O burquíni e a democracia francesa


Diogo Novo,

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O debate sobre o burquíni abalou os alicerces da identidade nacional francesa. Quando uma peça de vestuário é capaz de tal proeza, teme-se pela saúde da identidade nacional, tão frágil que soçobra perante tecido.

Os detractores do burquíni dirão que não está em causa a indumentária, mas sim o que ela simboliza. Aliás, foi esse o racional que fundamentou a proibição imposta em França (os alegados problemas de higiene, aduzidos ao debate pelo presidente do município de Cannes, parecem-me um fundamento demasiado patético para ser levado a sério). O valor deste argumento é discutível, pois não é de todo evidente que a burqa (e, por maioria de razão, o burquíni) seja uma representação de uma estripe radical e violenta do Islão. Como, por outro lado, também não está demonstrado que o uso do burquíni seja uma consequência da coacção – embora, neste aspecto em concreto, existam bons argumentos para ser cauteloso, sem recorrer às litanias ultramontanas que se vão lendo aqui e ali. 

Mas mesmo que o burquíni fosse uma expressão de um Islão sectário e violento, a forma como se decidiu implementar a proibição invalidou por completo toda e qualquer boa intenção que a fundamentasse. Se, como foi evocado, o objectivo fosse o de banir do espaço público representações de ideologias repressoras, sectárias e violentas, deveria ter sido ilegalizada toda a parafernália onde figurem os rostos de Che Guevara ou de Mao, para dar apenas dois exemplos. Mais, se se pretende proteger a sociedade francesa do ódio e da violência (nas suas mais diferentes expressões), então as autoridades estavam obrigadas a ilegalizar o partido Frente Nacional. Mas nada disto aconteceu. Quis-se suprimir alegadas manifestações de ódio, mas apenas no seio da comunidade muçulmana. A todos os outros sectores da sociedade aplicou-se o muito português ‘tudo como d’antes, quartel-general em Abrantes’.

É abusivo e ridículo inferir deste caso que França adoptou uma política de perseguição religiosa exclusivamente direccionada contra o Islão. A verdade, como escreveu João Pedro Pimenta n’A Ágora, é  que se trata de mais um exemplo do jacobinismo francês, em que a tão afamada “laicidade” é na realidade uma atitude anti-religiosa disfarçada.  No entanto, ao pegar num argumento geral e aplicá-lo somente a um pequeno sector da sociedade, criaram-se condições (e factos) para que a comunidade muçulmana em França se sinta alvo de discriminação selectiva. E, com isso, deu-se mais um argumento ao totalitarismo jihadista, que certamente usará este episódio para ‘demonstrar’ aos muçulmanos que a verdadeira opressão religiosa está na Europa, e não no sectarismo sanguinário do autoproclamado Estado Islâmico e demais organizações jihadistas. Perante tudo isto, François Hollande, correctamente apodado em França de Monsieur Flan, mostrou não ter a consistência política necessária para recentrar o debate público.

André Lamas Leite escreveu n’A Destreza das Dúvidas que o busto da República aguenta bem o burquíni. De acordo. Já não tenho tanta certeza que a democracia francesa aguente cidadãos de indignação fácil, disponíveis para aceitar medidas de corte autoritário.

0 comentários em “O burquíni e a democracia francesa”

  1. Burquini…
    E é com isto qua a UE se vai distraindo.
    E tanto, que leva a que, neste sítio, ninguém dê conta das vozes autorizadas que avisam que a saída de Portugal seria o mais indicado.
    Lamentável!
    João de Brito

  2. “We will colonize you with your democratic laws.” — Yusuf al-Qaradawi, Egyptian Islamic cleric and chairman of the International Union of Muslim Scholars.

    Devegarinho ao princípio, claro.
    Os idiotas úteis ajudam.

    1. A intenção é clara e o caminho delineado muito antes da invenção do burkini. Porque a mulher mussulmana usa burkini, burka e quejandos? Porque se não o fizer é vista/considerada/tratada como não digna.
      Deixem os burkinis e depois esperem sentados, e cobertos, pelo movimento a favor do não-bikini/fato de banho para não constrangir as mulheres dignas.
      Já o Menino Jesus teve de “saltar” de presépios em alguns arrondisements de Paris porque incomodava as maiorias islâmicas que lá vivem. De incómodo em incómodo…

  3. a Laicidade promove o Islamismo e persegue o Catolicismo !! Em França o Islão já tem mais poder politico-financeiro que os Católicos !!! Laicidade=Islamização…em Portugal, uma civilização católica ancestral, os Laicos estão para os Católicos, como os Daesh estão para a Cristandade no levante…

  4. Enquanto os burquinis vão poluindo as praias..
    O Estado islâmico pediu ás mulheres lá do sítio
    para não usar a burka por questões de segurança.
    Este mundo anda absolutamente esquizofrénico.
    É ,aqui portanto no ocidente que se deve aceitar esses delírios
    porque somos todos culpados e tão civilizados que
    tudo é aceitável … o que não é aceitável é mulheres como
    eu afirmar por aí que a burka e burquini é uma visão de horror
    absoluto da condição da mulher mulçulmana .
    Tentei ser muito moderada para não me proibirem a entrada também aqui
    como já o fizeram não muito longe deste espaço.

  5. Viva, Diogo.
    Tudo dito nas primeiras duas frases: “O debate sobre o burquíni abalou os alicerces da identidade nacional francesa. Quando uma peça de vestuário é capaz de tal proeza, teme-se pela saúde da identidade nacional, tão frágil que soçobra perante tecido.”
    Assino por baixo.

