Da arte do possível


Pedro Correia,

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«O ainda jovem Mario Vargas Llosa perguntou certa vez a Jorge Luis Borges, numa entrevista para a televisão francesa, o que era para ele a política. O grande escritor argentino deu-lhe uma resposta lapidar: “É uma das formas do tédio.” Esta frase reflecte exemplarmente o carácter fastidioso da vida política, que só pode ser protagonizada com eficácia por quem sinta genuína vocação pela condução dos destinos de uma determinada comunidade – a nível de freguesia, município, região ou país – sem temer os choques que o exercício da governação sempre enfrenta.

A política é a arte do possível aplicada num momento muito concreto e numa circunstância muito específica: compete aos intelectuais como Borges, sonhadores e visionários por natureza, imaginar outros mundos, imunes à implacável e entediante lógica dos factos. Não admira que uma das primeiras recomendações que os políticos veteranos costumam dar aos seus jovens colegas é a de ajustar os desejos às realidades: em política, raras vezes compensa ter razão antes do tempo.»

 

Excerto do verbete POLÍTICA, do livro Política de A a Z

(edição Contraponto, 2017)

0 comentários em “Da arte do possível”

  1. Borges, à semelhança de Giovanni Papini de quem era admirador, nunca teve muito jeito para o ofício de viver. O seu reino não era deste mundo. Ao contrário de Llosa, que pela aparência mantida de algo que já não tem dança, ainda hoje, com Isabel Preysler.

  2. “…em política, raras vezes compensa ter razão antes do tempo.»
    Em política e não só.
    Também na vida social, profissional e familiar.
    Talvez só nos negócios, em alguns negócios, seja compensador ter razão antes do tempo.
    De resto, tal antecipação resulta numa carga de trabalhos, frustrações, rejeições… e vá lá que já não há as fogueiras da Inquisição.
    ” E, no entanto, a Terra move-se!”
    É esta consciência que dói, que dói, que dói!
    João de Brito

  3. Borges (talvez por influência dos Românticos ingleses — tal como F. Pessoa) pensava que uma sociedade de indivíduos evoluídos tenderia a não precisar de política e de estado (individualismo romântico). Há até um conto futurista que fala nisto, em que os indivíduos são primariamente consciência e memória (o velho Funes, estilizado) e dispensaram muitas das coisas que compõem o mundo actual. Acho que está no “Relatório de Brodie” ou coisa parecida. Nesse sentido Borges era um anarquista utópico — a versão intelectualizada dos estados e organizações se tornarem obsoletos no futuro em que as pessoas evoluíram para outro estado social.

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