Do princípio ao fim (24)


Pedro Correia,

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Raras vezes li um início de romance que me surpreendesse tanto, que me agarrasse tanto. Logo ali, nas primeiras frases sincopadas, escritas pelo protagonista-narrador, confrontado com o envelhecimento e o declínio enquanto último habitante que resta da sua aldeia natal, perdida na imensidão da montanha.

«Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para aquele sítio depois que ficou só. E pensava: “Verei dali a janela do meu quarto.” Mas teria de transportá-la para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro talvez, ou Janeiro. Tiro a neve com uma pá, traço o rectângulo e cavo. Dois cães assomam à porta do quintal, chupados de ódio e de fome. Ainda há cães pela aldeia? Babam-se e uivam sinistramente. Tomo uma pedra, disparo-a contra um, desaparecem ambos a ganir. E de novo o silêncio cresce a toda a volta, desde a montanha que fico a olhar até me doerem os olhos.”

 

São as frases de abertura de um dos mais belos romances portugueses do século XX: Alegria Breve (1965), de Vergílio Ferreira – magnífico prosador e pensador a cujas páginas regresso, com a devoção de um leitor de sempre, neste ano em que se assinalam em simultâneo o centenário do seu nascimento e o vigésimo aniversário da sua morte.

Romancista de ideias, fiel ao ideário de um Sartre que usava a ficção como veículo de aproximação à filosofia, o autor de Aparição foi de algum modo escrevendo o mesmo livro de título em título desde Manhã Submersa, que representou o corte definitivo com a estética neo-realista que até aí lhe servira de fonte primacial. O cânone em voga apontou-lhe o dedo acusador, argumentando que caíra nas malhas do “esteticismo”, grave pecado numa época em que se entendia a arte como mera reprodutora da realidade.

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Foi um corte traumático com antigos companheiros de percurso, mas Vergílio Ferreira tinha razão ao recusar toda a forma de expressão artística como mero instrumento da intervenção política de circunstância. Interessava-o muito mais enquanto forma de interrogação acerca do destino do ser humano no mundo tangível que lhe cabe em sorte. Interrogação que leva ao limite neste admirável romance que me conquistou logo às primeiras linhas, tão devedoras dessa perturbação existencial que perpassa no inesquecível parágrafo de abertura d’ O Estrangeiro, de Albert Camus.

Como Mersault, personagem central dessa novela, aqui o protagonista Jaime Faria experimenta uma situação extrema, numa espécie de exílio interior, confrontado com a força e a fraqueza da sua condição humana. Último homem, primeiro homem, longe da multidão, cada vez mais perto da sua verdade essencial.

 

“Jamais a técnica romanesca moderna da temporalidade segmentada se ajustou mais exactamente ao movimento profundo de uma consciência. Estamos dentro de um cérebro, no tumulto da memória-emoção, e experimentamos a insuportável violência da vida que se exprime pelo tema do grito”, sublinhou justamente Robert Bréchon no prefácio à tradução francesa de Alegria Breve.

Regresso com frequência à prosa cintilante de Vergílio Ferreira – delicada como filigrana, consistente como granito. Eis-me novamente, por estes dias, como testemunha muda daquela gesta espartana de Jaime Faria, daqueles gestos esquálidos dos seus braços usando a pá para remover a neve e escavar a sepultura da mulher – derradeiro habitante da aldeia, agora casado apenas com a devastadora solidão do mundo.

12 comentários em “Do princípio ao fim (24)”

  1. «Foi bom ter nascido, para ver como isto era, para matar a curiosidade. Fugidia alegria, luz breve. Foi a que me coube, em paz a aceito.»
    (página 301).
    Muito triste, mas também muito belo.
    🙂 Antonieta

  2. Também eu sou super leitora do Vergílio Ferreira. Aprendi a gostar da sua escrita logo no primeiro livro que dele li, obviamente, “Aparição”, voltando recorrentemente a ele, só para testar se determinadas passagens produziam em mim o mesmo encantamento das vezes anteriores, ou se isso se esbatia com o passar do tempo. E, de facto, as sensações, o efeito, altera-se, mas não se esbate.
    Outros que li mais tarde, tais como, “Para sempre”, “Alegria breve”, “Até ao fim”, e mais uns quantos, reforçaram toda a admiração e encantamento (é a palavra) que a escrita dele convoca em mim. Sim, é tudo isso que você escreveu sobre ele . Sensação semelhante, acontece-me com uma outra escritora portuguesa – Agustina. Eles convocam, verdadeiramente, o prazer da leitura e o prazer de refectir sobre a leitura, reter as palavras, as frases, as intenções. Por isso, também adorei o que a Inês Pedrosa escreveu sobre Agustina e a Quinta-Essência.
    Muito bom, esse “Delito de Opinião”.

    1. Também gosto muito da escrita de Vergílio Ferreira. No romance, no conto, no ensaio, no diário. É um mestre do nosso idioma, que merece ser estudado, valorizado, celebrado.
      Vence por goleada muitos dos escribas actuais que andam por aí a encher parangonas, com legiões de fãs e muita propaganda mediática, sem lhe chegarem sequer aos calcanhares.

  3. Romance que me toca profundamente , quando sinto que “estou só, terrivelmente povoada de mim”.
    É uma obra enorme de um escritor maior. Não é necessário ler para lá dos personagens para entender o simples intrincado da crueza que lhe gela o ser.

  4. A seguir ao Eça, meu primeiro amor, aconteceu-me ainda na adolescência o Vergílio Ferreira. Foi um deslumbramento que ainda hoje se renova a cada vez que o leio. Prestas-lhe aqui uma bela homenagem, Pedro. Gostei muito.

    1. Obrigado, Teresa. Registo a sintonia: também o Eça continua a ser uma das minhas leituras de cabeceira. Ainda há dias abri por acaso ‘A Cidade e as Serras’ – e lá estou eu já de novo mergulhado no velho romance, redescobrindo um prazer antigo.

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