Atolados


Luís Naves,

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O post de José António Abreu, mais abaixo, é claro: os números começam a ser alarmantes e não vão melhorar, pois a balança externa piorou, as exportações estão em queda e o investimento diminuiu. O crescimento do primeiro trimestre foi inferior ao esperado, apenas 0,8%, o que indica abrandamento. É só um trimestre, mas o conjunto mostra uma tendência preocupante. Perderam-se 48 mil empregos em três meses, mais de 500 por dia, e se o indicador subiu em termos homólogos, os números sugerem um repentino e severo efeito social, pois estão a ser destruídos empregos por conta própria e pouco qualificados, de trabalhadores que terão dificuldade em regressar ao mercado laboral.

Portugal parece um sonâmbulo que se junta a outra hipnotizado, a Grécia, e as taxas de juro mostram que está por um fio a frágil credibilidade que levou anos a construir. Embora esteja preso a compromissos que não pode cumprir sem entrar em conflito com os credores europeus, o Governo aumenta a despesa pública e tenta cobrir essas verbas com aumentos de impostos. A almofada que herdou já se esvaiu e o debate político continua a ignorar os problemas na base desta crise, que dura desde 2009.

Os credores vão exigir cortes na despesa e, nesse contexto, o acordo entre partidos de esquerda não tem viabilidade. A crise rebentará provavelmente na altura em que for discutido o próximo orçamento, quando o País não pode ir para eleições, pois ficaria paralisado durante meses. E como é que será aprovado um orçamento com cortes na despesa impostos pelo Eurogrupo?

Isto vai correr mal, só não sabemos exactamente quando. O PS formou um governo minoritário que tem de fazer reformas difíceis e tomar decisões inevitáveis, mais apropriadas a um bloco central. António Costa deseja eleições, para formar um Executivo estável com o PSD, que possa ser ele a liderar, aposta que prejudica os partidos da esquerda que o apoiam. Aliás, no futuro (e tal como aconteceu em Espanha com Podemos e IU), comunistas e bloquistas terão de se entender. Enfim, não há acordo que resista à contradição dos interesses do PS e dos outros dois partidos, mas sobretudo não há acordo que resista à necessidade de cortes na despesa pública. Basta ler os comentários revolucionários que se multiplicam nas redes sociais para perceber como tudo isto criou uma crispação lírica na sociedade portuguesa, que lembra (em escala menor) outros tempos. As sondagens, neste caso, também são inúteis, pois referem-se a um cenário que não existirá em eleições: após a queda do Governo e a discussão dos seus motivos, as intenções de voto serão muito diferentes.

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