A falta de memória dos jornais


Pedro Correia,

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José Fernandes Fafe (1927-2017) com Fidel Castro quando foi embaixador em Havana

 

Li hoje seis jornais diários. Cinco deles, ao contrário do que se impunha, não concederam qualquer destaque à morte de José Fernandes Fafe – embaixador, escritor, político, grande figura do século XX português, uma daquelas pessoas de quem se diria sem favor algum que a sua vida dava um romance.

Conspirou contra o salazarismo, foi protagonista de diversos episódios da resistência à ditadura. Após a Revolução dos Cravos tornou-se um dos primeiros embaixadores “políticos” do nosso regime democrático por decisão de Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros pós-25 de Abril, como muito bem lembra Francisco Seixas da Costa no seu blogue, Duas ou Três Coisas.

Tornou-se assim embaixador residente em Cuba, onde conheceu toda a elite do regime comunista, incluindo Fidel Castro, que biografou num  livro muito interessante, cheio de revelações sobre o tirano que governou a ilha com mão de ferro entre 1959 e 2006. As rotas da diplomacia levaram-no ainda a ser embaixador no México, Cabo Verde e Argentina.

Morreu ontem, aos 90 anos e com uma vida cheia. Mas quase toda a imprensa se esqueceu de assinalar o facto com o destaque que se impunha. Incluindo a mais antiga, precisamente a que tinha maior obrigação de avivar as memórias dos leitores. Por ironia, só no mais jovem título da nossa imprensa em papel – o diário i – encontrei um obituário digno do intelectual e do cidadão que Fernandes Fafe foi. Por ironia também, num texto de duas páginas (sem hiperligação disponível) assinado por Sebastião Bugalho, um dos mais jovens jornalistas políticos portugueses.

Os restantes, lamentavelmente, fizeram de conta que não sabiam. Ou não sabiam mesmo, num dia em que os cinco jornais generalistas concederam nada menos de 24 páginas a noticiário avulso sobre futebol.

A crise do jornalismo, de que tanto se fala, tem muito a ver com estas omissões. Cada uma delas é grave. Todas somadas, tornam-se imperdoáveis.

0 comentários em “A falta de memória dos jornais”

    1. É chocante, Sérgio. Insistirei as vezes que forem necessárias neste tema: é urgente os jornais recuperarem a memória. A perda da memória conduz à morte do jornalismo.

        1. Sim. Este é um tema a que tenciono regressar várias vezes aqui. Precisamente por isso. O chamado mundo da “pós-verdade” (e a expressão é já todo um programa) só se vai tornando possível pela erosão da memória e de todas as lições que ela nos propicia.

  1. É verdade, é muito triste. Ainda bem que as fotografias eram, pelo menos, do próprio. Assim se evitou a gaffe histórica de um jornal “de referência”, ao colocar a fotografia de José Magalhães Godinho quando morreu Vitorino Magalhães Godinho.

  2. Também há jornais com boa memória:

    SIC-Noticias / Jornal das 18HOO — começo de noticia em rodapé:

    Marcelo Rebelo Sousa
    Primeiro Ministro

    Claro que foi engano, como engano foi omitir a noticia da morte do Embaixador.

    1. São coisas diferentes. Esse exemplo que menciona é um lapso grave – mas apesar de tudo compreensível – de edição. Partindo do princípio de que não se tratou de ironia, pois nos bastidores políticos de Lisboa circula a piada de que MRS é o verdadeiro primeiro-ministro e Costa é o vice-primeiro-ministro.
      A omissão da morte do embaixador Fafe é indesculpável. Sobretudo nos jornais, que devem estar atentos aos obituários de gente ilustre – de gente com biografia.

  3. Mas depois deste choradinho defendem com unhas e dentes a “educação publica”…e o controlo da educação por uma superstrutura e poder único.

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