    1. Uma peça de vestuário que aos olhos de todos afirma uma religião! Vê isso em mais alguém? Vê mais alguém impor tradições abjectas e desumanas? Acha bonito ver este retrocesso civilizacional? Pensava eu que o Mundo progredia, jamais pensei que em pleno século XXI havia gente capaz de apoiar esta agressão a toda uma civilização! Por vezes basta um slogan para mudar uma sociedade, se nunca percebeu isso deve viver noutro lado, mas não no mesmo Mundo que nós! Pautamos-nos pela defesa da liberdade, mas essa defesa não pode ir ao ponto de por em causa essa mesma liberdade e democracia em nome de uma religião obscurantista, falsa por que criada por homens, e notoriamente anti-democrática. São as palavras dos seus lideres que confirmam este raciocínio não ver isto é tapar o sol com uma peneira!

  6. “para que a comunidade muçulmana em França se sinta alvo de discriminação selectiva.”

    E então?
    É perfeitamente justificado a discriminação contra a religião-politica mais violenta e agressiva que existe.

  7. Para mim é tão simples quanto isto: Se eu estiver a pensar ir para um qualquer país, tenho que me submeter ás leis e hábitos desse país, ainda que para mim não tenham cabimento, e nunca como estrangeiro impor os meus, sejam eles de que tipo forem.

    1. Coisa que, em Portugal, não se vê da parte dos “Afrikans” que para aqui andam. Vemos uma agressão ao nosso próprio povo, mas é preferível falar de França. Também estamos ameaçados, mas isso já é “racismo”.

  8. Ilegalizar a frente nacional?
    Isso é passar um atestado de estupidez a metade da população francesa, visto que cerca de metade dos franceses concordam com as políticas de imigração e anti islao que defendem. O islao não é uma religião da paz. O islao é um sistema político autoritário que pretende implantar a lei da sharia em todo o mundo. Todos os que defendem o politicamente correto são culpados do que que está a acontecer no ocidente. O islao defende uma condição inferior para a mulher. É isto que queremos nos nossos países?

  9. É horrivel como estas mulheres estão tão vestiddas com tanto calor.
    Só podem estar a provocar as pessoas, debaixo daqueles turbantes pode estar explosivos, estou para ver qual será o dia que isso vai acontecer.

    As filhas podem estar em fato de banho… elas não … Porquê ?

  10. Quem vive em França sabe bem que os moçulmanos de uma maneira geral são bem aceites e bem recebidos, mas alguns deles nem sempre se adaptam a tudo! Pecam por isto pois! Na terra deles, se a situação fosse ao contrário, não permitiriam nem permitem sequer metade dos direitos e liberdades ocidentais! Nada mais a dizer! Uma questão de reciprocidade apenas!

  11. Eu também não concordo que se proíba alguém de vestir o que quiser. Mas o detalhe que provavelmente escapa a muitas pessoas, é que independentemente da liberdade que o país anfitrião dê às mulheres muçulmanas, são os lideres religiosos quem arbitrariamente decidem o que elas devem vestir ou não. Ou alguém no seu perfeito juízo acha que elas vão desafiar a hierarquia? 😉

  12. É incrível como é que nós temos que aceitar a cultura e a religião desse povo no nosso país! Pois nos países muçulmanos é extremamente proibido qualquer outra religião. Mas nós temos que aceitar as mesquitas, as burgas e tudo mais… Aliás, se eles não aceitam outras religiões, porque é que migram? Não seria melhor ficarem nas suas terras?!…

  13. Considero a proibição da “coisa” como um atentado à liberdade individual mas sou pela restrição da liberdade individual dos muçulmanos. Isso mesmo! Monitorizados ao milímetro e em mourarias – estatuto fiscal diferente e horas de circulação restritas. Parece provado que as ditas gentes quando em número começam a exigir mudanças no comportamento das populações que os acolheram.
    Provérbio árabe : ” Não deixes um camelo abrigar a cabeça na tua tenda pois que depois entrará o corpo e expulsa-te.”
    Não entendo o horror da esquerda pelos cristãos integristas e a compreensão em relação aos muçulmanos. Que venham mas que todos sejam profundamente avaliados sobre a sua capacidade de integração. Sendo certo que haverá muçulmanos respeitáveis que entendem as diferenças e as aceitam estes serão uma muito pequena minoria e grande parte são uns matarruanos que não enxergam os limites da sua dignidade enquanto cidadãos em países ocidentais e já nos seus países são carneiros. Sim, sou islamofóbico da mesma maneira que tenho fobia ao opus dei e quejandos, farinha do mesmo saco: gente que considera que outras gentes deverão, sob pena de duras consequências, comportar-se segundo regras que eles próprios sacam do fundo de suas mentes doentias. Diria mesmo necessário um cordão sanitário em relação a uns e outros.

  14. Este é um problema muito complexo. Por um lado defendo que devemos ser tolerantes com os hábitos de cada um, por outro não gosto que imponham, no meus país, os deles, como fizeram os iranianos, nos museus de Itália, obrigando-os a taparem os quadros, querendo fazer o mesmo, em França, retirando o vinho da refeição, mas o franceses não cederam, e muito bem.

  15. Na minha opinião, esta decisão dos franceses é ridícula. Tal como os proprios franceses são ridículos, nas suas hipocrisias diárias. O burkini não é mais do que um fato de mergulho com saia por cima. Não se pode ir p praia de fato de mergulho? Não há surfistas em frança, portanto? A mim parece-me obvio que é uma perseguição dos franceses, pois ninguem impediu as freiras (vestidas da cabeça aos pés) de ir à praia, ou as indianas (tambem vestidas da cabeça aos pés) de ir à praia.

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