Avalanche


escafandro,

Os crentes na política de estímulos monetários deveriam hoje sentir-se no paraíso. Aquilo que defendem anda a ser feito por todos os grandes blocos económicos, com bancos centrais e governos entretidos a manipular taxas de juros e moeda, num esforço cada vez mais desesperado para adiar a inevitável correcção, que apenas agrava os problemas dos vizinhos. Este artigo de Ambrose Evans-Pritchard, no The Telegraph, explica como a China, pendurada numa montanha de mau investimento, está a aproveitar o Brexit para violar garantias de estabilidade da moeda, amplificando tendências deflacionistas e criando cada vez mais dificuldades para a economia mundial.

No meio da loucura, meia dúzia de nações da União Europeia, com a Alemanha à cabeça, vêm tentando remar contra a maré. Fazem-no timidamente, é certo, até por estarem conscientes de que a correcção também os afectará. Ainda assim, são vilipendiadas todos os dias. Mas talvez haja lógica nisto: é sinal de estupidez procurar deter uma avalanche. Pelo menos tão grande quanto tentar surfá-la.

0 comentários em “Avalanche”

  1. amplificando tendências deflacionistas

    Não li o artigo, mas questiono quem é que pretende resolver crises através da promoção da deflação. Também fico admirado que, num tempo em que tanta gente abana o espantalho da inflação, haja quem faça o contrário e abane em vez dele o espantalho da deflação.

      1. Agora já li. Tenho dois comentários:
        1) É uma tendência já com alguns anos nos EUA, e que agora parece que se espalhou para outros países, a de culpar a política económica, primeiro dos japoneses, e agora dos chineses, por tudo o que de mal nos corre na economia. A culpa é sempre desses sacanas de amarelos, nunca é nossa. Claro. Já desde há dois decénios que os EUA passam o tempo a acusar a China de desvalorizar o yuan e de com isso causarem desequilíbrios na balança comercial EUA-China, quando o facto é que os EUA têm défices na sua balança comercial com praticamente todos os outros países do mundo. É lamentável que esta tendência do China-bashing atinja agora pessoas normalmente racionais como o sr Evans-Pritchard.
        2) Eu acostumei-me a ouvir pessoas de direita a falarem sempre dos perigos horrorosos da inflação, da forma como a inflação come as poupanças das pessoas honradas que poupam para a sua velhice, das manipulações maléficas dos bancos centrais que promovem a inflação e destroem essas poupanças, etc. Muito me admiro agora por ver uma pessoa de direita como o José António a ficar preocupado, não com a inflação, mas com a deflação…

        1. “A culpa é sempre desses sacanas de amarelos”

          Nah, você está desactualizado: a culpa é dos alemães. Sempre.

          E não é China-bashing. É lamentar que toda a gente contribua para a bola de neve. Neste momento, pode ser mais visível na China mas a política do BCE vai no mesmo sentido, bem como, em menor ou menor grau actualmente, a da Fed, do Banco do Japão e do Banco de Inglaterra.

          Quanto é eu elogiei a deflação? Especialmente quando ela ocorre por desespero – de modo a manter a economia interna a crescer artificialmente, tomam-se medidas que aumentam o risco global. Se há coisa em que penso ter sido coerente ao longo do tempo, é na preferência por moedas relativamente estáveis (admito desvalorizações pontuais ou em países com economias ainda incipientes), de forma a não distorcer a concorrência e a forçar os empresários – e os políticos – a ganhos reais de produtividade. Uma guerra cambial dificilmente trará benefícios. Pelo contrário, tenderá a levar a proteccionismo. Basta ver o discurso de Donald Trump.

          1. Talvez o José António se lembre de quando era criança e a sua mãe lhe explicou que o Pai Natal afinal não existe, e da deceção que então sentiu.
            Pois eu agora tenho que dar-lhe outra deceção igual: esse mundo que o José António defende, em que ninguém manipula as moedas e elas são simplesmente estáveis, também não existe. É como o Pai Natal.
            Num mundo com Bancos Centrais que fixam taxas de juro, a manipulação da moeda existe sempre. Quer a taxa de juro seja aumentada, quer diminuída, quer mantida, estar-se-á sempre a manipular a moeda. Façam os chineses aquilo que fizerem, eles estarão sempre a manipular a moeda.
            É a vida, José António. É triste. Mas olhe, console-se: num mundo sem Bancos Centrais, a manipulação da moeda seria feita pelos bancos privados e seria muito maior e teria consequências muito mais catastróficas.

          2. Luís, tenha juízo e não confunda acções razoáveis com exageros. Quem acredita no Pai Natal é quem acredita que toda esta manipulação vai dar bom resultado – como, aliás, já está a dar.

  2. bancos centrais e governos entretidos a manipular taxas de juros e moeda

    Isso é aquilo que os bancos centrais sempre fazem e fizeram. Não é nenhuma originalidade do tempo atual. A essência da política monetária é a manipulação das taxas de juro. Tem sido assim desde há decénios.

    1. O ‘Bundesbank’ raramente o fez – enquanto tinha poder decisório – e junto do ECB é voz critica dessa abordagem que hoje parece demasiada desenfreada.
      Ou o Banco Central da Suiça, que recentemente (2015), abandonou a ligação ao Euro.

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