Almas sensíveis descobriram nesta madrugada, com evidente proveito, a toada tropical do Parlamento brasileiro. Tinham-lhes escapado, ao que parece, outros momentos igualmente saborosos: a elevada qualidade artística e política dos discursos de Lula em geral, o episódio do antigo Presidente proposto para função governamental para se eximir a uma investigação judicial ou o dos quatro ministros exonerados para poderem participar na votação. Eu, que assisto com um interesse distanciado, digo que estão bem uns para os outros. E que provavelmente nem uns nem outros estarão bem para o Brasil. Quanto ao resto, se vi no Parlamento brasileiro coisas do arco-da-velha? Vi sim. Vi até coisas que jamais poderia ver nos parlamentos de Havana ou de Caracas.
No peito dos desatentos também bate um coração
Rui Rocha,

Não compare Caracas a Havana. São incomparáveis. Quanto ao Brasil os corruptos vão destituir uma presidente que por sinal não tem nenhum processo por corrupção e vão pôr na Presidência alguém que tem vários processos. É preciso ser-se muito tapado e ter um Parlamento, cheio de corruptos, para não se ver que querem mais e mais corrupção, mas mais sofisticada. Como é possível ter um vice presidente, sentado numa cadeira como se se tratasse dum ser humano perfeito e sério, a tentar depor alguém que nada tem em Tribunal, enquanto ele, tem e vários. É preciso ver que é do cargo de Presidente que se trata e não do PT que a apoiou e como se os outros partidos que querem a destituição, fossem todos impolutos. Vergonhoso.
Ora, as razões para o impedimento são de ordem administrativa, um crime grave de fraude fiscal de seu primeiro mandato e que teve prosseguimento em seu segundo mandato, e não de corrupção, e este não é o único crime dela. Há uma série de pedidos de impeachment, com variadas acusações de crimes, sendo dois dos crimes mais graves o de obstrução de justiça (ao tentar nomear Lula) e a acusação de ter sua campanha financiada pelas empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobrás.
Outra coisa a se ressaltar é que grande parte dos que votaram à favor do impeachment eram da base aliada do governo, e o PMDB, partido acusado de ser o orquestrador do “golpe” (pois golpe não é, na verdade, ele está muito bem fundamento, seguindo os tramites legais definidos pelo STF, e caso haja alguma irregularidade, é possível recorrer ao mesmo STF) era o maior partido da base aliada. Esse isolamento político que o governo vem sofrendo se deve exclusivamente aos maus cálculos feitos pela presidente, sendo um deles o de nomear um deputado do PT para a presidência do congresso, contrariando o PMDB e em oposição ao Cunha. Outro erro foi a arrogância da presidente para com outros políticos, em especial seu desprezo por Michel Temer. É hipocrisia dizer que os que querem tirar ela são corruptos, pois esses mesmos políticos faziam parte do governo dela à 5 meses atrás.
Essa tragédia que Dilma Roussef vive foi causada exclusivamente por ela mesma, ela mentiu muito em sua campanha eleitoral, tanto que foram somente dois meses o tempo necessário para que a crise econômica estourasse e sua popularidade despencasse e um mega-protesto surgisse em março de 2015 pedindo sua renúncia.
Vi coisas que jamais poderia ver no parlamento de Caracas.
Creio que o parlamento de Caracas hoje em dia até está bem animado. Lembre-se o Rui Rocha de que a oposição a Maduro tem maioria parlamentar.
“Oposição a Maduro”?
“Um partido pode mesmo ser extinto se se torna incómodo demais. Aconteceu com Andrea: “Eu fiz parte de um partido que apoiou Hugo Chávez e quando decidimos não apoiar mais, apareceu num tribunal um requerimento de pessoas que diziam que eram do partido e o tribunal entregou o partido a essas pessoas…”
“Há dois anos que há uma lista enorme de partidos à espera de autorizações”
“Fui vereadora na Venezuela, estive em aliança com o partido do governo. Respeitaram os meus direitos enquanto conselheira. Quando assumi uma posição forte contra este governo foi-me impedido um direito que é o de ser presidente ou vice-presidente de uma comissão. Deixei até de ter acesso ao edifício da câmara municipal. Nem sequer tive direito à palavra na câmara”
“Mas há outros casos mais conhecidos, com o de Maria Corina Machado que, por ter aceitado o uso de palavra num organismo internacional, acusaram-na de delito de traição e retiraram a imunidade parlamentar e foi proibida de entrar no Parlamento Nacional”.
Pode ler a notícia (12 DE ABRIL DE 2015) na íntegra: olitico-da-venezuela-e-fascismo-4506526.h tml
http://www.dn.pt/globo/interior/regime-p
Talvez os comentadores possam explicar a dissolução da Assembleia quando era PM Santana Lopes.
Ou será na verdade o Golpe de Sampaio?
Caro Rui,
se me permite:
«Por que odiar o PT
A primeira vez que me deparei com uma urna eletrônica foi pra votar no Lula. E Lula se elegeu, depois de três tentativas mal fadadas. Lágrimas grossas escorriam pelo meu rosto: com a prepotência característica dos 16 anos de idade, tive a certeza de que era o meu voto que tinha feito toda a diferença.
A rua estava cheia de pessoas da minha idade que tinham essa mesma certeza. O Brasil tinha acabado de ganhar uma copa do mundo mas a euforia agora era ainda maior: foi a gente que fez o gol da virada. Parecia que o Brasil tinha jeito, e o jeito era a gente — essa gente que nasceu de 1982 a 1986 e votava agora pela primeira vez. Acabaram-se os problemas do Brasil
— a gente chegou. Lembro das ruas cheias, das bandeiras do PT, lembro de abraçar desconhecidos na Cinelândia — Lula lá, brilha uma estrela.
