
          Hoje não é preciso memorizar coordenadas geográficas nem sequer treinar a nossa memória visual: o GPS toma conta de nós, como se fôssemos ceguinhos.

          No dia em que houver um apagão tecnológico à escala universal, voltamos às cavernas.

          1. Talvez…mas essa incapacidade vejo-a também nos da minha geração (77)…as máquinas de cálculo já são velhinhas.

            Penso que a questão, da interpretação, não está na tecnologia mas no conteúdo dos programas de ensino – a interpretação só é possível com alguma “bagagem” Cultural, que não lhes é ensinada.
            Os miúdos são ensinados a recitar e não a pensar – a criarem mecanismos de pensamento; deveria ser ensinada uma disciplina como a Teoria Crítica….pensar o pensamento.

            Uma sugestão :

            Os exames deveriam servir para avaliar não a resposta correcta, mas a pergunta acertada à resposta dada.

          2. a questão, da interpretação, está no conteúdo dos programas de ensino – a interpretação só é possível com alguma “bagagem” Cultural, que não lhes é ensinada

            Exatamente. Eu diria que muitos dos textos que hoje na escola se força as crianças a ler não fazem qualquer sentido no mundo atual e por isso não são compreensíveis.

            Hoje continua a pretender forçar-se os alunos do secundário a lerem Os Maias de Eça de Queiroz, uma obra que já eu tive dificuldade em compreender há 30 anos, quanto mais uma criança hoje. Conceitos como “adultério” ou “espanholas” não fazem puto de sentido para um jovem atual.

            O nosso ensino, tal como os nossos intelectuais em geral, continuam a ser extremamente conservadores e antiquados.

          3. O exemplo da funcionária da padaria, faz-me lembrar a senhora a quem compro os legumes, no mercado.
            Quando ela pega na máquina e vai adicionando cada valor do produto que levo, estou a dizer-lhe o total.
            Ela ri-se e diz que sou muito rápida.
            Comento que a máquina de calcular que uso está na minha cabeça.

        2. Sabes uma coisa, Vlad? Já não tenho a certeza disso. O facto de já não ser preciso saber (classificação) mas apenas de saber onde está (acessibilidade) desliga os miúdos da conceptualização e do conhecimento abstracto, tornando-se criaturas mais empíricas e mais literais.

          Como os millennials formados na escola pública ou até mesmo o Lavoura (estou a brincar: o Lavoura é um caso muito mais grave).

          1. V. sabes o que te digo? Estamos a ficar velhotes. Este tempo já não é nosso.

            Além de que grande parte da merda feita, ao longo da nossa História , foi da responsabilidade de Homens de Altíssima Coltura…. a Cultura, numa má natureza, apenas refina a maldade, não a melhora.

          2. “(estou a brincar: o Lavoura é um caso muito mais grave).” Lavoura é dos poucos comentadores que mijam fora do penico (como se na minha terra) por isso é objecto de ditos deste género.

    3. “Sendo que no primeiro caso, o exercício, por ser orgânico, se pode traduzir em melhores resultados do ponto de vista da criatividade.” E, por exemplo, a escrita cuneiforme (suponho que com martelo e cinzel em vez de esferográfica) que influência teria na criatividade literária? E na poesia? E na filosofia? E na Matemática?
      Será que se perdeu muito ao passar dessas formas de escrita para a pena de pato, depois para a esferográfica, depois para os teclados, etc, etc.?

  2. Eu creio que no alfabeto cirílico (russo) todas as letras são escritas sob a forma de maiúsculas e desligadas umas das outras. Tal e qual como as crianças finlandesas agora as aprendem. E os russos não são propriamente um povo atrasado…

    1. sem o acesso aos manuscritos de cada um, nomeadamente às cartas que escreveram

      Hoje em dia já ninguém escreve cartas.

      Em relação a todos os atuais escritores, nunca ninguém no futuro saberá que tipo de cartas eles escreviam. Porque não escreviam.

      1. Todas as línguas têm versões manuscritas e caligráficas.
        A cultura chinesa, de resto, elevou a caligrafia à dimensão artística. Um calígrafo é muito conceituado entre os chineses.
        Reduzir a escrita e a leitura aos caracteres de imprensa é comprimir a nossa capacidade de entender outras linguagens e outras culturas, muito anteriores à nossa. Tornamo-nos cada vez mais padronizados, cada vez mais uniformes, cada vez mais pobres de espírito.

        1. comprimir a nossa capacidade de entender outras linguagens e outras culturas, muito anteriores à nossa

          Essa capacidade já hoje é muito reduzida, e compreende-se que assim seja, e ainda bem que é.

          O saber ocupa lugar. As pessoas que desenvolvem muito a capacidade de compreender culturas antigas (sendo que “antigo” pode ter apenas um século) perdem a capacidade de aprender as coisas modernas. Os neurónios que estão ocupados numas coisas não podem ser ocupados por outras.

