
«O ainda jovem Mario Vargas Llosa perguntou certa vez a Jorge Luis Borges, numa entrevista para a televisão francesa, o que era para ele a política. O grande escritor argentino deu-lhe uma resposta lapidar: “É uma das formas do tédio.” Esta frase reflecte exemplarmente o carácter fastidioso da vida política, que só pode ser protagonizada com eficácia por quem sinta genuína vocação pela condução dos destinos de uma determinada comunidade – a nível de freguesia, município, região ou país – sem temer os choques que o exercício da governação sempre enfrenta.
A política é a arte do possível aplicada num momento muito concreto e numa circunstância muito específica: compete aos intelectuais como Borges, sonhadores e visionários por natureza, imaginar outros mundos, imunes à implacável e entediante lógica dos factos. Não admira que uma das primeiras recomendações que os políticos veteranos costumam dar aos seus jovens colegas é a de ajustar os desejos às realidades: em política, raras vezes compensa ter razão antes do tempo.»
Excerto do verbete POLÍTICA, do livro Política de A a Z
(edição Contraponto, 2017)

Borges, à semelhança de Giovanni Papini de quem era admirador, nunca teve muito jeito para o ofício de viver. O seu reino não era deste mundo. Ao contrário de Llosa, que pela aparência mantida de algo que já não tem dança, ainda hoje, com Isabel Preysler.
E dizem que dançam bem, a Isabel e o Mario…
“…em política, raras vezes compensa ter razão antes do tempo.»
Em política e não só.
Também na vida social, profissional e familiar.
Talvez só nos negócios, em alguns negócios, seja compensador ter razão antes do tempo.
De resto, tal antecipação resulta numa carga de trabalhos, frustrações, rejeições… e vá lá que já não há as fogueiras da Inquisição.
” E, no entanto, a Terra move-se!”
É esta consciência que dói, que dói, que dói!
João de Brito
É certo. Nos negócios, ao contrário da política, compensa por vezes – e de que maneira – ter razão antes do tempo.
Borges (talvez por influência dos Românticos ingleses — tal como F. Pessoa) pensava que uma sociedade de indivíduos evoluídos tenderia a não precisar de política e de estado (individualismo romântico). Há até um conto futurista que fala nisto, em que os indivíduos são primariamente consciência e memória (o velho Funes, estilizado) e dispensaram muitas das coisas que compõem o mundo actual. Acho que está no “Relatório de Brodie” ou coisa parecida. Nesse sentido Borges era um anarquista utópico — a versão intelectualizada dos estados e organizações se tornarem obsoletos no futuro em que as pessoas evoluíram para outro estado social.
Que um escritor tenha essas posições, nada tem de preocupante. Por mim, só começo a preocupar-me quando vejo políticos fazer o mesmo.
Sim, de facto. Por definição a política deve ser tendencialmente pragmática.. E isto é um assupônhamos.
Pragmática, sim. Desde logo por ser a arte de fazer escolhas a todo o momento, atendendo às circunstâncias.
Quem não perceber isto falha no essencial.