Logo vi que não era o meu voto que tinha feito o Lula se eleger, nem dos meus amigos, nem da minha geração. Quem elegeu o Lula — isso logo ficou claro — foi o José Alencar, os Sarney, o Garotinho, foi aquela Carta Aos Brasileiros e a promessa de que o Lulinha era Paz, Amor e Continuidade. Sobretudo continuidade.
Lula só alugou esse apartamento por 4 anos porque assinou um contrato de locação onde prometia entregar o imóvel i-gual-zi-nho. E Lula, por quatro anos, foi um inquilino dos 12311 sonhos — tanto é que renovou o contrato e ainda foi fiador da locatária seguinte. Fizeram mas mudanças — as empregadas passaram a ganhar mais — mas não fizeram o mais importante: uma desratização. Muito pelo contrário: os ratos de sempre fizeram a festa.
Caros amigos que odeiam o PT podem ter certeza de que odeio o PT tanto quanto vocês — mas por razões diferentes. Odeio porque ele cumpriu a promessa de continuidade. Odeio porque ele não rompeu com os esquemas que o antecederam. Odeio por causa de Belomonte e do total descompromisso com qualquer questão ambiental e indígena. Odeio porque nunca os bancos lucraram tanto. Odeio pela liberdade e pelos ministérios que ele deu ao PMDB. Odeio pelos incentivos à indústria automobilística e à indústria bélica. Odeio porque o Brasil hoje exporta armas para o Iêmen, o Paquistão, Israel e porque as revoltas do Oriente Médio foram sufocadas com armas brasileiras. Odeio porque acabaram de cortar 3/4 das bolsas CAPES.
O PT é indefensável — cavou esse abismo com seus pés. Mas assim como não fomos nós que elegemos Lula, engana-se quem vai às ruas e acha que está tirando Dilma do poder. Quem está movendo essa ação de despejo são os ratos que o PT não teve coragem de expulsar.»
DUVIVIER, Gregório – Caviar é uma ova. 1ª ed. Lisboa : Tinta da China, 2015. pp.231-232
Quem está movendo esse impeachment eram os ratos que a três meses atrás faziam parte do governo dela, e do qual o PT se uniu para roubar a Petrobrás. Vale ressaltar que Duvivier age como um hipócrita toda vez que tenta defender o PT.
Na tragicomédia que se vive intensamente no Brasil, releva um aspeto bem positivo.
O povo pode estar mais uma vez a ser enganado.
Mas para mim é claro que ele, mais mobilizado que nunca, o que quer é mesmo romper com o sistema que o oprime, começando por romper as regras que o sustentam.
É mais um sinal de esperança.
Se me permite ainda, caro Rui:
«My name is Cunha
Você conhece. Você confia. Please allow me to introduce myself. My name is Cunha, mas pode me chamar de Cramunhão, de Sete-Pele, Coisa-Ruim, Cão-Tinhoso, Cabrunco, Got-Sere-na, Caralho-de -Asa, Sinteco Gelado. Escrevo porque tem uma garotada por aí que está achando que eu vou cair. Mua-ha-há (difícil digitas risada malévola). Meninada, vamos ter uma aula de história? Eba. Vamos!
Sou muito, mas muito mais antigo do que vocês pensam. Cheguei aqui há uns 5oo anos, na primeira chacina de índios batizada de descobrimento. Lembra dos navios negreiros?
My bad. Guerra do Paraguai? Sorry about that. Tiradentes? Eu que esquartejei aquele comuna safado. Cabanagem, Sabinada, Balaiada, Canudos, eu que abafei a badernagem toda.
Mua-ha-há.
Aí você me pergunta: “Como saber que você é você, príncipe das trevas?” Dica: não procurem por um rabo pontudo, chifres, pele vermelha. Esse look é muito século 12. Dica:
a-do-ro um terno cinzão. Com uma gravata azul-bebê.
Também não tenho partido, muito menos ideologia. Cuidava da polícia política do Vargas ao mesmo tempo em que tocava fogo na favela em nome do Lacerda. 1964? Check. Benário, Herzog, Paiva, Angel, Chico Mendes, Amarildo? Check, check, check. Carandiru? My fucking idea. Candelária? Me, good old me. Meu nome é Legião. Mas não adianta procurar
legião no Face. No momento, atendo por outro nome.
Cansado de ser Sarney, saí do Maranhão com a sensação de dever cumprido. Vim para o Rio porque tenho muitos correligionários (PMDB mies, hehe). Assumi o nome de Cunha – abreviação de Cramunhão, quem pegar pegou – e não planejo sair deste corpo tão cedo. A -mo um implante malfeito e uma boca babada.
Uma dica: estou só começando neste corpo. Falta fazer muita coisa. Falta reduzir a maioridade penal para oito anos, falta intervenção militar, falta poder para as igrejas (sim, sou neopentecostal, ób-vio).
Acho fo-fo quem acha que vou cair. O homem que me nomeou presidente da Telerj, meu muso Fernando Color, caiu. E eu, nada. Meu compadre PC Farias, que me trouxe para a
política, caiu. Tomou teco. E eu, nada.
Filhão, é como diz o outro: “Mil cairão ao meu lado, ‘o mil à minha direita, mas eu não serei atingido”.
Já protagonizei 20 escândalos de corrupção e não cai. Se vocês acham mesmo que é uma miserinha de US$ 5 milhões que vai me derrubar… Vocês definitivamente não me conhecem.»
DUVIVIER, Gregório – Caviar é uma ova. 1ª ed. Lisboa : Tinta da China, 2015. pp.225-226
Presidenta inocenta? Expilica pró juiss, quirida…
A democracia é lixada.
Não interessa se é inocente ou não. Quem a sustentava já não tem confiança nela.