  3. “Nas escolas, só aprendem a escrever com letras de imprensa” E as crianças árabes escrevem uma algaraviada que só potencia coisas como o Daesh. Para não falar das chinesas. E as da Coreia? Não será isso que explica os actos do gordo baixote?.

  4. O impacto neurocerobral não deverá ser maior do que aquele surgido aquando da substituição da tradição oral para a tradição escrita de textos. Os gregos (julgo que Sócrates ) opunham -se a esta mudança de paradigma pois consideravam a escrita inimiga da memória.

    Obviamente que irá haver algum impacto neurocerebral – relembrar o ensaio de Lobo Antunes, Sobre a Mão- mas isso levará milénios a expressar-se ( o nosso cérebro é o mesmo de há 150.000anos).

    Quanto à interpretação epistemológica de textos não me preocuparia muito. Todos os dias se descobrem novos sentidos em antigos sentidos. A verdade na obra é inatingível pois apenas aquele que a escreveu saberá se o seu verdadeiro sentido se mostra nas palavras ou se oculta no silêncio do não dito.

    É a melodia musical resultado das notas executadas ou dos silêncios entre elas?

    https://www.wook.pt/livro/sobre-a-mao-e-outros-ensaios-joao-lobo-antunes/173461

  5. Na verdade, não vejo grande drama nessa alteração, cada vez se recorre menos à escrita manual, a nossa letra cursiva vai-se ressentindo disso cada vez mais. Por outro lado, a vida é tão rápida, há tanta coisa para aprender, para fazer, para ver, que somos tentados a simplificar processos e descartar floreados aparentemente desnecessários. Fora isto (pode não ser pouco) não vejo nenhuma enorme vantagem. Mas podemos sempre perguntar aos russos …

    1. Reduzir a escrita e a leitura aos caracteres de imprensa é comprimir a nossa capacidade de entender outras linguagens e outras culturas, muito anteriores à nossa. Tornamo-nos cada vez mais padronizados, cada vez mais uniformes, cada vez mais pobres de espírito.

      1. “há tanta coisa para aprender, para fazer, para ver, que somos tentados a simplificar processos e descartar floreados aparentemente desnecessários.” Pedro Correia: é aqui que bate o ponto, quer-se ver muita coisa mas nada em profundidade nem com floreados. O que interessa são as telenovelas. Há (houve) obras literárias e científicas que demoraram anos de meditação a construir. Hoje na vida universitária (isto a título de exemplo) mede-se o curriculum pelo número de publicações, não interessando para nada a sua qualidade. E há uns índices baseados no número de publicações e em pesos que se atribuem às revistas onde foram publicados que servem para medir o curriculum em concursos académicos. Sei que há inúmeros professores universitários que acreditam mesmo nisso e alguns que fingem acreditar, críticos assumidos há poucos. E é difícil assumir (mais do que assumir ser gay) porque vão ficar prejudicados nos concursos de promoção na carreira e de obtenção de apoios financeiros para a investigação.

    2. a nossa letra cursiva vai-se ressentindo disso cada vez mais

      Pois. Já sem falar da diabetes, que hoje em dia está muito espalhada e que provoca degradação das capacidades dos nervos e, por essa via, da escrita.

      Muitas pessoas de uma certa idade têm hoje em dia grande dificuldade em escrever.

  6. Pedro,

    recordo uma convidada tua ter tocado neste assunto. E muito bem.

    Creio no entanto que falamos de… modas.
    É…
    Há uns anos dizia-se qua as crianças deveriam ir muito cedo para os infantários para desenvolverem as suas competências no contacto com as outras crianças.

    Mais tarde os mesmo que assumiram esta ideia vieram dizer: ah e tal o melhor são as crianças ficarem com os avós… até terem realmente idade de ir para a escola.
    Com a escrita acontecerá certamente o mesmo. Um destes dias voltaremos à ardósia negra dos nossos avós e ao giz branco… porque é fixe.

    Tendências, digo eu!

    1. Meu caro: vamos delegando tudo para a máquina. A aprendizagem tornou-se mecânica. Em vez de ser a máquina a submeter-se ao ser humano, é este a submeter-se à máquina.
      Desde a mais tenra idade.
      Quando entram no ensino básico oficial, as criancinhas já estão subjugadas à máquina. Uma máquina que escreve por ela, que faz contas por ela, que pensa por ela.
      Dizem-me que em países como o Japão os miúdos se tornaram analfabetos funcionais em tudo quanto envolva a mínima operação manual. Apertar os cordões dos sapatos, por exemplo.
      Como os miúdos finlandeses se tornarão igualmente analfabetos na decifração da escrita caligráfica. Incapazes de ler qualquer texto produzido à mão ao longo dos séculos anteriores.
      Isto num mundo em que alguns dos mais exigentes testes para admissões em empregos envolvem análises grafológicas. Porque a escrita revela muito do que somos.

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