Adapto o título do Lobo Antunes não sei bem porquê. É uma pergunta retórica. O que há a fazer é sobretudo antes. Andam técnicos a dizê-lo há décadas. Vêm aos media no Verão para ser entrevistados, como os pássaros de arribação nos chegam na Primavera, e é isso que repetem.
Na estação dos incêndios podemos ter várias certezas, a de que Portugal vai arder, a de que os governantes vão largar as férias, num gesto dramático de solidariedade, para dizer umas palavras de circunstância e prometer políticas de prevenção de fogos que nunca saem da gaveta e que os técnicos que percebem e se interessam pelo tema são convidados para irem às televisões repetir críticas, conselhos e avisos pela enésima vez.
Às vezes, no calor dos acontecimentos, aparecem ideias interessantes, que até podiam fazer caminho, como a de pôr militares a patrulhar as matas para dissuadir os loucos que gostam de lhes chegar lume e ajudar na sua limpeza. Acho que foi Passos Coelho que anunciou essa intenção.
Mas quando chega, três ou quatro meses depois, a estação das cheias, quem se lembra dos fogos? Nessa altura a coreografia dos governantes é semelhante. Vão às zonas afectadas, visitam bombeiros, prometem apostar na bla, bla e na bla, bla e na… sempre com um ar muito pesaroso-determinado.
Há décadas que vivemos nesta sinistra alternância. Mas esquecendo as cheias – quem se preocupa agora com as cheias?! – partilho convosco a informação que mais me impressionou, das que vieram agora a público através dos técnicos que percebem e se interessam por estas coisas: na sua tese de doutoramento, recentemente discutida, o académico, comandante de bombeiros e presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Protecção Civil Ricardo Ribeiro recorda que “em 2013 em Portugal ardeu metade do que nesse ano ardeu no continente europeu”.
Como Portugal não tem o monopólio dos pirómanos, nem dos problemas ambientais associados às alterações climáticas, esta informação dá-nos muito que pensar sobre a inépcia, a horrível inépcia de quem nos tem governado. À esquerda e à direita.


Uma nota rápida, “O que farei quando tudo arde” é de Sá de Miranda de onde o Lobo Antunes retirou o título e fez muito bem. Já agora, o poema completo:
«Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.
Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.
Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:
Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?»
Sim, ALA referiu-o quando lançou o livro. Aliás, revela sempre a fonte, quando é o caso. Esquecimento meu. Obrigada pela correcção.
Peço desculpa, mas farto estou eu. Não é só uma questão de governo, é-também uma questão de cidadania. Existem várias formas de nos expressarmos e lutarmos directa e indirectamente para que exista uma gestão da floresta nacional que evite este cataclismos. Eu próprio sou sócio de uma associação para a preservação da natureza e da sua biodiversidade e quem tem como um dos seus principais focos gerir a floresta que “possui” para evitar o mais possível estes casos. Enquanto existir o lobby das corporações de bombeiros (com respeita para todos os que dão o melhor de si e, por vezes, as suas vidas), enquanto o combate for a jusante e não a montante não sairemos deste novelos de fios que se repete em ciclos.
Se ficarmos à espera do espírito cívico das pessoas, infelizmente não vamos a lado nenhum. É preciso arranjar formas de intervenção, através da aplicaçáo de coimas, por exemplo, a quem não mantém a “sua” floresta limpa. Trata-se de um caso de interesse público, que transcende os direitos dos proprietários. Já se tem discutido este género de soluções, mas nunca se avança.
https://www.publico.pt/sociedade/notici a/agarreime-a-carteira-174094
N consegui abrir o link, Jaa
https://www.publico.pt/sociedade/notici a/agarreime-a-carteira-1740946
Faltava um ‘6’.
Só agora lá fui – estou com uma vida de cão, sem tempo para nada. Vou guardar este artigo, para memória futura. Fiquei ainda mais mal disposta com toda esta palhaçada, devo dizer.
Mas quando se fala em políticas de combate à desertificação o que se ouve é:
A escola tem de fechar porque é antieconómica.
Os correios têm de fechar porque não compensam.
As maternidades têm de fechar porque não têm partos que cheguem.
E assim sucessivamente.
Não se pode contrariar o sacrossanto mercado. Se as dinâmicas de mercado estão a provocar a desertificação do país, contrariá-las é esquerdismo, ou chavismo, ou comunismo.
Depois vimos para aqui manifestar a nossa raiva porque o primeiro ministro da altura não decretou que os fogos são ilegais.
A maioria da população do interior ou emigrou ou migrou para os grandes centros. Há aldeias desertas e outras que só têm velhos com mais de 70 anos. quem propõe que limpe as matas dessas pessoas?
Essa responsabilidade deveria ser assumida pelas autarquias. Quanto à desertificação… está provado que existe associação entre fogos e desertificação. E lá vamos nós à responsabilidade que a política e gestão da economia tem nisto tudo…
Militares a patrulhar as matas… Mais uma ideia delirante que só mostra quanto fora da realidade estão os Políticos e como falta de qualidade da discussão que os Portugueses fazem permitam que eles existam.
Quantos militares dá por Km2?
92.212km2 àrea de Portugal.
O Exército tem 16000 Militares ao todo.
Podem atirar a matar? Bem me parecia…é tudo falado sem pensar.
Quem é que falou em atirar?
Se você emprega os militares tem de lhes dar a ROE(rules of engagement).
Podem fazer o quê e com que autoridade? Vão armados?
A sua simples presença é dissuasora, além de que podem fazer detenções, se forem para isso mandatados.
Pelo teor de comentários por aqui regurgitados, percebe-se o grau de ignorância que assola o nosso povinho.
Desde quando um militar tem que obrigatoriamente atirar sempre que actua? Se assim fosse, este europeu em França, tinha sido uma carnificina com tantos milhares de militares nas ruas a controlar distúrbios. Santa ignorância…..
A ideia dos militares a patrulhar as matas será de longe a mais eficaz (e barata). Pois em termos de logística, formação e equipamentos, nada falta. O que falta é interesse nesta medida, pois há helicópteros para alugar a 2.000€ por hora que precisam voar. Há empresas de material de combate a incêndios que precisam vender. Há terrenos que precisam ser reordenados e por aí fora.
E claro que, também não deve interessar aos militares saírem dos quarteis para patrulhar, podendo estar sem fazer nenhum como estão no resto do ano, mas isso é outra historia.
Finalmente um comentário acertado! É ISTO MESMO!